06.06.16

COLUNA RELEITURA - 06/06/2016

 

Vamos voltar para a selva

 

Daíza Lacerda

 

As condições climáticas da semana que passou são pertinentes para uma reflexão profunda no Dia do Meio Ambiente, celebrado ontem. Ventania, granizo e chuvas torrenciais assustaram mas, infelizmente, o falatório sobre os eventos pode ter ficado restrito ao medo e indignação sobre a (falta de) estrutura das cidades. Já escrevi antes que o problema não são as chuvas, mas nós. Mas e quando a chuva vem com tudo fora de época? E quando ela desapareceu quando era época? Falta de previsão continua não sendo desculpa.
Ao cruzar a cidade na noite de quinta-feira no meio do temporal mais volumoso de junho nas últimas décadas, com enxurradas de fazer inveja para qualquer chuva de verão, ficaram evidentes as negligências estruturais acumuladas desde que a cidade virou cidade. Bocas de lobo que, quando não estão em lugares errados, são inexistentes. Ou insuficientes no mar de impermeabilização do asfalto. Mas não se trata só da falta de cultura de planejamento urbano. A negligência é também com o planejamento ambiental.
A única conclusão possível na travessia chuvosa é que simplesmente plantamos o que colhemos. Enxurradas, enchentes, quedas de árvores: nada mais do que a reação à ação do homem, que insiste em subestimar a soberania da Mãe Natureza. O erro é simplesmente não respeitá-la - ou minimamente aprender com ela.
O mundo todo sofre com extremos nas condições. O que muda é a postura diante delas. Um exemplo perfeito é a reconstrução em tempo recorde após os terremotos e tsunamis registrados no Japão em 2011. No Brasil, por danos infinitamente menores, mas significantes, discursos se arrastam e estruturas não mudam. A postura é oposta. Que tipo de consideração esperar de uma concessionária de energia que alega "situação controlada" quando comércios perdem um dia de expediente com a falta de eletricidade ultrapassando as 12 horas? Quando operadoras telefônicas averiguam uma fiação caída no chão e nada fazem? E são serviços muito, muito caros. Mal prestados e mal regulados.
Somos reféns do nosso próprio conforto nestes tempos. Nessas horas é possível enxergar que não passa de ilusão toda essa infraestrutura de segurança que acreditamos ter. Criamos redes e serviços de ponta que são reduzidos a nada quando a natureza assim decide. Talvez a única forma de fugir da vulnerabilidade seja voltar para a selva, embora as demandas desses tempos estejam roubando até essa possibilidade, a exemplo da hidrelétrica de Belo Monte, erguida a um custo humano e ambiental imensuráveis.
Em "Nascido para correr", Christopher McDougall envereda pelos estudos de quais fatores determinaram a evolução do homem como corredor. Em dado momento da História, o homem literalmente corria horas atrás da caça, dependendo somente das próprias pernas, mente e fôlego para garantir a janta. Pensando bem, felizes deles. Não estavam nas mãos de economia, urbanização ou concessionária alguma, o que os obrigavam a conhecer e respeitar a natureza, aprendendo a sobreviver nas regras dela.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

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