08.08.16

Se você também foi uma criança que cresceu sob o encanto de obras como "ET - O Extraterrestre", vai me entender. E se também devorou os episódios de Stranger Things na sua rotina moderna e tecnológica, te convido à melancolia da comparação de gerações que não têm comparação. Sim, são os "novos tempos", ganhamos e perdemos. Mas, como conservar mais daquilo que era tão bom e escorre pelos dedos? As brincadeiras de crianças são outras, infelizmente mais dependentes de coisas do que de outras pessoas - esse é o fator mais triste. Os desafios se impõem primeiro a nós, "adultos", antes de indicarmos os caminhos às crianças. Que a verdadeira essência não se perca. Nem em nós, nem nelas.
Artigo de hoje da coluna Releitura, da Gazeta de Limeira, que fica off por um tempo, durante as férias de quem vos escreve.


COLUNA RELEITURA - 08/08/2016

A velha (e a nova) infância

Daíza Lacerda

Na semana que passou, a infância atual e a da "nossa época" foram motivo de considerações aqui na redação. O ponto de partida da discussão foi a série Stranger Things, da Netflix. Ela arremessa nós, "trintões", de volta aos saborosos anos 80 da infância, com filmes de amizades e acontecimentos extraordinários. Inevitável pensar como as produções de hoje valorizam mais os efeitos de computação gráfica do que as boas histórias, tendo no tal CGI uma muleta para arrebatar multidões aos cinemas, exagerando na dose visual e relaxando na emocional.
Apesar de também ter efeitos, a curta primeira temporada de Stranger Things resgatou o senso de companheirismo, a amizade que nasce e se fortalece genuinamente - apesar dos monstros. Os quatro amigos que transitam pela cidadezinha de bicicleta, que têm uma cabana na floresta, parecem remeter a outro mundo, distante algumas décadas que parecem milênios.
Porque parece que faz tempo que vivemos no reino das telas de alta resolução, e não das bicicletas e das reuniões no porão ou quintal, cara a cara, com a imaginação ditando os jogos, como os de tabuleiro, que exigem interação física. Vivemos na era em que o movimento só acontece quando assim dita o mundo virtual, como o Pokémon Go ou Kinect, sensor de videogame que faz o jogador dançar ou praticar algum esporte. Dentro da sala.
A nossa geração, que viveu tempos de jogar queimada ou taco na rua sem se preocupar com o tráfego intenso ou ladrões e sequestradores, cercará seus filhos de todos os cuidados que a tecnologia e segurança poderão proporcionar, na melhor das intenções. Conseguir resgatar o mínimo de liberdade que vivemos lá nos anos 80 demandará não só muita criatividade, mas escolhas que vão interferir diretamente no meio de vida, inclusive profissional.
As crianças saberão inglês antes da adolescência, ensinarão informática aos pais, vão zerar os níveis dos jogos, passar de primeira no vestibular. Mas talvez não saibam o que é ralar o joelho aprendendo a pedalar ou tropeçando no pega-pega, que não dominarão a imensidão de um bairro com a sua turma, mas espaços delimitados, por tempos delimitados, eventualmente. Talvez não consigam ter mais atenção nas pessoas do que nas telas.
Reconheço que sempre fui chegada nos aparatos eletrônicos, mas é muito chato tentar travar uma conversa com quem está mais interessado nas telas do que na gente. E isso tem virado regra entre crianças, sob "exemplo" dos adultos. O início da matéria publicada na sexta, na Gazeta, da repercussão do Pokémon Go em Limeira, reflete exatamente o que aconteceu na busca de depoimentos no parque: entrevistas entrecortadas pelo jogo, ainda que ele fosse o assunto.
De minha parte, fico feliz com a lembrança de, num aniversário, descer ao Centro de ônibus com a minha mãe, escolher meus patins no Palácio dos Brinquedos (que parecia mesmo um palácio!) e passar uma das tardes mais ansiosas da minha infância até que a aula da 2ª série acabasse, para curtir meu brinquedo novo, na rua, com a criançada. Talvez os caçadores do Pokémon jamais saibam o que é isso.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

01.08.16

É sempre mais fácil reclamar dos candidatos do que procurar fiscalizá-los a contento, não é? A urgência de fazermos nossa parte como eleitores (cidadãos!) é assunto do meu artigo. Convido a refletir, de forma séria, sobre a nossa postura como quem elege, e não "lavar as mãos" diante de todas as consequências que colhemos a partir do nosso voto. Por mais clichê que seja, a mudança está, sim, em nossas mãos, e essa responsabilidade não termina na urna, mas começa. Não basta eleger, tem de acompanhar, cobrar, contribuir, participar. Isso depende de uma longa mudança cultural, é verdade. Mas não existe maratona sem o primeiro passo!

COLUNA RELEITURA - 01/08/2016

O eleitor é que precisa evoluir

Daíza Lacerda

Pode não ser nos próximos quatro anos. Nem mesmo neste milênio. Mas a postura do eleitor precisa mudar tanto quanto a batida fórmula dos candidatos. Cobramos sangue e ideias novos, mas nós mesmos não evoluímos o nosso "relacionamento" com políticos e com a política. O esquecimento em quem votou em eleições passadas é uma das evidências mais graves.
É fato que nunca tantas pessoas serão cumprimentadas em inícios e meios de mandato como serão nos próximos meses. Já se ouve por aí que "vai começar" aquilo tudo que a gente já conhece na rotina pré-eleições, seguida de um revirar de olhos. Boa parte não consegue esconder o desânimo, já esperando mais do mesmo: discursos, promessas, quintais e ruas imundos com santinhos e a encheção de saco dos carros de som.
Sei que a descrença nas instituições é considerável, e não sem motivo. Só não dá para ignorar que as instituições são reflexos das nossas escolhas e, principalmente, dos nossos desleixos. Milhares elegem um vereador ou deputado, mas quantos acompanham sua conduta durante o mandato? Verbalizar em rede social é fácil, mas quem vai no gabinete para cobrar posição e atuação condizentes? Daí, chega esta época, emerge o circo do desespero como o retratado na última sexta nesta Gazeta, em matéria da jornalista Érica Samara, sobre a quantidade de proposituras arquivadas por serem ilegais. Parte das dezenas de pessoas que são pagas com o nosso dinheiro para legislar e fiscalizar, sequer sabe uma coisa ou pratica outra. Isso só para ficar no âmbito municipal.
Quero acreditar que nossos critérios como eleitores é que serão responsáveis por elevar o nível principalmente de comprometimento de candidatos, ainda que eu não esteja viva para usufruir disso. Afinal, dependerá de uma profunda mudança de cultura que, felizmente, começou, ainda que tímida perto da revolução que necessitamos. Antes tarde do que mais tarde.
Já passou da hora, por exemplo, de acabar com os votos de protesto, elegendo figuras cujos perfis são evidentemente inaptos para qualquer cargo eletivo. Já passou da hora de torcer o nariz para horário político, e tentar avaliar as propostas - para avaliá-las e cobrá-las no futuro, se for o caso. No mínimo, vai garantir risadas, o que é quase inevitável na campanha televisiva.
Estamos mais céticos, mas muitos ainda se rendem à ingenuidade perante a imagem. Passou da hora de se deixar levar pela trilha sonora envolvente, pelo sorriso falso nas fotos, pelos terninhos e camisas, pelo excesso de base facial ou de Photoshop mesmo e ir direto ao que interessa. Não basta saber quais são as propostas, mas a viabilidade, como serão executadas, se são possíveis ou palavras ao vento. Estamos condicionados às promessas vagas. E na hora do vamos ver, a velha justificativa da falta de verba, de entraves jurídicos.
Nós também temos de ser realistas o suficiente para saber o que é e o que não é possível dentro das fórmulas que nos serão vendidas. Não dá para tolerar ingerência e má vontade, mas também não dá para esperar milagres. Para isso, é preciso se envolver, se interessar o mínimo para entender as engrenagens que fazem uma cidade evoluir ou não. Nada menos do que exercer a cidadania.

 

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

18.07.16

COLUNA RELEITURA - 18/07/2016

O valor da memória

Daíza Lacerda

Não sei você, mas eu paro para flores, animais e histórias. Numa época tão fugaz como a nossa, vejo até como um alívio a possibilidade de se transportar para outros tempos, principalmente os que não vivi. Quando encontram um velhinho bom de papo, a pauta inevitavelmente é direcionada a mim, com os editores já esperando algum "livro" como fruto de conversas com o privilégio de não serem apressadas.
Mas, a cada dia que passa, é mais difícil se aprofundar, ou encontrar alguém lúcido o bastante e disposto a contar. Assim, temos um acervo infinito escondido em mentes, com a triste possibilidade de que não saiam dali.
Por isso, foi emocionante descobrir o testemunho do limeirense Orlando Forster como ex-combatente da Revolução de 32, cujas passagens reproduzi em matéria dedicada ao fato histórico em 9 de julho. Lembro de ter entrevistado o seu Ulisses, último sobrevivente, com a idade já bem avançada, e alguns lampejos da participação no embate. Imagino o que poderia ter ouvido se tivesse a oportunidade de ter chegado antes.
Faço tal colocação porque vejo que muitas pessoas, tomadas pela sua rotina, acabam não aproveitando o baú de sabedoria que têm acesso: seus pais, tios, avós, bisavós. Não importa a instrução, mas sim o que viveram e podem contar. Mas estamos sempre tão ocupados para ouvir...
Na semana em que minha avó paterna fez a sua passagem para outro plano, foi inevitável creditar a ela o meu apego às histórias. Primeiro nossas, depois a dos outros. Inevitável a reflexão sobre o que pude absorver de sua vivência, de tempos agora perdidos pelo elo mais antigo que eu tinha com o passado, e que se foi.
Infelizmente, as consequências da negligência com a memória talvez sejam percebidas tarde demais. É algo que já nos damos conta hoje, mas não sabemos qual será o impacto no futuro. Não sabemos mensurar o tamanho da história oculta em objetos ou recordações, talvez por não termos essa cultura, como em outros países. Aqui, as pessoas tendem a se livrar das velharias.
Nosso patrimônio histórico é (mau) exemplo. Infelizmente, parte é herdada por pessoas que não têm interesse em preservá-la. E quem tem, não tem meios, na maioria das vezes. Assim, fragmentos da nossa história viram entulho. É uma transformação tão dinâmica, que a Limeira que minha avó viveu está na memória. O que a Limeira que eu vivo representará aos meus descendentes daqui algumas décadas? Nós registramos essa história todos os dias, mas não temos ideia do tom que este livro do cotidiano vai ter, lá na frente.
Até hoje ganho broncas pelo espaço consumido com o meu apego a papéis, arquivos. Ainda tenho a esperança de que, o que hoje não passa de "lixo", um dia seja o tesouro de alguém que não testemunha esses tempos. Assim como, eventualmente, tenho a oportunidade de acessar tesouros de quem teve o cuidado de preservar qualquer indício do passado.
A sensação é sempre de que o tempo passa cada vez mais rápido. Mas, na ânsia de avançar, não sabemos o quanto perdemos em não olhar para trás.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

11.07.16

COLUNA RELEITURA - 11/07/2016

 

Quando o absurdo é a regra

 

Daíza Lacerda

 

Sim, vai ter Olimpíada! Sou super a favor da realização dos Jogos no Brasil e faço campanha para que as pessoas se desprendam dos ranços políticos e aproveitem a oportunidade de ter por perto um evento histórico.
Mas... por mais chances que a gente dê, alguns agentes públicos conseguem contrariar leis como a da lógica. Temo quando irão dominar até a da gravidade, diante de feitos que julgaríamos impossíveis, mas eles realizam.
O choque é devido à foto do poste na ciclovia do Parque Olímpico no Rio de Janeiro, literalmente um retrato do descaso à mobilidade e ao esporte, na cidade que se ostenta como "academia natural". Como se não bastasse a queda de um trecho de ciclovia, inclusive com vítima fatal.
Parece cômico, mas é trágico. Assim fica difícil acreditar que há seriedade no trato da coisa pública, até mesmo defender um evento tão tradicional com ameaças de ser manchado pela também tradicional falta de gestão eficiente dos recursos. O pedido de socorro ao governo federal evidencia a vergonhosa falta de planejamento da cidade e Estado do Rio. Mas estamos num país que é mais difícil assumir as limitações do que reconhecer quando não dá. Como já ouvi muito, "não guenta, não tenta". Mas, também, como se diz, brasileiro não desiste nunca.
Só que a vocação de remar contra a maré se espalha de forma espantosa, como em exemplo de outra esfera. Só a intenção de aceitar um simpatizante da ditadura militar para chefiar a Funai já seria uma ofensa. Mas a cereja do bolo é a indicação partir de um partido "cristão", dentro de uma barganha de cargos previamente acertada. Partido este que não considera tal posicionamento um constrangimento, aludindo à "democracia" de cada um defender o que quer. Resumo da ópera em reportagem da Folha: http://bit.ly/29lHt9W. Não sei se estou equivocada ou o partido, nem se estamos tratando do mesmo fato, aquela mancha na história brasileira que até hoje oculta corpos, razões e sabe-se lá mais o quê, em nome de qualquer coisa, menos da democracia. A nomeação foi barrada graças à intervenção do Ministério da Justiça, mas só depois depois de muita repercussão.
É triste ainda precisar garantir justiça "no grito", e ter de demandar mais energia em coisas que deveriam nos tranquilizar (ter uma ciclovia) e não nos preocupar (como um poste no meio dela).
Drummond, que jaz em bronze lá em Copacabana (também vítima com os inúmeros furtos dos seus óculos), sabia de nada, inocente. Pedra é para os fracos. No meio do caminho tinha um poste. Na paciência tão fatigada do brasileiro, vai à prova qual dos acontecimentos nunca serão esquecidos: os Jogos ou as falhas.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

04.07.16

O artigo desta semana é sobre o professor Fumaça, e a nova fase que testemunha daquela que foi a sua casa por quase 50 anos, a pista do Tiro de Guerra. Neste texto peço licença para misturar a jornalista e corredora amadora, dividindo um fragmento do filme que passou na minha cabeça ao fazer parte daquele espaço e ter acompanhado tão de perto a transformação pela qual passou. No mais, fica a minha admiração ao professor e o agradecimento por mais uma lição: o amor incondicional ao que se tem como missão de vida, ainda que isso exija o desapego.

 

COLUNA RELEITURA - 04/07/2016

 

Ao mestre, com carinho

 

Daíza Lacerda

 

Foi ao ver a foto postada na rede social que me mei dei conta da relação de causa e efeito entre o exercício da profissão e o gosto pessoal pela corrida que me tomou há alguns anos. No álbum da inauguração do piscinão na fan page da ALA, o atleta Hiei Germano registrou minha entrevista com um Fumaça emocionado ao voltar ao local no qual se dedicou por quase meio século ao atletismo.
Lembrei que era uma sedentária quando entrevistei o Fumaça pela primeira vez. À época, a pauta era uma das edições da corrida Ainda. A matéria teve também depoimentos de deficientes que arrasavam (e ainda arrasam) nas pistas, o que me deixava mais envergonhada de não ter coragem de me mexer. Isso mudaria tempo depois, quando pisei pela primeira vez na pista do Tiro de Guerra, com um par de tênis velho e um par de canelas muito finas e fracas.
Ainda não fazia ideia da vasta formação que a pista havia proporcionado. Histórias de gente que passou a juventude ou infância trotando ou acelerando ali pipocaram quando a pista seria fechada para obras do piscinão. As máquinas escavadeiras chegaram antes do esperado, e foi de cortar o coração ver o professor deixar aquele que era o seu lar. Na verdade, era como um lar a todos que habitavam, inclusive eu que, à epoca, mal havia aderido à equipe. Tudo tinha significado, desde o pomar nos quais as galinhas descansavam à escadaria, gramado, e falhas na pista que todos conheciam de cor. Era impossível não se sentir em casa com tanta hospitalidade.
Fiquei surpresa ao constatar o quanto Fumaça havia acostumado ao "novo lar", na área ao lado da Câmara Municipal - que também foi um parto para ser viabilizada. Era um desapego que não esperava dele, mas que se mostrou tão importante quanto se apropriar dos locais públicos de forma sadia.
A pista disponível hoje não é mais a mesma, e precisará de adequações. Assim como a área do Piratininga, que foi totalmente transformada pela ALA à época, quando se encontrava fechada e abandonada. Se o piscinão promete iniciar um novo capítulo na drenagem, talvez a transformação que está por vir na então tradicional pista também seja uma oportunidade para renovar e alavancar o atletismo em Limeira.
O professor estava indeciso. Disse que ficaria na pista a qual fosse designado, sem sinais de querer se aposentar. Quem já presenciou seus treinos morro acima na tutela de jovens pangarés como eu e muitos outros, sabe que não largará o osso até que lhe faltem forças. Problemas de saúde o tiraram das competições por um tempo. Paciente, esperou e voltou nos Jogos Regionais do Idoso (Jori) deste ano, garantindo medalha.
A saga do piscinão, nos dois anos entre a primeira escavada e a inauguração, pode até ter parecido um dia como uma eternidade, mas imagino como deve ter sido presenciar, de fato, o pulo de gerações à maneira que Fumaça testemunhou. O tempo entre a construção e reconstrução teria passado na velocidade de um tiro dos 300 metros que a pista tinha? O peso, velocidade e valor dos anos está além do que a nossa geração pode mensurar. Mas, como um patrimônio vivo, Fumaça sobrevive ao tempo de olhar para o novo, com a sabedoria do veterano.

 

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

27.06.16

E como é que faz para entrevistar um ídolo segurando a tietagem? Meu nervosismo foi embora nas primeiras trocas de ideias na entrevista com a Ariane Monticeli, fera do triathlon de longa distância (pra quem perdeu, matéria na íntegra em http://bit.ly/28Y5Go2). Desliguei o telefone e lembrei daquele longínquo e inusitado encontro com o Neymar, e da distância estratosférica de tratamento de ambos os campeões. A vida de nenhum atleta é fácil, mas não é raro enchermos demais a bola (principalmente a bola!) de quem tá mais preocupado com holofote do que com resultado. Mais em ostentar grifes do que fazer bonito pela própria Nação. Vamos olhar mais pra quem está ralando de verdade. Se as Olimpíadas não forem uma oportunidade pra isso, só Deus sabe quando seremos capazes de reconhecer os esforços genuínos de tantos anônimos que treinam além de seus limites.

COLUNA RELEITURA - 27/06/2016

Gente como a gente

Daíza Lacerda

Em meados de 2014, era início da noite de domingo quando eu e famíliares saímos da Bolsa do Café, em Santos, antes de seguir de volta para o interior. Nas calçadas já escuras da região histórica da cidade litorânea, uma movimentação nos chamou atenção. Era ninguém menos que o jogador Neymar, desembarcando de um carro importado que não faço ideia de qual seja, com seu filho no colo e um outro acompanhante, e um grupo considerável de fãs atrás. Parou para meia dúzia de fotos, antes de sair correndo na noite que já se instalara. Isso foi depois daquela lesão que teve em campo, em plena Copa do Mundo, no Brasil. Na noite e num local cujas opções próximas eram barzinhos, a celebridade na qual uma Nação inteira depositara as esperanças da taça parecia muito bem, obrigada.
Me lembrei dessa passagem no final da última semana, ao entrevistar a Ariane Monticeli, que viria a Limeira para palestra e treino, trazida pelo nadador limeirense Diego Prado. Craque no que faz, ela seria uma versão feminina do Neymar no triathlon que, como tantos outros esportes, está longe dos holofotes monopolizados pelo futebol, exceto pelas coberturas especializadas naquela modalidade ou campeonatos muito, muito específicos.
No contato com ambos, Neymar parecia um rei. Ariane, parecia minha vizinha. Conversou comigo como me conhecesse há tempos e não poupou detalhes de sua árdua trajetória na busca da vaga do mundial de Ironman. Mas, como a fama a precede, não esperava algo diferente daquela que divide a rotina com seguidores, na alegria e na dureza de trazer de volta ao Brasil aqueles feitos até hoje conquistados pela lenda Fernanda Keller, como os títulos nacionais e boas posições internacionais.
Mais uma vez, nos limites da lauda não couberam a paixão dessa mulher pelo que faz, e o quanto está disposta à luta. Conversamos num momento em que ela parecia especialmente esgotada, e se preparando para quatro semanas de treino a serem cumpridas em três. Limite da força e disciplina na alimentação fazem parte da rotina da gaúcha radicada na capital paulista que adora doces e lida com o trânsito para conseguir treinar. Ela diz que é uma pessoa normal, cumpre expediente na firma (o Esporte Clube Pinheiros), programa férias. Só que não consegue dizer não para as selfies e questionários intermináveis dos admiradores, em sabatina que prolonga as suas palestras, nas quais não poupa detalhes de sua vida de mulher de ferro.
As posturas desses atletas expõem mais do que parece, pois falta muito valor onde realmente precisa. Tem muita gente investindo suor e força imensuráveis em trabalhos que são pouco ou nada reconhecidos. Exemplo são os atletas paralímpicos, cujo desdém veio do próprio Comitê Olímpico na divulgação e venda dos ingressos das disputas olímpicas dos deficientes. Esses atletas, justamente por chegarem ali, se mostram muito mais eficientes que muita gente com corpo e mente íntegros.
Outro furo é a recente estreia do filme Paratodos, cujo elenco são atletas paralimpicos e as suas jornadas rumo ao pódio. Alguém viu em cartaz em algum cinema aqui do interior? Nem eu.
Mais do que lamentações, que fiquem os exemplos. Embora extraordinários, atletas são gente como a gente. A postura de cada um - e a nossa diante deles - pode ensinar muito.

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publicado por Daíza Lacerda às 08:30

20.06.16

Meu artigo de hoje traz o lado B da ‪‎reportagem‬, aquilo que nem sempre cabe na tal da objetividade ‪‎jornalística‬. A satisfação sincera, aquela alegria genuína incontida, são manifestações que podem passar ao largo dos limites da lauda, mas é impossível sair imune a demonstrações como essas. Betinho dá a cara a um trabalho que é de equipe, mas para ele é muito mais. É uma ‪‎missão‬ de vida. Dedicada a outras vidas vulneráveis. O ‎inverno‬ quer se fazer de difícil. Vamos ver se ele é páreo para o riso do Betinho.

 

COLUNA RELEITURA - 20/06/2016

O riso do Betinho

Daíza Lacerda

Não era exagero: ele parecia querer soltar fogos de artifício para comemorar. Não se continha de alegria diante das dezenas de camas arrumadinhas, coloridas, à espera de alguém para aquecer. Era a materialização de um ideal pelo qual trabalhava muito antes de entrar no serviço público. Reluzia a alegria de Albert Neves, o Betinho. Coordenador de abordagem social por profissão. Acolhedor de moradores de rua por vocação.
A sensibilidade aflorada nesta época de tanto frio é constante na vida de Betinho, que é facilmente visto percorrendo a cidade numa Kombi branca da prefeitura, levando e trazendo pessoas com as mais variadas carências: de comida, de estrutura familiar, de um lar. Faltas que a assistência social tenta suprir em serviços como o do Centro Pop, mas que dependem também do comprometimento e colaboração da própria pessoa.
Foi em meados de 2011 que conheci a missão Anjos da Noite, da Comunidade São Judas Tadeu, da Paróquia Santa Isabel. Uma equipe passava a noite percorrendo as ruas para dar o que comer e onde dormir a quem aceitasse. Lá, conheci Betinho, outros fundadores e voluntários, e um mundo de histórias que não poderia ser contado numa única matéria, mas rendeu uma série delas. Qual não foi minha surpresa em vê-lo em ação no Ceprosom, prestando no serviço público municipal aquilo que já adotara como missão de vida.
É fato que a burocaria sufoca os serviços. Mas há áreas que simplesmente perdem a razão de ser, caso não sejam movidas por quem se identifica com elas. Na assistência social, o acerto é reconhecido de longe quando o trabalho é feito por quem tem o dom. Não é qualquer um que sabe abordar, ouvir, orientar. Essa é uma carência gritante, por exemplo, em alguns setores da saúde pública (e até particular), nos quais as pessoas já chegam fragilizadas, e muitas vezes recebem atendimento com desdém, para dizer o mínimo. Isso quando um mero sorriso pode fazer toda a diferença.
Numa semana em que dezenas foram mortos num vergonhoso ataque homofóbico e que uma deputada é assassinada a tiros e facadas, tudo no "primeiro mundo", é de se perguntar aonde o mundo vai parar se nem os países mais desenvolvidos estão imunes à barbárie. Porém, são singelos os sinais de que, apesar de tudo, ainda não é hora de perder a fé na humanidade. Felizmente, temos escondidinhos por aí raios de sol que só se mostram na hora certa, e a quem precisa. Sem alarde, mas com eficácia.
A partir da noite de hoje, os apetrechos precários, cinzentos, de quem tem a rua como casa, serão substituídos por cobertores, edredons de todas as cores. Na baixada do Centro, tão mal referenciada como o ponto da miséria e das inúmeras vulnerabilidades possíveis, mãos, mentes, corações e ideais de equipes tornaram real o verdadeiro hotel 5 estrelas de quem só tem as marquises como teto. Na baixada do Centro, no leva-e-traz cidade afora, o riso do Betinho é o calor dos corações anônimos acolhidos no meio na noite fria.

 

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publicado por Daíza Lacerda às 08:30

06.06.16

COLUNA RELEITURA - 06/06/2016

 

Vamos voltar para a selva

 

Daíza Lacerda

 

As condições climáticas da semana que passou são pertinentes para uma reflexão profunda no Dia do Meio Ambiente, celebrado ontem. Ventania, granizo e chuvas torrenciais assustaram mas, infelizmente, o falatório sobre os eventos pode ter ficado restrito ao medo e indignação sobre a (falta de) estrutura das cidades. Já escrevi antes que o problema não são as chuvas, mas nós. Mas e quando a chuva vem com tudo fora de época? E quando ela desapareceu quando era época? Falta de previsão continua não sendo desculpa.
Ao cruzar a cidade na noite de quinta-feira no meio do temporal mais volumoso de junho nas últimas décadas, com enxurradas de fazer inveja para qualquer chuva de verão, ficaram evidentes as negligências estruturais acumuladas desde que a cidade virou cidade. Bocas de lobo que, quando não estão em lugares errados, são inexistentes. Ou insuficientes no mar de impermeabilização do asfalto. Mas não se trata só da falta de cultura de planejamento urbano. A negligência é também com o planejamento ambiental.
A única conclusão possível na travessia chuvosa é que simplesmente plantamos o que colhemos. Enxurradas, enchentes, quedas de árvores: nada mais do que a reação à ação do homem, que insiste em subestimar a soberania da Mãe Natureza. O erro é simplesmente não respeitá-la - ou minimamente aprender com ela.
O mundo todo sofre com extremos nas condições. O que muda é a postura diante delas. Um exemplo perfeito é a reconstrução em tempo recorde após os terremotos e tsunamis registrados no Japão em 2011. No Brasil, por danos infinitamente menores, mas significantes, discursos se arrastam e estruturas não mudam. A postura é oposta. Que tipo de consideração esperar de uma concessionária de energia que alega "situação controlada" quando comércios perdem um dia de expediente com a falta de eletricidade ultrapassando as 12 horas? Quando operadoras telefônicas averiguam uma fiação caída no chão e nada fazem? E são serviços muito, muito caros. Mal prestados e mal regulados.
Somos reféns do nosso próprio conforto nestes tempos. Nessas horas é possível enxergar que não passa de ilusão toda essa infraestrutura de segurança que acreditamos ter. Criamos redes e serviços de ponta que são reduzidos a nada quando a natureza assim decide. Talvez a única forma de fugir da vulnerabilidade seja voltar para a selva, embora as demandas desses tempos estejam roubando até essa possibilidade, a exemplo da hidrelétrica de Belo Monte, erguida a um custo humano e ambiental imensuráveis.
Em "Nascido para correr", Christopher McDougall envereda pelos estudos de quais fatores determinaram a evolução do homem como corredor. Em dado momento da História, o homem literalmente corria horas atrás da caça, dependendo somente das próprias pernas, mente e fôlego para garantir a janta. Pensando bem, felizes deles. Não estavam nas mãos de economia, urbanização ou concessionária alguma, o que os obrigavam a conhecer e respeitar a natureza, aprendendo a sobreviver nas regras dela.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

30.05.16

COLUNA RELEITURA - 30/05/2016

Seres humanos?

Daíza Lacerda

A indignação acerca do abuso sexual coletivo de mais de 30 homens contra uma adolescente de 16 anos vai muito além da violência, do desrespeito, do machismo e da cultura do estupro e da impunidade. Obriga a considerar seriamente o tipo de seres humanos que estão entre nós. Se é que podem ser nomeados assim. Como se classifica uma pessoa que é capaz de estuprar uma garota e ainda ostentar a violência? E 30? Qual o limite da baixeza?
O fato de uma situação dessas ocorrer e permanecer impune (pelo menos até o momento) não referencia indivíduos, mas escancara uma sociedade. Não só aquela que não respeita a mulher e a vontade dela. É aquela que não respeita o seu semelhante, o próximo, independentemente da sua condição. O que esperar disso, senão mais barbárie?
Essa não é uma realidade só do Brasil, assim como a negligência e impunidade não são marcas só do nosso país. Mas ainda conseguimos surpreender. Não deveríamos. A atitude tem de prevalecer sobre a surpresa.
A impunidade de estupros chamou atenção do jornalista Jon Krakauer. O aventureiro autor de "No ar rarefeito", que deu origem ao recente filme Everest, mudou de pauta e foi investigar os abusos na universidade de uma cidade norte-americana. Deu origem ao livro "Missoula", recentemente lançado no Brasil. A literatura estrangeira também tem a culpa de Stieg Larsson, já falecido. Na série iniciada com "Os homens que não amavam as mulheres", o autor sueco transforma Lisbeth no exemplo de empoderamento e justiça, dando à personagem o nome da menina de 15 anos que ele viu sofrer um estupro coletivo, sem ter feito nada para impedir.
Se investigada seriamente, a incidência no Brasil também renderia livros e, trazendo à tona uma situação que não é pontual, como fazem parecer os casos mais bárbaros. Enquanto isso, muita gente ainda assiste de braços cruzados. Afinal, há dezenas de famílias ocultando monstros que são autores desses crimes. Não encoberte um monstro. Principalmente: não crie um monstro.
Quem (o quê) são, o que fazem e de onde vêm os estupradores? Talvez sejam as perguntas erradas. A questão é: por que ainda há quem cometa esta e outras barbaridades contra pessoas? Será só a impunidade? Será alguma patologia ainda não estudada a fundo? Ou será a nossa permissividade ao darmos a audiência que eles querem sem revertê-la numa eficiente punição? Afinal, se o machismo em tempos como o nosso está ao lado, firme, que dirá sobre os outros desvios de conduta disseminados como se não houvesse amanhã.
É cômodo viver na ignorância de que esses casos são mais frequentes do que imaginamos. Mas não podem, de forma alguma, serem tratados como comuns. Estamos, sem perceber, de várias formas, perdendo referências morais da nossa própria espécie - que deveriam ser o que nos diferencia. Preconceito contra a mulher. Contra o negro, o homossexual. O pobre. Derrubadas todas as grades da classificação, é o homem x homem. A voracidade do ser humano na destruição da sua própria carne e sangue é de envergonhar o mais primitivo dos animais.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

23.05.16

COLUNA RELEITURA - 23/05/2016

Nada cairá do céu

Daíza Lacerda

Algumas situações recentes me levaram a pensar que, embora possivelmente estejamos na época mais intensa de atividades de todos os tempos, também há uma parcela considerável tomada pela inanição, pontual ou não. Muita gente reclamando demais e agindo pouco para, de fato, mudar o que lhe incomoda.
Exemplos não faltam. Há algumas semanas, alunos da Unicamp foram às ruas protestar contra a falta de segurança no entorno do campus. Mas quantos saem das festas nas repúblicas para registrar um boletim de ocorrência? Cadê os estudantes em peso para cobrar e discutir a situação nas reuniões mensais do Conseg?
Não para por aí. Também tem ocorrido reclamações de moradores do Jardim Ibirapuera, que alegam aumento da circulação de andarilhos após a implantação do Centro Pop no bairro. Mas quantos moradores abordados foram pedir providências justamente no Centro Pop, ou tomar a atitude de ligar para o 153 ou 199 para abordagem social da pessoa em situação de rua?
Sujeira na cidade afora também é queixa recorrente. Muita gente não se dá ao trabalho de registrar pedidos no 156, e "terceirizam" o serviço para o jornal. No entanto, há pessoas que colecionam protocolos sem serem atendidas pelo poder público, o que realmente justifica a divulgação do problema. Muitas vezes, moradores gastam mais tempo reclamando com vizinhos do que de fato fiscalizando e agindo em sua comunidade. A ineficiência está em não dar conta de limpar ou do povo não aprender a não sujar? Deixar a responsabilidade para os outros é fácil. E a nossa parte?
O trânsito também é campeão da má vontade. Só que nós também somos o trânsito. A partir do momento em que se opta pelo veículo particular, vamos inevitavelmente dividir (disputar?) espaço. Vai resolver mais reclamar ou se programar para sair em horários alternativos?
Ignoramos o quanto a passividade pode nos custar. Recentemente entrei numa discussão sobre a velhice, e a "obrigatoriedade" de filhos terem de cuidar dos seus idosos. Pensando daqui adiante, num contexto de longevidade muito maior do que a de nossos antepassados, como estamos nos preparando para os nossos anos finais? É justo contar que alguém cuide de nós quando temos plenas condições, agora, de nos preparar para viver mais e melhor? Não é responsabilidade nossa providenciar plano de saúde, exames periódicos preventivos, poupança e hábitos saudáveis para ter o mínimo de dependência possível quando isso for inevitável? E o que garante que haverá alguém por nós lá na frente? Como vamos saber por quais caminhos nossos entes serão levados, se eles terão disponibilidade ou interesse de olhar por nós? Amor da família é importante, mas o amor próprio também. Sempre é hora de se cuidar.
Se tanta gente não se mexe para garantir o mínimo, o que será do todo? Infelizmente não reina entre nós a cultura do planejamento, que é o essencial para qualquer objetivo. E por que terceirizar o que é do nosso interesse, em qualquer âmbito?
Há uma máxima que diz que não dá pra esperar resultados diferentes quando se faz as mesmas coisas. É fato. Sem ação ou reação, nada cai do céu. Nem mesmo a chuva, que depende de fenômenos e determinadas condições para se materializar.

 

Publicado na Gazeta de Limeira.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

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