01.12.08

O trabalho sobre duas rodas começa a abrir espaço para o público feminino


Texto e infográficos: Daíza Lacerda

 

A saga diária dos motoboys é conhecida pela corrida contra o tempo e pelos constantes perigos no trânsito. Mas o trabalho sobre duas rodas, antes dominado pelos homens, começa a abrir espaço para o público feminino.

O número de mulheres pilotando motocicletas é crescente: em concessionárias de Limeira, o índice de vendas varia de 15% a 30%, dependendo da loja. Eduardo Panciero, gerente da Intermotos Sundown, diz que geralmente as motonetas são o carro-chefe das vendas, que chegam a 65% para elas. No caso das 125 cilindradas, aproximadamente 40% são compradas por mulheres. "Acredito que destas, 40% sejam destinadas ao trabalho", completa Panciero.

Com vendas para mulheres estimadas em 20%, Ademar José Custódio Junior, gerente da Official Suzuki, ressalta que o crescimento das vendas para o público feminino é constante: "Para elas, as vendas sobem média de 5% ao mês".

De acordo com o Ciretran, havia mais de 25 mil motos em Limeira até o final do ano passado, mas o departamento não tem dados atualizados sobre a frota, e nem estatística de habilitados. "Estimamos que do total de mulheres que tiram carta, 40% se habilitam em carro e moto, enquanto com os homens este índice é de 70%", informa o instrutor Fernando Moreira.

Em 1993, quando se habilitou para dirigir carros, Rosângela Gomes Delfino, 38, tinha pavor de moto. Hoje, a realidade é outra. Trabalhando como motogirl há três anos, Rosângela teve de se adaptar ao veículo: "Por necessidade, aprendi a gostar de moto. Hoje já não vivo sem ela!"

Fazendo entrega de alimentos durante o dia e à noite, a motogirl roda diariamente cerca de 150 quilômetros. Para quem começou como mototaxista, considera o serviço de entregas "sossegado". "As empresas já têm os clientes, então eu já sei pra onde eu vou. Como moto-táxi a gente carrega todo tipo de gente, já levei até bêbado", conta, falando da dificuldade em ter que controlar a moto e o desajeitado passageiro.

"Gosto muito de dirigir, amo o que faço. Apenas juntei o útil ao agradável!", declara Eliane Cristine da Silva, 27, que começou a trabalhar com moto há seis anos fazendo "bicos" de cobrança de telemensagens e entrega de revistas. Há três anos, ela trabalha em uma concessionária fazendo entrega de peças em Limeira e região. A motogirl fala também das desvantagens do trabalho: "Por causa dos mais abusados, os outros generalizam e acabamos sofrendo as conseqüências".

Motogirl há um ano e meio, influenciada pelo irmão que trabalhava com moto, Jaqueline Cristiane Herrero, 21, roda 1000 quilômetros por semana trabalhando para duas empresas com entregas de lanches e pizzas. Para ela, o que começou por necessidade, hoje considera lazer. E apesar de já ter sofrido três acidentes "sendo o último o mais grave em que ficou com 14 pontos na perna e dez dias sem trabalhar", a motogirl acha que a consideração pelo trabalho é o seu maior retorno: "No meu trabalho, sempre tenho ajuda para o que precisar".

Roseli Alves, 31, começou a trabalhar de moto há um ano. Fazendo entrega para fábrica de jóias, farmácias, gráficas e serviços de moto-táxi, roda 1500 quilômetros por semana. Quanto aos passageiros, diz que ao contrário do que se pensam, os homens a respeitam muito, por ter certo receio com as mulheres na direção da moto. "Eles nem relam em mim, às vezes na lombada encostam sem querer e pedem desculpas, chega a ser engraçado", diz.

Instrutora de motos há 15 anos, Cristiane Aparecida Amador dos Santos, 34, diz que é cada vez maior o número de mulheres que se habilitam em moto, e que muitos candidatos preferem uma mulher ensinando: "Os candidatos me respeitam muito, mas a maior procura é pelas meninas, que se sentem mais seguras quando o instrutor é mulher". Em Limeira há dez instrutoras, sete delas de moto.

 

 

Assaltos e acidentes no caminho

"Só depois de ver o revólver na minha cara é que entreguei o malote", conta a motogirl Eliane Cristine da Silva. Ela tentou fugir de dois motoqueiros que a seguiram quando fazia um saque para a empresa, e aconselha: "Não façam isso de maneira alguma!". O assalto aconteceu há dois anos, em Limeira, e desde então não faz mais esse tipo de serviço e ainda é traumatizada com moto que acelera muito perto.

Como transportam desde refeições até documentos e dinheiro, as motogirls enfrentam risco de roubo freqüente. Além disso, presenciam "às vezes, como vítimas" muitos acidentes. Jaqueline fala do choque que foi ver um motoqueiro com fratura exposta: "Ele estava na minha frente, e cruzaram a sua preferencial. Ajudei a socorrer e fui testemunha a seu favor". "Um infeliz cortou a minha frente, e bati de lado no carro. Ainda me equilibrei e não deixei a moto cair, mas trinquei o dedão e o dedinho do pé!", diz Eliane.

Excesso de velocidade, desatenção e até animais complicam ainda mais o trânsito. Roseli conta o caso de um amigo moto-taxista que foi desviar de um cachorro num cruzamento. Nem ele e nem o carro que vinha parou e o resultado foi vários ossos da perna quebrados.

Luxação no pé e sete dias "de molho" foi o saldo de uma colisão sofrida por Rosângela: "Sem tempo de frear, bati na porta de uma caminhonete que saiu com tudo de uma garagem". Detalhe agravante: tinha chovido e o chão estava liso, afinal, a chuva também é inimiga do motociclista. "É muito incômodo e perigoso dirigir na chuva, tem que redobrar a atenção", diz Cristiane.

 

Muita calma nessa hora!

Muitos candidatos a motociclistas adquirem moto e começam a dirigir antes de ter a habilitação em mãos. Para estes, Cristiane destaca o valor da atenção e responsabilidade nas ruas: "É um veículo perigoso. Nas aulas, os candidatos são preparados para prestar exame prático, mas no dia-a-dia é outra coisa. É preciso ter noção de trânsito".

E esta não é uma obrigação só de quem dirige moto. As motogirls são unânimes nas reclamações contra veículos grandes que "só faltam passar por cima", muitas vezes sem sinalizar.

Mas, muita calma nessa hora - tanto para os motoqueiros quanto para os motoristas em geral: Eliane conta que já foi perseguida por um carro por ter buzinado e xingado quando este "embicou" em sua preferencial. "Depois daquele dia eu penso muito antes de fazer alguma coisa, pois eu poderia ter tido um grande problema", declara.

Nos cruzamentos, o perigo não é só os veículos. A atenção e cooperação dos pedestres também é fundamental para evitar acidentes. "Pessoas de qualquer idade, senhores, mães com crianças não param no sinal e entram na frente. Nós é que temos que parar, porque além de tudo levamos multa por qualquer coisa e eles não", lembra Roseli.

Outro problema é o fato de as motos de baixa cilindrada - como as 125cc ou 150cc, geralmente as mais usadas para trabalho - serem as mais visadas para roubo. Das motogirls entrevistadas, apenas uma tem moto no seguro graças a uma parceria da concessionária com uma empresa do setor que propôs um valor considerado acessível. Do contrário, o valor do seguro pode se igualar ao da moto, e ainda assim a maioria das seguradoras só trabalha com veículos acima de 250cc.

 

Afinal, por que moto?

 

O que se percebe nas ruas de Limeira é que um número cada vez maior de mulheres opta pela moto como meio de transporte. Apesar disso, Cristiane diz que "na maioria das vezes, os pais não apóiam as mulheres a tirarem carteira de motocicleta e isso influencia muito no aprendizado delas". No trabalho, algumas alegam que o preconceito existe, mas a admiração é maior. "Ás vezes acabamos cometendo infrações, e sempre tem um na rua que manda ir pilotar fogão, mas onde trabalho sou respeitada e admirada. Conquistei o meu espaço", diz Rosângela. Eliane concorda: "Financeiramente gostaria de ter um maior reconhecimento, mas se sinto admirada, pois não é qualquer um que faz o que eu faço".

Segundo Roseli, seus passageiros acabam se surpreendendo: "Eles ficam receosos de andar com uma mulher pilotando, mas depois admitem que somos muito mais cuidadosas que os homens, que têm muita pressa". Jaqueline conta que sofreu preconceito de um antigo patrão: "Cheguei até a discutir e querer largar o serviço, foi muito desagradável". Hoje ela trabalha com outros entregadores, e se sente reconhecida no trabalho.

A agilidade e baixo custo de manutenção são pontos fortes da moto. E, apesar de todos os riscos, a independência é o que motiva as motogirls. "Não tenho patrão, e faço o meu horário e meu salário", diz Roseli.

Cristiane diz que uma dificuldade do seu trabalho é quando o candidato recusa o fato de não estar preparado para o exame prático. "Mas tudo tem sua vantagem. Para mim é muito gratificante quando o candidato passa no exame e diz muito obrigado. Isso vale todo o seu esforço e dedicação".

 

 

 

 

 

 

Alguém se habilita?

As motogirls dão dicas para quem quer se aventurar a trabalhar no trânsito. Para Cristiane, "não basta apenas trabalhar por necessidade financeira; tem de gostar da moto e do serviço que vai prestar". Além do gosto por motos, prudência e paciência são fundamentais. "A moto é uma excelente ferramenta nas mãos de um grande trabalhador", diz Eliane.

Estresse? Nem pensar! Para Roseli, nervosismo na rua é inútil. Ela observa que o serviço é arriscado, mas "distrai, passa rápido. Com o tempo adquirimos experiência e aprendemos os macetes".

Saber pilotar para si e para os outros também é importante. Como nem sempre as motos são vistas pelos outros veículos, é recomendável buzinar constantemente e estar atento ao retrovisor. Jaqueline aconselha ao motoqueiro estar sempre munido de um bom mapa: "Muitas vezes é o seu melhor amigo".

 

Os números do perigo

Em Limeira, foram registradas 1335 ocorrências de acidente envolvendo motos em 2006. Os dados são do Departamento de Trânsito da Prefeitura, e apontam ainda que nesse total de acidentes 10 pessoas morreram e 1270 ficaram feridas. Das ocorrências, 759 envolveram automóvel (56,85%); 74, motocicleta (5,54%); e 35, caminhões (2,62%). Os ônibus representam 5,62%, com 75 registros.

De acordo com a Assessoria de Imprensa da Santa Casa de Limeira, nos meses de março, abril e maio deste ano foram registrados, respectivamente, 50, 35 e 34 atendimentos relacionados a acidente de moto.

 Além dos riscos de acidente, a moto é um veículo bastante visado por bandidos. Gildo Ciola, investigador da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Limeira, informou que no mês de maio houve 5 ocorrências de furto e 9 de roubo, enquanto a média mensal é de 8 a 14, nos dois casos. O roubo é caracterizado por ameaça ou violência ao condutor, e furto é a subtração do veículo sem a presença da vítima. 

 


Publicado originalmente no jornal laboratório Em Foco (Edição 48/julho/2007)

 

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publicado por Daíza Lacerda às 17:00

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