26.04.12

Por mais que eu tente ficar indiferente, ou neutra, a todas as "provocações" em relação a moto, não consigo. Por mais que eu já tenha "lavado as mãos" de segurar a bandeira de defesa de quem usa a moto. Não posso mais defender quem quer se matar. Agora só falo por mim.
Na sexta-feira, achei que era brincadeira quando minha colega de redação e vizinha de baia Renata Reis voltou de uma entrevista com o delegado seccional falando sobre um possível projeto que obrigasse os motociclistas/motoqueiros a terem, no capacete, uma etiqueta padronizada com o número da placa da moto. Hein? Será que estou em São Paulo, com aquelas leis esdrúxulas propostas pelos deputados e não sei?
Bom, no dia seguinte, levantei para o plantão de sábado, ouvindo uma música que adoro no rádio, aliás. Mas tinha que conferir o jornal na internet antes de sair. E lá estava a manchete, com o capacete do também colega de redação e motociclista, Denis Martins, servindo de modelo na foto. Cheguei na redação com um humor do cão, sem esconder da Renata, que também estava de plantão naquela manhã cinza de chuva torrencial, que a matéria dela tinha estragado o meu dia. Embora não fosse culpa dela, que só apurou e escreveu.
Depois de algumas leves considerações no Twitter, e a promessa de destilar a minha ira mais tarde, o que faço agora, consegui me concentrar no trabalho. E, agora, nessas horinhas livres, vou me dar ao trabalho de pensar sobre o trabalho da polícia.
Por quê sou contra ser padronizada com um adesivo na cabeça? Primeiro porque não sou gado para ser marcada. A "ideia", importada de uma iniciativa em La Paz, na Bolívia, que derrubou os índices de crimes com motos, para mim não é mais do que outra medida preconceituosa, da mesma cesta de ideias "incríveis" de edis São Paulo afora como andar com colete com a placa da moto ou proibir garupas. Segundo, porque não acredito que irá trazer efeito prático, dado o brilhantismo de improvisação dos bandidos tupiniquins (sem ofender a classe criminosa da Bolívia, é claro).

Na matéria, o delegado seccional - excelente profissional que também já tive o prazer de entrevistar e respeito muito - explica que a ideia da padronização humana com etiqueta, válida para quem tem o azar de precisar da moto, mesmo veículo usado por ladrões, não é multar, mas identificar criminosos que, presume-se, não se adequariam à lei e seriam descobertos.
Criminoso tem malícia até para roubar joalherias nos shoppings mais chiques de São Paulo, meu caro delegado. Por que não teriam ao praticar qualquer outro crime aqui, de moto? Quer dizer que, se é padronizado, não é criminoso? E, se anda sem o adesivo, é um bandido e não ignorante sobre a "lei"? Não vejo efeito prático nisso.
O ponto central é que é sempre mais fácil generalizar, para, digamos, facilitar o trabalho das autoridades. De autoridades em várias esferas. Motociclistas que usam a moto como sustento é quem tem que se virar para provar que não são bandidos. Os bandidos só precisam continuar improvisando para não serem pegos. Se uma lei dessa for aprovada, teremos que andar etiquetados para facilitar o trabalho da polícia. Policiais vão gostar se eu generalizar que todos não cumprem o seu trabalho de caçar bandidos (seja de moto, carro ou barco)? Não, porque essa afirmação não é verdadeira. Mas é muito mais fácil jogar o ônus para nós. Gasta com a tal da etiqueta (por que, tal qual como padronização de placas e 1001 outras coisas, imagina o mercado que isso iria movimentar) e, se não andar na linha, se vira com a multa também. Mas acreditamos que tudo o que a polícia quer é pegar bandidos. Principalmente porque toda pessoa que anda de moto - não importa o tamanho ou a marca - já é um bandido em potencial declarado. Não é?

Já pago um seguro obrigatório surreal, além do seguro opcional de valor tão surreal tanto, pra ficar menos frustada caso o bem que trabalhei para comprar seja levado por um bandido. Ei, autoridades, eu sou motociclista e também sou vítima. Cadê o Estado para me proteger? Já chorei a morte de amigos motociclistas que o facínora trânsito levou, assim como rezo pela recuperação de quem se salvou uma, duas, três, várias vezes sobre uma moto. Muitos próximos já tiveram uma moto roubada ou furtada. Foi sempre culpa deles mesmos? Motociclista só serve como culpado nas estastísticas? Onde está registrado, que eu vou lá conferir.
E tem outra coisa, Estado (e município): se eu tivesse um transporte público decente e com preço justo, apesar de eu gostar tanto os senhores acham que eu me arriscaria de moto? Sou a primeira a querer iniciativas para conter a criminalidade com motos. Mas não a qualquer preço para a coletividade. Cada um com o seu trabalho. Eu evito me tornar ameaça no trânsito: não dirijo carro. Eu sei, mas não tenho experiência. Desde que tenho a carta na mão, só sei o que é pilotar moto. Vou me arriscar, e aos outros, pra quê? Mas eu posso falar por mim. Pelos outros, que oferem perigo em potencial e não estão nem aí, não cabe a mim fiscalizar - e punir. Certo?
Eu sei que é só um adesivo, não custa nada colá-lo nos meus dois capacetes, ou trocar de capacetes quando estiver na garupa da minha irmã, pai ou namorado, eles, idem, se precisarem da minha carona. Ainda mais eu, nojenta com a higiene dos meus próprios capacetes. Trabalho nenhum, complicação alguma. Eu só tô cansada dessa coisa de sempre generalizar, generalizar, genralizar, e nunca aparecer um santo disposto a separar o joio do trigo. Cansei de ser tratada como bandido por ser motociclista. Será que posso chamar os direitos humanos, pra não ser marcada como gado?

E O QUE ERA PARA SER LEI?
E O QUE JÁ É OBRIGAÇÃO?


Bom, no mesmo sábado em que surtei de manhã com tamanha bizarrice, à noite, foi exibida uma matéria no Jornal Nacional sobre as fraturas feias de quem cai de moto. Uma menina até diz no depoimento que, depois que se recuperar nas fisioterapias, não vai mais andar de sandália ou roupa aberta de moto. Tomou, bicudo? Fico imaginando o couro das piriguetes que sobem e descem a serra mostrando as suas pernas na garupa, com o mochilão detonando as costas. Lindo de ver, mané? Imagine a fratura quando o vida loka sair voando no túnel e aterrissar na serra. É falta de noção total.
É claro que na cidade, para trabalhar, não piloto encapotada, como quando estou na estrada. Mas, mesmo no calor de 30 graus, não abro mão da blusa pesada. Pode não impedir ferimento algum, mas pelo menos amenizar de uma queda.
Aí fiquei pensando no que o Estado faz pela segurança do motociclista. Limita os locais em que ele pode rodar, é claro. Tipo, "quer se matar, se mate só na faixa local". Não tem iniciativa tipo "viu, você não deve se matar ou tentar matar os outros, vida loka imbecil".
Por que um deputado, vereador ou delegado não têm a ideia de fazer uma lei que obrigue o motociclista a andar protegido, com jaqueta e botas? Ué, não estão tão empenhados em nossa segurança e na de terceiros? Porque isso não renderia, pelo menos diretamente, nada ao Estado, mas às lojas de equipamentos. De imediato, alguém iria refletir o alívio no tratamento de traumas na rede pública de saúde, que nós mesmos bancamos? Se dariam ao trabalho de fiscalizar adesivos, mas teriam a mesma vontade de conferir algo cujo uso o privilegiado é, primeiramente, o próprio motociclista/motoqueiro?
As fiscalizações, muito bem-vindas, do estado do veículo, ainda são insuficientes. Gente andando com a moto (e carros) caindo aos pedaços, até o dia em que isso acontece, literalmente. Gente andando com aquelas mochilas gigantes escorregando para um dos lados, num desequilíbrio total, e mortal. Capacetes em estados terminais, que com viseira fechada não se vê a um palmo. Regatas, chinelos, bermudas. Fora da praia (não que se justifiquem no litoral). Não se fiscaliza o suficiente o que deve ser fiscalizado, e querem inventar mais medidas sem efeito prático. Mas não, não é indústria de multas. "Só querem a nossa segurança".
Falando em multas, no recente balanço da prefeitura de Limeira, foi justificado o aumento de multas ao da fiscalização. O número de agentes dobrou. O de multas, triplicou. Equânime, não? Bons de vista esses agentes, que só não aparecem quando cometem infrações contra nós. Mas não, não estamos numa indústria de multas e, antes que a gente esqueça, os acidentes continuam aí, claro, com aqueles números lindos para as motos envolvidas. Mas sabe que, até hoje, das pesquisas que não acabam mais falando do envolvimento cada vez maior de motos, NENHUMA especifica se a culpa da ocorrência era de quem estava de moto ou com outro veículo? Eu nunca vou saber se a maioria de motociclistas/motoqueiros é vilã mesmo e deve queimar no inferno, ou se é vítima e deve ter seu lugar no céu reservado para uma partida na próxima esquina. Assim até eu vou demonizar as motos o resto da vida, ainda que um motociclista perca a vida, ou uma perna, fechado por um carro.
O departamento de Transportes de Limeira também anunciou nessa semana que usará parte dos quase R$ 5 milhões de multas arrecadados no ano passado para investir em blitze educativa para motociclista. Acho ótimo, isso. Mas, como já vimos, planejamento e execução decentes não são o forte nesta secretaria. No ano passado, ao mesmo tempo que a campanha pró-pedestre fez o maior barulho e muitas multas em SP, a mesma iniciativa foi ensaiada aqui. Só ensaiada. Na época, usei a bike como transporte alguns dias, também na condição de pedestre, empurrando-a, nas travessias, nas faixas, na calçada. Fosse um pouco mais bobinha, não estaria aqui para contar a história. A campanha para defender o pedestre foi uma campanha fantasma em Limeira. Mas acho que nem quem tem visão sobrenatural conseguiu ver. Nem no sonho.
Só pra lembrar: também é dever do Estado/município oferecer vias seguras e bem sinalizadas. A gente pagar por isso. Não é nenhum favor pra ser comemorado como "presente" em campanha eleitoral. Lembre-se disso, no próximo buraco ou rotatória suicidada, onde não são fiscalizados os abusos.

O QUE EU QUERO DIZER É: VIVA

As autoridades querem nos limpar do mapa para que paremos de dar problemas e trabalho para eles (escrevo isso lembrando dos lemas do Jackson Five... mais verdadeiro, impossível). Por isso, caros amigos motociclistas de bem, estamos fadados à generalização. Desculpe se sou a última a dar conta disso. Só não queria me conformar. Para tributos (das motos, dos produtos, dos documentos, dos registros), servimos. Para cobrar nossa parte em segurança, estamos no grupo dos maus.
Nesta semana fui procurada para dar um depoimento numa matéria sobre motos, que seria produzida para um dos jornais da Rede Família. Como já tinha xingado muito no Twitter, o colega Guina até me tranquilizou: "não é sobre os capacetes não!". Era sobre os dados da Prefeitura, que já comentei anteriormente.
Bom, aceitei de pronto, e fiquei imaginando como conseguiria transmitir, da forma mais sintetizada possível, o que gostaria de falar sobre essa condição numa edição de TV, sendo otimista que minha fala teria uns 2 segundos. Admito que comecei errado, porque não estava com o sapato apropriado para pilotar, e nem com o melhor dos capacetes. Mas não sou exemplo sempre, e nem tenho essa pretensão. Aí fui batendo um papo com a Grá Félix, enquanto íamos ao estacionamento para eu buscar a moto e dar uma voltinha para o vídeo. Contei pra ela sobre o meu primeiro e, graças a Deus, único tombo com três meses de moto, quando descobri que não existe preferencial. Nem pra mim, nem pra ninguém. Contei sobre o camarada na marginal Tietê que passou voando do meu lado no corredor, e que o encontrei alguns quilômetros adiante, estatelado no chão, homem num canto e moto noutro.
Outra coisa, que nossa hipócrita sociedade jamais irá admitir: que é muito fácil levantar o dedo pra eleger o motociclista/motoqueiro de todas as mazelas do trânsito e do mundo, quando se quer que a pizza, a marmita, o remédio, ou o documento cheguem urgentemente a um destino. Por que não é quem pede que está arriscando o couro. E depois você ainda pode chamá-lo de imprudente e causador de acidentes, ainda que fosse pela sua encomenda que ele estivesse correndo.

É claro que nada disso justifica a imprudência, tanto de moto quanto de carro ou ônibus. Mas o principal que consegui falar na entrevista, e gostaria que as pessoas refletissem, é que se cada um pensasse na esposa, mãe ou filhos que estão esperando em casa (os que ficam), iriam refletir se vale a pena correr ou se descuidar para ganhar um minuto, um segundo que seja. Pra quê? Pra chegar primeiro no PS? Ou no cemitério? Se as pessoas não pensam na própria família, como vão pensar na do próximo, ao sair voando pra cima de alguém, tirar uma fina com quem está do lado? É uma terra de ninguém e não há veículo para determinar isso. Há condutas.

Em toda a minha vida já rodei quase 80 mil km de moto, a maioria numa CG 125. Fiquei imaginando.. Com Kashmir, fui e voltei, ilesa, de Curitiba, passei pela "rodovia da morte". Não seria ridículo me acidentar numa das rotatórias de Limeira, um pacto tremendo com a engenharia do mal - e da morte? Ou seja, aonde está o perigo? Com quem está o perigo?

No Brasil, como é de se esperar - mas não para se conformar - as autoridades vão continuar lavando as mãos e fazendo o que convém a elas. É cada um por si na terra de ninguém. Não acho que tudo seja obrigação só do Estado. Pelo contrário. É no desconfiômetro de cada um que as coisas podem ser mudadas. Mas enquanto todo mundo se acha um Vettel, sobre duas, quatro, ou quantas rodas for, o caminho será livre para a imprudência e impunidade no dar de ombros das autoridades para o que realmente importa e faz vítimas. Mas é só mais um, não é mesmo? No que é obrigação do Estado, enquanto não tirarem bandidos das ruas, eles continuam agindo por aí, de moto, carro, a pé, de bicicleta.
Não defendo mais quem anda de moto. Quer se matar, vá, por conta e risco. Todos vão continuar nos culpando, de qualquer jeito. Mas poupe a vida dos outros. É o que tento fazer por mim. Me cuido porque não quero minha família chorando por consequências de um gosto que, apesar dos pesares nos apontamentos da sociedade, me dá mais alegrias do que tristezas nesses seis anos e meio e 80 mil km. Para autoridades são números. Para mim é vida.

sinto-me: Indignada
publicado por Daíza Lacerda às 11:50

01.12.08

O trabalho sobre duas rodas começa a abrir espaço para o público feminino


Texto e infográficos: Daíza Lacerda

 

A saga diária dos motoboys é conhecida pela corrida contra o tempo e pelos constantes perigos no trânsito. Mas o trabalho sobre duas rodas, antes dominado pelos homens, começa a abrir espaço para o público feminino.

O número de mulheres pilotando motocicletas é crescente: em concessionárias de Limeira, o índice de vendas varia de 15% a 30%, dependendo da loja. Eduardo Panciero, gerente da Intermotos Sundown, diz que geralmente as motonetas são o carro-chefe das vendas, que chegam a 65% para elas. No caso das 125 cilindradas, aproximadamente 40% são compradas por mulheres. "Acredito que destas, 40% sejam destinadas ao trabalho", completa Panciero.

Com vendas para mulheres estimadas em 20%, Ademar José Custódio Junior, gerente da Official Suzuki, ressalta que o crescimento das vendas para o público feminino é constante: "Para elas, as vendas sobem média de 5% ao mês".

De acordo com o Ciretran, havia mais de 25 mil motos em Limeira até o final do ano passado, mas o departamento não tem dados atualizados sobre a frota, e nem estatística de habilitados. "Estimamos que do total de mulheres que tiram carta, 40% se habilitam em carro e moto, enquanto com os homens este índice é de 70%", informa o instrutor Fernando Moreira.

Em 1993, quando se habilitou para dirigir carros, Rosângela Gomes Delfino, 38, tinha pavor de moto. Hoje, a realidade é outra. Trabalhando como motogirl há três anos, Rosângela teve de se adaptar ao veículo: "Por necessidade, aprendi a gostar de moto. Hoje já não vivo sem ela!"

Fazendo entrega de alimentos durante o dia e à noite, a motogirl roda diariamente cerca de 150 quilômetros. Para quem começou como mototaxista, considera o serviço de entregas "sossegado". "As empresas já têm os clientes, então eu já sei pra onde eu vou. Como moto-táxi a gente carrega todo tipo de gente, já levei até bêbado", conta, falando da dificuldade em ter que controlar a moto e o desajeitado passageiro.

"Gosto muito de dirigir, amo o que faço. Apenas juntei o útil ao agradável!", declara Eliane Cristine da Silva, 27, que começou a trabalhar com moto há seis anos fazendo "bicos" de cobrança de telemensagens e entrega de revistas. Há três anos, ela trabalha em uma concessionária fazendo entrega de peças em Limeira e região. A motogirl fala também das desvantagens do trabalho: "Por causa dos mais abusados, os outros generalizam e acabamos sofrendo as conseqüências".

Motogirl há um ano e meio, influenciada pelo irmão que trabalhava com moto, Jaqueline Cristiane Herrero, 21, roda 1000 quilômetros por semana trabalhando para duas empresas com entregas de lanches e pizzas. Para ela, o que começou por necessidade, hoje considera lazer. E apesar de já ter sofrido três acidentes "sendo o último o mais grave em que ficou com 14 pontos na perna e dez dias sem trabalhar", a motogirl acha que a consideração pelo trabalho é o seu maior retorno: "No meu trabalho, sempre tenho ajuda para o que precisar".

Roseli Alves, 31, começou a trabalhar de moto há um ano. Fazendo entrega para fábrica de jóias, farmácias, gráficas e serviços de moto-táxi, roda 1500 quilômetros por semana. Quanto aos passageiros, diz que ao contrário do que se pensam, os homens a respeitam muito, por ter certo receio com as mulheres na direção da moto. "Eles nem relam em mim, às vezes na lombada encostam sem querer e pedem desculpas, chega a ser engraçado", diz.

Instrutora de motos há 15 anos, Cristiane Aparecida Amador dos Santos, 34, diz que é cada vez maior o número de mulheres que se habilitam em moto, e que muitos candidatos preferem uma mulher ensinando: "Os candidatos me respeitam muito, mas a maior procura é pelas meninas, que se sentem mais seguras quando o instrutor é mulher". Em Limeira há dez instrutoras, sete delas de moto.

 

 

Assaltos e acidentes no caminho

"Só depois de ver o revólver na minha cara é que entreguei o malote", conta a motogirl Eliane Cristine da Silva. Ela tentou fugir de dois motoqueiros que a seguiram quando fazia um saque para a empresa, e aconselha: "Não façam isso de maneira alguma!". O assalto aconteceu há dois anos, em Limeira, e desde então não faz mais esse tipo de serviço e ainda é traumatizada com moto que acelera muito perto.

Como transportam desde refeições até documentos e dinheiro, as motogirls enfrentam risco de roubo freqüente. Além disso, presenciam "às vezes, como vítimas" muitos acidentes. Jaqueline fala do choque que foi ver um motoqueiro com fratura exposta: "Ele estava na minha frente, e cruzaram a sua preferencial. Ajudei a socorrer e fui testemunha a seu favor". "Um infeliz cortou a minha frente, e bati de lado no carro. Ainda me equilibrei e não deixei a moto cair, mas trinquei o dedão e o dedinho do pé!", diz Eliane.

Excesso de velocidade, desatenção e até animais complicam ainda mais o trânsito. Roseli conta o caso de um amigo moto-taxista que foi desviar de um cachorro num cruzamento. Nem ele e nem o carro que vinha parou e o resultado foi vários ossos da perna quebrados.

Luxação no pé e sete dias "de molho" foi o saldo de uma colisão sofrida por Rosângela: "Sem tempo de frear, bati na porta de uma caminhonete que saiu com tudo de uma garagem". Detalhe agravante: tinha chovido e o chão estava liso, afinal, a chuva também é inimiga do motociclista. "É muito incômodo e perigoso dirigir na chuva, tem que redobrar a atenção", diz Cristiane.

 

Muita calma nessa hora!

Muitos candidatos a motociclistas adquirem moto e começam a dirigir antes de ter a habilitação em mãos. Para estes, Cristiane destaca o valor da atenção e responsabilidade nas ruas: "É um veículo perigoso. Nas aulas, os candidatos são preparados para prestar exame prático, mas no dia-a-dia é outra coisa. É preciso ter noção de trânsito".

E esta não é uma obrigação só de quem dirige moto. As motogirls são unânimes nas reclamações contra veículos grandes que "só faltam passar por cima", muitas vezes sem sinalizar.

Mas, muita calma nessa hora - tanto para os motoqueiros quanto para os motoristas em geral: Eliane conta que já foi perseguida por um carro por ter buzinado e xingado quando este "embicou" em sua preferencial. "Depois daquele dia eu penso muito antes de fazer alguma coisa, pois eu poderia ter tido um grande problema", declara.

Nos cruzamentos, o perigo não é só os veículos. A atenção e cooperação dos pedestres também é fundamental para evitar acidentes. "Pessoas de qualquer idade, senhores, mães com crianças não param no sinal e entram na frente. Nós é que temos que parar, porque além de tudo levamos multa por qualquer coisa e eles não", lembra Roseli.

Outro problema é o fato de as motos de baixa cilindrada - como as 125cc ou 150cc, geralmente as mais usadas para trabalho - serem as mais visadas para roubo. Das motogirls entrevistadas, apenas uma tem moto no seguro graças a uma parceria da concessionária com uma empresa do setor que propôs um valor considerado acessível. Do contrário, o valor do seguro pode se igualar ao da moto, e ainda assim a maioria das seguradoras só trabalha com veículos acima de 250cc.

 

Afinal, por que moto?

 

O que se percebe nas ruas de Limeira é que um número cada vez maior de mulheres opta pela moto como meio de transporte. Apesar disso, Cristiane diz que "na maioria das vezes, os pais não apóiam as mulheres a tirarem carteira de motocicleta e isso influencia muito no aprendizado delas". No trabalho, algumas alegam que o preconceito existe, mas a admiração é maior. "Ás vezes acabamos cometendo infrações, e sempre tem um na rua que manda ir pilotar fogão, mas onde trabalho sou respeitada e admirada. Conquistei o meu espaço", diz Rosângela. Eliane concorda: "Financeiramente gostaria de ter um maior reconhecimento, mas se sinto admirada, pois não é qualquer um que faz o que eu faço".

Segundo Roseli, seus passageiros acabam se surpreendendo: "Eles ficam receosos de andar com uma mulher pilotando, mas depois admitem que somos muito mais cuidadosas que os homens, que têm muita pressa". Jaqueline conta que sofreu preconceito de um antigo patrão: "Cheguei até a discutir e querer largar o serviço, foi muito desagradável". Hoje ela trabalha com outros entregadores, e se sente reconhecida no trabalho.

A agilidade e baixo custo de manutenção são pontos fortes da moto. E, apesar de todos os riscos, a independência é o que motiva as motogirls. "Não tenho patrão, e faço o meu horário e meu salário", diz Roseli.

Cristiane diz que uma dificuldade do seu trabalho é quando o candidato recusa o fato de não estar preparado para o exame prático. "Mas tudo tem sua vantagem. Para mim é muito gratificante quando o candidato passa no exame e diz muito obrigado. Isso vale todo o seu esforço e dedicação".

 

 

 

 

 

 

Alguém se habilita?

As motogirls dão dicas para quem quer se aventurar a trabalhar no trânsito. Para Cristiane, "não basta apenas trabalhar por necessidade financeira; tem de gostar da moto e do serviço que vai prestar". Além do gosto por motos, prudência e paciência são fundamentais. "A moto é uma excelente ferramenta nas mãos de um grande trabalhador", diz Eliane.

Estresse? Nem pensar! Para Roseli, nervosismo na rua é inútil. Ela observa que o serviço é arriscado, mas "distrai, passa rápido. Com o tempo adquirimos experiência e aprendemos os macetes".

Saber pilotar para si e para os outros também é importante. Como nem sempre as motos são vistas pelos outros veículos, é recomendável buzinar constantemente e estar atento ao retrovisor. Jaqueline aconselha ao motoqueiro estar sempre munido de um bom mapa: "Muitas vezes é o seu melhor amigo".

 

Os números do perigo

Em Limeira, foram registradas 1335 ocorrências de acidente envolvendo motos em 2006. Os dados são do Departamento de Trânsito da Prefeitura, e apontam ainda que nesse total de acidentes 10 pessoas morreram e 1270 ficaram feridas. Das ocorrências, 759 envolveram automóvel (56,85%); 74, motocicleta (5,54%); e 35, caminhões (2,62%). Os ônibus representam 5,62%, com 75 registros.

De acordo com a Assessoria de Imprensa da Santa Casa de Limeira, nos meses de março, abril e maio deste ano foram registrados, respectivamente, 50, 35 e 34 atendimentos relacionados a acidente de moto.

 Além dos riscos de acidente, a moto é um veículo bastante visado por bandidos. Gildo Ciola, investigador da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Limeira, informou que no mês de maio houve 5 ocorrências de furto e 9 de roubo, enquanto a média mensal é de 8 a 14, nos dois casos. O roubo é caracterizado por ameaça ou violência ao condutor, e furto é a subtração do veículo sem a presença da vítima. 

 


Publicado originalmente no jornal laboratório Em Foco (Edição 48/julho/2007)

 

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publicado por Daíza Lacerda às 17:00

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