22.09.12

Daíza Lacerda

 

É incomum vermos governos fecharem o cerco contra os carros. Porém, irracionalmente, pouquíssimos levam a sério meios alternativos de transporte, como o coletivo e a bicicleta.
Limeira tem um novo viaduto prestes a ser entregue, outros em planejamento. Porém, ainda que se derrube metade dos imóveis próximos às áreas de maior fluxo, nunca serão suficientes as vias (e as verbas) para comportar o mar de metal que já é insustentável hoje em Limeira. Afinal, quem nunca teve vontade de largar o carro enquanto estava ilhado tentando chegar ao acesso de um rotatória? Eu já, na condição de passageira, durante as coberturas diárias na Gazeta, em que já levamos tempo insano para atravessar poucos quarteirões do centro, para sair ou chegar à redação.
A frota não vai parar de crescer, e o espaço físico não vai aumentar. O que poucos governantes perceberam é que o cidadão só cogita largar o carro quanto tem outra opção viável, mas não só economicamente. O transporte coletivo que, primeiramente, respeite o usuário e não lhe preste um desserviço, como o que temos em Limeira, seria um bom começo. Trajetos que levam 10 minutos de carro ou moto chegam a custar duas horas no transporte coletivo. Isso acontece também pela falta de linhas que contemple mais trajetos, que obriga o usuário a pegar mais de um ônibus, sempre cheios. E ainda paga-se (muito) por isso. Bom frisar que isso é necessidade e não opção. Logo, está longe de ser mobilidade.
É difícil abandonar o conforto dos veículos, mesmo que custe tempo e dinheiro. Mas me forcei a voltar a usar a bicicleta como transporte, esporadicamente. O trajeto de 6,5 km de casa à Redação, no Centro, dura em média 25 minutos (boa parte de espera para atravessar rotatórias na condição de pedestre). Mais rápido e barato do que de ônibus. Porém, ao abrir mão do motor, o que descobri foi uma cidade que anda (anda?) ao avesso da mobilidade. Além de o pedestre ser relegado ao décimo plano de preferência, as ciclofaixas levam nada a lugar nenhum.
O incentivo para ciclistas é necessário. Mas não meramente pintando ciclofaixas onde há espaço, como nas duplicações do anel viário. A bicicleta é muito usada em Limeira, por mais que ignorem, mas as pessoas precisam atravessar regiões com ela, e muitas rotatórias, onde não existem as necessárias ciclofaixas.
A nossa geografia de morros não é desculpa. Sorocaba não é uma cidade plana, e faz exemplo com as rotas de bicicleta que efetivamente ajudam o cidadão a se locomover na cidade. E o prefeito que fez isso não pensou apenas na mobilidade, mas na saúde. Todos culpam o ar péssimo pelas queimadas e baixa umidade, esquecendo da colaboração do próprio motor que os move. Por mais que a emissão de poluentes tenha sido reduzida e otimizada com a tecnologia, não adianta poluir dez vezes menos com uma frota vinte vezes maior.
É preciso que os administradores tenham consciência de que  mobilidade urbana não é só pensar em construir viadutos e avenidas, ceifando o espaço das pessoas em prioridade aos veículos. Mobilidade é dar a chance de o cidadão poder optar (ter opções, dar opções) por um modal que o auxilie em seu tempo e qualidade de vida. Para que ele justamente se mova, não fique atado a ineficientes opções saturadas. É uma questão de planejamento a longo prazo, de compromisso com cidade, não com mandatos, algo que parece não existir nas gestões brasileiras.
Ouso dizer que, guardadas as proporções das dimensões das cidades, Limeira já tem um panorama semelhante ao de São Paulo, no quesito transtorno. Há dias que até para passar de moto fica difícil. Lá e cá, por experiência própria.
Nas últimas semanas, a revista Época publicou como destaque reportagem abordando hábitos, e como mudá-los para melhorarmos as nossas vidas. Um das personagens falou da dependência do carro, até para locais próximos e como ganhou mais tempo com a família ao abdicar do veículo para fazer caminhadas com o marido e a filha.
Infelizmente, num país em que o prefeito da maior metrópole usa helicóptero para se locomover enquanto gestores do primeiro mundo vão de bicicleta ao trabalho, é difícil ser otimista. O que não é motivo para desesperança. Quando não houver mais monumentos a derrubar, ruas para alargar, canteiros para estreitar, qual será a ação para continuar priorizando veículos? Esse cenário é mais possível do que parece.
Todos têm responsabilidades. O cidadão no que consome, no que cobra das autoridades e no que colabora, e o poder público em não mais adiar um planejamento sério que já deveria estar em curso há tempos, com resultados práticos.
Por fim, um exemplo do quanto disposição política conta para a mudança de paradigmas - para o bem. O ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, deu um jeito no caos viário da cidade colombiana. Uma de suas mais célebres falas é uma reflexão para todos os cidadãos e gestores, principalmente aos que insistem em "tapar o sol com a peneira" assegurando que nosso transporte coletivo é bom, quando não dependem deles para se locomover.
O homem que tirou a cidade dos carros e a devolveu às pessoas sustenta o seguinte: "Uma boa cidade não é aquela em que até os pobres andam de carro, mas aquela em que até os ricos usam transporte público".


 

 


publicado por Daíza Lacerda às 03:06

mais sobre mim
Fevereiro 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28


pesquisar
 
RSS
blogs SAPO