18.05.16

COLUNA RELEITURA - 17/05/2016

 

Um Underwood para chamar de nosso

 

Daíza Lacerda

 

Terminando de assistir a quarta temporada de House of Cards, foi inevitável me perguntar o quanto a arte imita a vida. Na famosa série do serviço Netflix, o protagonista é o brilhante Kevin Spacey na pele de Frank Underwood, o congressista inescrupuloso que chega à presidência dos Estados Unidos. Levando-se em consideração que, após inúmeras manobras, o personagem ficcional (?) alcança o poder e tenta manter-se nele de forma ilegítima, temos agora, em Michel Temer, um Underwood para chamar de nosso. Sem saber o quanto a busca cega pelo poder ainda vai nos custar.
Eu costumava me descrever como alguém que "não é de direita e nem de esquerda, mas da contramão do lugar-comum". Sem ter nenhum partido ou ideologia política que me seduzisse, assim permaneço. E a situação do impeachment nos moldes que é executado, uma medida extrema em tempos de falsa democracia, nada mais é do que uma vertente diferenciada da costumeira falta de honra que prevalece com tudo o que é público.
Não sou a favor da política de Dilma e reconheço que o seu governo acabou faz tempo, quando ela passou a se preocupar mais em defender o cargo do que gerir o País. Também não me inspira sequer um fio de otimismo alguém que chega ao poder como Temer chegou. Embora eleito indiretamente, mas eleito, mesmo para os patamares políticos a sua traição à presidente foi vergonhosa. Mais um exemplo do qual esta Nação não precisa. Tarde, talvez comecemos a ter mais atenção aos candidatos a este cargo, situação que os espectadores da série certamente já analisam com mais interesse.
O problema que nos mantém patinando na lama não é o afastamento de Dilma, mas a permanência dos tantos que têm tanto a explicar, a exemplo da boa parte do time ministerial de Temer, além do próprio. Prova que a "justiça" é feita quando interessa, e não sempre que é necessária. Não dá pra ser otimista.
Uma análise pertinente é a do jornalista Denis Russo Burgierman, da revista Superinteressante (http://abr.ai/23NRVMN). Ele lembra que, em meio às asneiras, o principal não foi discutido na votação dos deputados: os indícios sérios dos crimes de Dilma. E que o País está cheio de ciclistas fiscais como ela, inclusive Temer que, "nos curtos períodos em que substituiu a presidente em sua ausência, pedalou três vezes mais que ela", e o próprio relator do processo de impeachment no Senado, Antonio Anastasia, enquanto governador. Outro adepto citado pelo jornalista é o governador paulista Geraldo Alckmin, cujas pedaladas ultrapassariam R$ 300 milhões, "bem menos que os bilhões de Dilma, mas crime igual". E atenta: "Se o Congresso quer seriamente punir Dilma, é importante que se afirme com clareza a disposição de punir de maneira equivalente todos os ciclistas fiscais, independente de partido ou de taxa de popularidade".
Finalizo lamentando e concordando com o roteiro da vida real: "Um processo ilegítimo para punir um mandatário pelos seus processos ilegítimos não é um passo na direção de um país melhor. Não contribui em nada para deixar nossas instituições mais sólidas, justas e democráticas".

sinto-me:
publicado por Daíza Lacerda às 02:21

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