27.12.08

      Daíza Lacerda*

 

     Balançando ao som e ao ritmo do vento, estava envolto em vagos pensamentos na varanda, na centenária cadeira de balançar.

Fitando a linha do horizonte, que aparentemente nada me dizia, mas muito me mostrava, uma lembrança me tomou, de súbito. Levantei-me e dirigi-me casa adentro, descendo as velhas escadarias do fim corredor que rangiam e soltavam bafos de pó com a minha passagem. Mais alguns degraus e uma porta adiante, e lá estava.

      Cuidadosamente preservado pela família por anos, o velho baú de bronze parecia irredutível às mazelas do tempo; mas nada do que guarda foi poupado. Dele retirei um álbum com algumas fotografias e voltei para a varanda na esperança de relembrar algo útil, já que não tinha outras opções no marasmo do tempo. E agora, a linha do horizonte é que me encarava.

 

        Aquela primeira foto foi orgulhosamente exibida por mamãe. E muito exibida.

– Já era um menino-diabo desde estes tempos, não?

– Que mal há, oras?! Apenas uma criança na escola, que tem demais? – Retruquei ao garoto da foto, que petulantemente me chamava atenção.

– Tem demais que mamãe se gabava de pelo menos estar na escola para compensar todas as confusões das travessuras.

– Qual garoto não apronta? – perguntei, e sem esperar resposta avancei a página.

Difícil era moleque nascido na roça ir parar na escola. Quando a professorinha veio morar nas bandas da fazenda, quis porque quis alfabetizar a gurizada. Mamãe mais que depressa acatou a idéia e meteu-me a todo custo na cabana improvisada e quente como o inferno na seca braba, o que chamavam sala de aula. Fiz a vontade da mãe, o que não mudou o meu temperamento danado: nas horas-aula confinado, queria é caçar pomba ou roubar as laranjas do pé do vizinho, que pareciam mais saborosas do que as nossas.

Na próxima foto eu estava mais moço, mas com a mesma cara marota.

– Aqui já havia aprendido um bocado, não? – Perguntei-me, ilustrando a foto.

– Os calos que esconde aí já respondem, moleque!

– Que moleque! Moleque há de ter calos? Sou é moço, não vê?

– Tem calos sim, mas nada sabe ainda.

Gostava daquela foto, onde eu era eu mesmo, pé descalço no chão de terra e os pomares adiante, contrastando o clarão do céu de dia ensolarado, com meus calos. Calos leves, que se acentuaram após a morte de papai. Virei a página.

As próximas fotos, com sorriso “maquiado”, me eram mais duras que a enxada e o solo que esta se espatifava contra. Era a dureza do asfalto.

Quando a lavoura já não trazia renda suficiente, mamãe me mandou para a cidade. Era um rapagão, mas bicho do mato que não queria deixar nem a terra e nem a mãe aos cuidados de outros. Mas fui.

Perambulei que nem boi tonto entre os automóveis, ônibus, arranha-céus e apressados transeuntes. Tudo o que consegui foi ser peão numa obra aqui, outra acolá, mas garantindo um dinheirinho para sobrevivência minha e de mamãe, que adoecia.

Antes que eu me fizesse qualquer comentário infeliz, como nas fotos anteriores, passei para a próxima, possivelmente a mais significativa: eu e mamãe.

Já tinha meus fios brancos na cabeça, e mamãe encobria os dela com o usual e surrado lenço. Estava à beira da morte, mas nem em seu fim me convenceu a voltar para a cidade, e muito menos à escola para me garantir sem ela.

Pode-se replantar ou enxertar. Raízes não se perdem. Estou fincado aqui para a eternidade.

Nada do que o velho baú de bronze guarda foi poupado, a não ser as recordações de um vai-e-vem sem nunca sair do lugar, de fato.

Com o álbum fechado, volto-me ao horizonte, que não me olha mais. Baixo meu olhar ao nosso jazigo, bem aqui em nossa terra, onde mamãe cuida das flores e me chama para voltar à sua companhia.

 

 

*Conto classificado para a fase regional do Mapa Cultural Paulista 2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Daíza Lacerda às 14:29

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