20.06.16

Meu artigo de hoje traz o lado B da ‪‎reportagem‬, aquilo que nem sempre cabe na tal da objetividade ‪‎jornalística‬. A satisfação sincera, aquela alegria genuína incontida, são manifestações que podem passar ao largo dos limites da lauda, mas é impossível sair imune a demonstrações como essas. Betinho dá a cara a um trabalho que é de equipe, mas para ele é muito mais. É uma ‪‎missão‬ de vida. Dedicada a outras vidas vulneráveis. O ‎inverno‬ quer se fazer de difícil. Vamos ver se ele é páreo para o riso do Betinho.

 

COLUNA RELEITURA - 20/06/2016

O riso do Betinho

Daíza Lacerda

Não era exagero: ele parecia querer soltar fogos de artifício para comemorar. Não se continha de alegria diante das dezenas de camas arrumadinhas, coloridas, à espera de alguém para aquecer. Era a materialização de um ideal pelo qual trabalhava muito antes de entrar no serviço público. Reluzia a alegria de Albert Neves, o Betinho. Coordenador de abordagem social por profissão. Acolhedor de moradores de rua por vocação.
A sensibilidade aflorada nesta época de tanto frio é constante na vida de Betinho, que é facilmente visto percorrendo a cidade numa Kombi branca da prefeitura, levando e trazendo pessoas com as mais variadas carências: de comida, de estrutura familiar, de um lar. Faltas que a assistência social tenta suprir em serviços como o do Centro Pop, mas que dependem também do comprometimento e colaboração da própria pessoa.
Foi em meados de 2011 que conheci a missão Anjos da Noite, da Comunidade São Judas Tadeu, da Paróquia Santa Isabel. Uma equipe passava a noite percorrendo as ruas para dar o que comer e onde dormir a quem aceitasse. Lá, conheci Betinho, outros fundadores e voluntários, e um mundo de histórias que não poderia ser contado numa única matéria, mas rendeu uma série delas. Qual não foi minha surpresa em vê-lo em ação no Ceprosom, prestando no serviço público municipal aquilo que já adotara como missão de vida.
É fato que a burocaria sufoca os serviços. Mas há áreas que simplesmente perdem a razão de ser, caso não sejam movidas por quem se identifica com elas. Na assistência social, o acerto é reconhecido de longe quando o trabalho é feito por quem tem o dom. Não é qualquer um que sabe abordar, ouvir, orientar. Essa é uma carência gritante, por exemplo, em alguns setores da saúde pública (e até particular), nos quais as pessoas já chegam fragilizadas, e muitas vezes recebem atendimento com desdém, para dizer o mínimo. Isso quando um mero sorriso pode fazer toda a diferença.
Numa semana em que dezenas foram mortos num vergonhoso ataque homofóbico e que uma deputada é assassinada a tiros e facadas, tudo no "primeiro mundo", é de se perguntar aonde o mundo vai parar se nem os países mais desenvolvidos estão imunes à barbárie. Porém, são singelos os sinais de que, apesar de tudo, ainda não é hora de perder a fé na humanidade. Felizmente, temos escondidinhos por aí raios de sol que só se mostram na hora certa, e a quem precisa. Sem alarde, mas com eficácia.
A partir da noite de hoje, os apetrechos precários, cinzentos, de quem tem a rua como casa, serão substituídos por cobertores, edredons de todas as cores. Na baixada do Centro, tão mal referenciada como o ponto da miséria e das inúmeras vulnerabilidades possíveis, mãos, mentes, corações e ideais de equipes tornaram real o verdadeiro hotel 5 estrelas de quem só tem as marquises como teto. Na baixada do Centro, no leva-e-traz cidade afora, o riso do Betinho é o calor dos corações anônimos acolhidos no meio na noite fria.

 

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publicado por Daíza Lacerda às 08:30

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