06.06.16

COLUNA RELEITURA - 06/06/2016

 

Vamos voltar para a selva

 

Daíza Lacerda

 

As condições climáticas da semana que passou são pertinentes para uma reflexão profunda no Dia do Meio Ambiente, celebrado ontem. Ventania, granizo e chuvas torrenciais assustaram mas, infelizmente, o falatório sobre os eventos pode ter ficado restrito ao medo e indignação sobre a (falta de) estrutura das cidades. Já escrevi antes que o problema não são as chuvas, mas nós. Mas e quando a chuva vem com tudo fora de época? E quando ela desapareceu quando era época? Falta de previsão continua não sendo desculpa.
Ao cruzar a cidade na noite de quinta-feira no meio do temporal mais volumoso de junho nas últimas décadas, com enxurradas de fazer inveja para qualquer chuva de verão, ficaram evidentes as negligências estruturais acumuladas desde que a cidade virou cidade. Bocas de lobo que, quando não estão em lugares errados, são inexistentes. Ou insuficientes no mar de impermeabilização do asfalto. Mas não se trata só da falta de cultura de planejamento urbano. A negligência é também com o planejamento ambiental.
A única conclusão possível na travessia chuvosa é que simplesmente plantamos o que colhemos. Enxurradas, enchentes, quedas de árvores: nada mais do que a reação à ação do homem, que insiste em subestimar a soberania da Mãe Natureza. O erro é simplesmente não respeitá-la - ou minimamente aprender com ela.
O mundo todo sofre com extremos nas condições. O que muda é a postura diante delas. Um exemplo perfeito é a reconstrução em tempo recorde após os terremotos e tsunamis registrados no Japão em 2011. No Brasil, por danos infinitamente menores, mas significantes, discursos se arrastam e estruturas não mudam. A postura é oposta. Que tipo de consideração esperar de uma concessionária de energia que alega "situação controlada" quando comércios perdem um dia de expediente com a falta de eletricidade ultrapassando as 12 horas? Quando operadoras telefônicas averiguam uma fiação caída no chão e nada fazem? E são serviços muito, muito caros. Mal prestados e mal regulados.
Somos reféns do nosso próprio conforto nestes tempos. Nessas horas é possível enxergar que não passa de ilusão toda essa infraestrutura de segurança que acreditamos ter. Criamos redes e serviços de ponta que são reduzidos a nada quando a natureza assim decide. Talvez a única forma de fugir da vulnerabilidade seja voltar para a selva, embora as demandas desses tempos estejam roubando até essa possibilidade, a exemplo da hidrelétrica de Belo Monte, erguida a um custo humano e ambiental imensuráveis.
Em "Nascido para correr", Christopher McDougall envereda pelos estudos de quais fatores determinaram a evolução do homem como corredor. Em dado momento da História, o homem literalmente corria horas atrás da caça, dependendo somente das próprias pernas, mente e fôlego para garantir a janta. Pensando bem, felizes deles. Não estavam nas mãos de economia, urbanização ou concessionária alguma, o que os obrigavam a conhecer e respeitar a natureza, aprendendo a sobreviver nas regras dela.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

30.05.16

COLUNA RELEITURA - 30/05/2016

Seres humanos?

Daíza Lacerda

A indignação acerca do abuso sexual coletivo de mais de 30 homens contra uma adolescente de 16 anos vai muito além da violência, do desrespeito, do machismo e da cultura do estupro e da impunidade. Obriga a considerar seriamente o tipo de seres humanos que estão entre nós. Se é que podem ser nomeados assim. Como se classifica uma pessoa que é capaz de estuprar uma garota e ainda ostentar a violência? E 30? Qual o limite da baixeza?
O fato de uma situação dessas ocorrer e permanecer impune (pelo menos até o momento) não referencia indivíduos, mas escancara uma sociedade. Não só aquela que não respeita a mulher e a vontade dela. É aquela que não respeita o seu semelhante, o próximo, independentemente da sua condição. O que esperar disso, senão mais barbárie?
Essa não é uma realidade só do Brasil, assim como a negligência e impunidade não são marcas só do nosso país. Mas ainda conseguimos surpreender. Não deveríamos. A atitude tem de prevalecer sobre a surpresa.
A impunidade de estupros chamou atenção do jornalista Jon Krakauer. O aventureiro autor de "No ar rarefeito", que deu origem ao recente filme Everest, mudou de pauta e foi investigar os abusos na universidade de uma cidade norte-americana. Deu origem ao livro "Missoula", recentemente lançado no Brasil. A literatura estrangeira também tem a culpa de Stieg Larsson, já falecido. Na série iniciada com "Os homens que não amavam as mulheres", o autor sueco transforma Lisbeth no exemplo de empoderamento e justiça, dando à personagem o nome da menina de 15 anos que ele viu sofrer um estupro coletivo, sem ter feito nada para impedir.
Se investigada seriamente, a incidência no Brasil também renderia livros e, trazendo à tona uma situação que não é pontual, como fazem parecer os casos mais bárbaros. Enquanto isso, muita gente ainda assiste de braços cruzados. Afinal, há dezenas de famílias ocultando monstros que são autores desses crimes. Não encoberte um monstro. Principalmente: não crie um monstro.
Quem (o quê) são, o que fazem e de onde vêm os estupradores? Talvez sejam as perguntas erradas. A questão é: por que ainda há quem cometa esta e outras barbaridades contra pessoas? Será só a impunidade? Será alguma patologia ainda não estudada a fundo? Ou será a nossa permissividade ao darmos a audiência que eles querem sem revertê-la numa eficiente punição? Afinal, se o machismo em tempos como o nosso está ao lado, firme, que dirá sobre os outros desvios de conduta disseminados como se não houvesse amanhã.
É cômodo viver na ignorância de que esses casos são mais frequentes do que imaginamos. Mas não podem, de forma alguma, serem tratados como comuns. Estamos, sem perceber, de várias formas, perdendo referências morais da nossa própria espécie - que deveriam ser o que nos diferencia. Preconceito contra a mulher. Contra o negro, o homossexual. O pobre. Derrubadas todas as grades da classificação, é o homem x homem. A voracidade do ser humano na destruição da sua própria carne e sangue é de envergonhar o mais primitivo dos animais.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

23.05.16

COLUNA RELEITURA - 23/05/2016

Nada cairá do céu

Daíza Lacerda

Algumas situações recentes me levaram a pensar que, embora possivelmente estejamos na época mais intensa de atividades de todos os tempos, também há uma parcela considerável tomada pela inanição, pontual ou não. Muita gente reclamando demais e agindo pouco para, de fato, mudar o que lhe incomoda.
Exemplos não faltam. Há algumas semanas, alunos da Unicamp foram às ruas protestar contra a falta de segurança no entorno do campus. Mas quantos saem das festas nas repúblicas para registrar um boletim de ocorrência? Cadê os estudantes em peso para cobrar e discutir a situação nas reuniões mensais do Conseg?
Não para por aí. Também tem ocorrido reclamações de moradores do Jardim Ibirapuera, que alegam aumento da circulação de andarilhos após a implantação do Centro Pop no bairro. Mas quantos moradores abordados foram pedir providências justamente no Centro Pop, ou tomar a atitude de ligar para o 153 ou 199 para abordagem social da pessoa em situação de rua?
Sujeira na cidade afora também é queixa recorrente. Muita gente não se dá ao trabalho de registrar pedidos no 156, e "terceirizam" o serviço para o jornal. No entanto, há pessoas que colecionam protocolos sem serem atendidas pelo poder público, o que realmente justifica a divulgação do problema. Muitas vezes, moradores gastam mais tempo reclamando com vizinhos do que de fato fiscalizando e agindo em sua comunidade. A ineficiência está em não dar conta de limpar ou do povo não aprender a não sujar? Deixar a responsabilidade para os outros é fácil. E a nossa parte?
O trânsito também é campeão da má vontade. Só que nós também somos o trânsito. A partir do momento em que se opta pelo veículo particular, vamos inevitavelmente dividir (disputar?) espaço. Vai resolver mais reclamar ou se programar para sair em horários alternativos?
Ignoramos o quanto a passividade pode nos custar. Recentemente entrei numa discussão sobre a velhice, e a "obrigatoriedade" de filhos terem de cuidar dos seus idosos. Pensando daqui adiante, num contexto de longevidade muito maior do que a de nossos antepassados, como estamos nos preparando para os nossos anos finais? É justo contar que alguém cuide de nós quando temos plenas condições, agora, de nos preparar para viver mais e melhor? Não é responsabilidade nossa providenciar plano de saúde, exames periódicos preventivos, poupança e hábitos saudáveis para ter o mínimo de dependência possível quando isso for inevitável? E o que garante que haverá alguém por nós lá na frente? Como vamos saber por quais caminhos nossos entes serão levados, se eles terão disponibilidade ou interesse de olhar por nós? Amor da família é importante, mas o amor próprio também. Sempre é hora de se cuidar.
Se tanta gente não se mexe para garantir o mínimo, o que será do todo? Infelizmente não reina entre nós a cultura do planejamento, que é o essencial para qualquer objetivo. E por que terceirizar o que é do nosso interesse, em qualquer âmbito?
Há uma máxima que diz que não dá pra esperar resultados diferentes quando se faz as mesmas coisas. É fato. Sem ação ou reação, nada cai do céu. Nem mesmo a chuva, que depende de fenômenos e determinadas condições para se materializar.

 

Publicado na Gazeta de Limeira.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

18.05.16

COLUNA RELEITURA - 17/05/2016

 

Um Underwood para chamar de nosso

 

Daíza Lacerda

 

Terminando de assistir a quarta temporada de House of Cards, foi inevitável me perguntar o quanto a arte imita a vida. Na famosa série do serviço Netflix, o protagonista é o brilhante Kevin Spacey na pele de Frank Underwood, o congressista inescrupuloso que chega à presidência dos Estados Unidos. Levando-se em consideração que, após inúmeras manobras, o personagem ficcional (?) alcança o poder e tenta manter-se nele de forma ilegítima, temos agora, em Michel Temer, um Underwood para chamar de nosso. Sem saber o quanto a busca cega pelo poder ainda vai nos custar.
Eu costumava me descrever como alguém que "não é de direita e nem de esquerda, mas da contramão do lugar-comum". Sem ter nenhum partido ou ideologia política que me seduzisse, assim permaneço. E a situação do impeachment nos moldes que é executado, uma medida extrema em tempos de falsa democracia, nada mais é do que uma vertente diferenciada da costumeira falta de honra que prevalece com tudo o que é público.
Não sou a favor da política de Dilma e reconheço que o seu governo acabou faz tempo, quando ela passou a se preocupar mais em defender o cargo do que gerir o País. Também não me inspira sequer um fio de otimismo alguém que chega ao poder como Temer chegou. Embora eleito indiretamente, mas eleito, mesmo para os patamares políticos a sua traição à presidente foi vergonhosa. Mais um exemplo do qual esta Nação não precisa. Tarde, talvez comecemos a ter mais atenção aos candidatos a este cargo, situação que os espectadores da série certamente já analisam com mais interesse.
O problema que nos mantém patinando na lama não é o afastamento de Dilma, mas a permanência dos tantos que têm tanto a explicar, a exemplo da boa parte do time ministerial de Temer, além do próprio. Prova que a "justiça" é feita quando interessa, e não sempre que é necessária. Não dá pra ser otimista.
Uma análise pertinente é a do jornalista Denis Russo Burgierman, da revista Superinteressante (http://abr.ai/23NRVMN). Ele lembra que, em meio às asneiras, o principal não foi discutido na votação dos deputados: os indícios sérios dos crimes de Dilma. E que o País está cheio de ciclistas fiscais como ela, inclusive Temer que, "nos curtos períodos em que substituiu a presidente em sua ausência, pedalou três vezes mais que ela", e o próprio relator do processo de impeachment no Senado, Antonio Anastasia, enquanto governador. Outro adepto citado pelo jornalista é o governador paulista Geraldo Alckmin, cujas pedaladas ultrapassariam R$ 300 milhões, "bem menos que os bilhões de Dilma, mas crime igual". E atenta: "Se o Congresso quer seriamente punir Dilma, é importante que se afirme com clareza a disposição de punir de maneira equivalente todos os ciclistas fiscais, independente de partido ou de taxa de popularidade".
Finalizo lamentando e concordando com o roteiro da vida real: "Um processo ilegítimo para punir um mandatário pelos seus processos ilegítimos não é um passo na direção de um país melhor. Não contribui em nada para deixar nossas instituições mais sólidas, justas e democráticas".

sinto-me:
publicado por Daíza Lacerda às 02:21

28.07.15

COLUNA RELEITURA - 28/07/2015

A condenação precipitada

Daíza Lacerda

Na penitenciária feminina, a tarde era de festa. Dia das Mães. Enquanto as detentas matavam saudades dos filhos que não veriam crescer, uma delas, recém-convertida à religião, conversa com meia dúzia de cruzes feitas com palito de picolé, fincadas no gramado. Aos prantos, desculpa-se com os filhos que não teve, por não tê-los deixado vir ao mundo.
Fantasiada de palhaço com aparência sinistra, outra detenta se aproxima e pergunta à autora dos abortos se ela já leu Freakonomics, em especial o capítulo em que o autor Steven Levitt cita a queda drástica da criminalidade nos Estados Unidos, 20 anos depois da legalização do aborto, nos anos 70. Ela justifica que, se tivessem nascido os filhos pelos quais a colega de cela chorava, provavelmente teriam tido o mesmo destino que ela: atrás das drogas e das grades. Logo, ao abortar, ela fez o melhor para eles e para o mundo.
A cena é do primeiro episódio da terceira temporada da série "Orange is the new black", da Netflix, e me voltou à mente diante da polêmica e infeliz declaração do deputado federal Laerte Bessa (PR-DF). Ele acredita que, no futuro, bebês com tendências criminosas podem "ser impedidos" de nascer, o que poderia ser identificado pela genética. Imaginei o consultório médico como a sala de um vidente. Descartando fetos que seriam traficantes. Ou políticos corruptos, quem sabe, já que o critério seria "tendências criminosas". Melhor levar para o lado cômico do que ao trágico, para conter a vergonha alheia. Afinal, a declaração foi dada numa entrevista ao jornal britânico The Guardian.
Seria interessante retomar a discussão do direito ao aborto, o que acredito que deve ser uma decisão dos pais, e não do Estado. Segurança, sim, é dever do Estado. Cortar o mau pela raiz não é matar fetos, mas dar uma punição efetiva - e justa - para o crime cometido, independentemente da idade. Mas parece que nutrir aspirações que muito lembram a era do Holocausto é mais fácil do que legislar para que a segurança vá além de uma promessa eterna.
Faz muito sentido o contexto discutido pelas detentas na série, repercutindo parte de um best seller. Já a teoria defendida pelo deputado em veículo estrangeiro não tem crédito nem mesmo perante especialistas em genética. E, mais do que nunca, o País necessita de ideias (e atos) que façam sentido.
No contato tanto com os registros policiais quanto com a discussão da segurança em reuniões do Conseg, não é difícil enxergar o nó. Ocorrências aos montes. A polícia prende, a Justiça solta. Não é a lei? Quem faz as leis? Quem cumpre as leis? O que fazer quando quem devia pensar e propor soluções que façam sentido tende a ideias que beiram à barbárie, prestando um desserviço?
O episódio (da vida real, não da ficção) é de dar medo. Ideias absurdas, estas sim têm de morrer no ninho.

 

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

21.07.15

COLUNA RELEITURA - 21/07/2015

A educação que agoniza em meio à discussão dos gêneros

 

Daíza Lacerda
daiza.lacerda@gazetadelimeira.com.br

 

E a homossexualidade vai à escola, sem nem ter saído de casa. Já a educação, nem sempre responde chamada. A tal "ideologia de gênero" despertou mobilização no processo de discussão do Plano Municipal de Educação. Mas o silencio deve reinar nas casas, no seio das famílias, no que se refere ao assunto. Afinal, se fosse bem resolvida em casa ou na comunidade, a questão causaria mais argumentos do que gritos. Como pessoas e instituições civilizadas fazem.
Quantas famílias preparam os seus filhos sobre a realidade de que homens também se relacionam com homens e mulheres com mulheres (inclusive explicando se concordam com isso ou não e por que), eu não sei. Mas sei que muitos pais estão preocupados com que seus filhos possuam, antes dos 10 anos de idade, um smartphone e uma conta no WhatsApp e várias redes sociais. E se eles não tiverem "a conversa" em casa, o assunto chegará cedo pela rede, com os mais preconceituosos dos filtros, ou na escola, pelos bochichos. A escola tem responsabilidades? Tem. Mas a educação que deve sair de casa ainda tende equivocadamente a ser terceirizada para educadores. É a vivência da família que dita, pelo menos no início, o caminho - moral e cultural - dos filhos. Menos eletrônicos, mais conversa.
Natural a meta aprovada que prevê esforços contra o preconceito e apoio à diversidade. Mas, na próxima década, que é o prazo do plano discutido, ainda perderemos tempo e energia só para ressaltar o óbvio, de que se deve respeitar o próximo, independentemente de sua opção ou condição? Valor que tem de vir do berço e ser praticado na escola como consequência, sem precisar ser uma meta.
Se esse respeito fosse adotado, imagino que a oportunidade seria muito melhor aproveitada com outras questões mais urgentes do processo educacional. É utópico, eu sei. Mas enquanto as pessoas se dispõem tanto a "lutar" por algo que já deveria ser regra de conduta desde sempre, a agonia da educação em boa parte das salas de aula, pelo menos as públicas estaduais, passa à margem.
Por que ninguém se mobilizou contra o fato de salas de aula parecerem campos de guerra? Ou propôs soluções para os professores que trabalham acuados? Ninguém notou como tantas escolas parecem prisões e conseguem, de fato, fazer com que alunos queiram fugir? Não é um vício enraizado o fato dos relapsos passarem de ano, só para depois o governo ter um número virtual para divulgar na campanha, enquanto, na prática, a educação definha?
Daí, no ensino superior, não há repressão. Só que a comunidade reivindica segurança, enquanto parte dos alunos querem a polícia longe do campus. Afinal, eles também aprontam (o sumiço dos equipamentos de sinalização de trânsito, encontrados em república, virou notícia nacional).
A educação é um problema de pais, de alunos, professores e gestores. O plano seria um primeiro passo para começar, quem sabe, a revolução que a educação realmente precisa. Desde que se faça barulho pelas reais necessidades da porta da escola para dentro.

 

 

 

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

22.09.12

Daíza Lacerda

 

É incomum vermos governos fecharem o cerco contra os carros. Porém, irracionalmente, pouquíssimos levam a sério meios alternativos de transporte, como o coletivo e a bicicleta.
Limeira tem um novo viaduto prestes a ser entregue, outros em planejamento. Porém, ainda que se derrube metade dos imóveis próximos às áreas de maior fluxo, nunca serão suficientes as vias (e as verbas) para comportar o mar de metal que já é insustentável hoje em Limeira. Afinal, quem nunca teve vontade de largar o carro enquanto estava ilhado tentando chegar ao acesso de um rotatória? Eu já, na condição de passageira, durante as coberturas diárias na Gazeta, em que já levamos tempo insano para atravessar poucos quarteirões do centro, para sair ou chegar à redação.
A frota não vai parar de crescer, e o espaço físico não vai aumentar. O que poucos governantes perceberam é que o cidadão só cogita largar o carro quanto tem outra opção viável, mas não só economicamente. O transporte coletivo que, primeiramente, respeite o usuário e não lhe preste um desserviço, como o que temos em Limeira, seria um bom começo. Trajetos que levam 10 minutos de carro ou moto chegam a custar duas horas no transporte coletivo. Isso acontece também pela falta de linhas que contemple mais trajetos, que obriga o usuário a pegar mais de um ônibus, sempre cheios. E ainda paga-se (muito) por isso. Bom frisar que isso é necessidade e não opção. Logo, está longe de ser mobilidade.
É difícil abandonar o conforto dos veículos, mesmo que custe tempo e dinheiro. Mas me forcei a voltar a usar a bicicleta como transporte, esporadicamente. O trajeto de 6,5 km de casa à Redação, no Centro, dura em média 25 minutos (boa parte de espera para atravessar rotatórias na condição de pedestre). Mais rápido e barato do que de ônibus. Porém, ao abrir mão do motor, o que descobri foi uma cidade que anda (anda?) ao avesso da mobilidade. Além de o pedestre ser relegado ao décimo plano de preferência, as ciclofaixas levam nada a lugar nenhum.
O incentivo para ciclistas é necessário. Mas não meramente pintando ciclofaixas onde há espaço, como nas duplicações do anel viário. A bicicleta é muito usada em Limeira, por mais que ignorem, mas as pessoas precisam atravessar regiões com ela, e muitas rotatórias, onde não existem as necessárias ciclofaixas.
A nossa geografia de morros não é desculpa. Sorocaba não é uma cidade plana, e faz exemplo com as rotas de bicicleta que efetivamente ajudam o cidadão a se locomover na cidade. E o prefeito que fez isso não pensou apenas na mobilidade, mas na saúde. Todos culpam o ar péssimo pelas queimadas e baixa umidade, esquecendo da colaboração do próprio motor que os move. Por mais que a emissão de poluentes tenha sido reduzida e otimizada com a tecnologia, não adianta poluir dez vezes menos com uma frota vinte vezes maior.
É preciso que os administradores tenham consciência de que  mobilidade urbana não é só pensar em construir viadutos e avenidas, ceifando o espaço das pessoas em prioridade aos veículos. Mobilidade é dar a chance de o cidadão poder optar (ter opções, dar opções) por um modal que o auxilie em seu tempo e qualidade de vida. Para que ele justamente se mova, não fique atado a ineficientes opções saturadas. É uma questão de planejamento a longo prazo, de compromisso com cidade, não com mandatos, algo que parece não existir nas gestões brasileiras.
Ouso dizer que, guardadas as proporções das dimensões das cidades, Limeira já tem um panorama semelhante ao de São Paulo, no quesito transtorno. Há dias que até para passar de moto fica difícil. Lá e cá, por experiência própria.
Nas últimas semanas, a revista Época publicou como destaque reportagem abordando hábitos, e como mudá-los para melhorarmos as nossas vidas. Um das personagens falou da dependência do carro, até para locais próximos e como ganhou mais tempo com a família ao abdicar do veículo para fazer caminhadas com o marido e a filha.
Infelizmente, num país em que o prefeito da maior metrópole usa helicóptero para se locomover enquanto gestores do primeiro mundo vão de bicicleta ao trabalho, é difícil ser otimista. O que não é motivo para desesperança. Quando não houver mais monumentos a derrubar, ruas para alargar, canteiros para estreitar, qual será a ação para continuar priorizando veículos? Esse cenário é mais possível do que parece.
Todos têm responsabilidades. O cidadão no que consome, no que cobra das autoridades e no que colabora, e o poder público em não mais adiar um planejamento sério que já deveria estar em curso há tempos, com resultados práticos.
Por fim, um exemplo do quanto disposição política conta para a mudança de paradigmas - para o bem. O ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, deu um jeito no caos viário da cidade colombiana. Uma de suas mais célebres falas é uma reflexão para todos os cidadãos e gestores, principalmente aos que insistem em "tapar o sol com a peneira" assegurando que nosso transporte coletivo é bom, quando não dependem deles para se locomover.
O homem que tirou a cidade dos carros e a devolveu às pessoas sustenta o seguinte: "Uma boa cidade não é aquela em que até os pobres andam de carro, mas aquela em que até os ricos usam transporte público".


 

 


publicado por Daíza Lacerda às 03:06

26.04.12

Por mais que eu tente ficar indiferente, ou neutra, a todas as "provocações" em relação a moto, não consigo. Por mais que eu já tenha "lavado as mãos" de segurar a bandeira de defesa de quem usa a moto. Não posso mais defender quem quer se matar. Agora só falo por mim.
Na sexta-feira, achei que era brincadeira quando minha colega de redação e vizinha de baia Renata Reis voltou de uma entrevista com o delegado seccional falando sobre um possível projeto que obrigasse os motociclistas/motoqueiros a terem, no capacete, uma etiqueta padronizada com o número da placa da moto. Hein? Será que estou em São Paulo, com aquelas leis esdrúxulas propostas pelos deputados e não sei?
Bom, no dia seguinte, levantei para o plantão de sábado, ouvindo uma música que adoro no rádio, aliás. Mas tinha que conferir o jornal na internet antes de sair. E lá estava a manchete, com o capacete do também colega de redação e motociclista, Denis Martins, servindo de modelo na foto. Cheguei na redação com um humor do cão, sem esconder da Renata, que também estava de plantão naquela manhã cinza de chuva torrencial, que a matéria dela tinha estragado o meu dia. Embora não fosse culpa dela, que só apurou e escreveu.
Depois de algumas leves considerações no Twitter, e a promessa de destilar a minha ira mais tarde, o que faço agora, consegui me concentrar no trabalho. E, agora, nessas horinhas livres, vou me dar ao trabalho de pensar sobre o trabalho da polícia.
Por quê sou contra ser padronizada com um adesivo na cabeça? Primeiro porque não sou gado para ser marcada. A "ideia", importada de uma iniciativa em La Paz, na Bolívia, que derrubou os índices de crimes com motos, para mim não é mais do que outra medida preconceituosa, da mesma cesta de ideias "incríveis" de edis São Paulo afora como andar com colete com a placa da moto ou proibir garupas. Segundo, porque não acredito que irá trazer efeito prático, dado o brilhantismo de improvisação dos bandidos tupiniquins (sem ofender a classe criminosa da Bolívia, é claro).

Na matéria, o delegado seccional - excelente profissional que também já tive o prazer de entrevistar e respeito muito - explica que a ideia da padronização humana com etiqueta, válida para quem tem o azar de precisar da moto, mesmo veículo usado por ladrões, não é multar, mas identificar criminosos que, presume-se, não se adequariam à lei e seriam descobertos.
Criminoso tem malícia até para roubar joalherias nos shoppings mais chiques de São Paulo, meu caro delegado. Por que não teriam ao praticar qualquer outro crime aqui, de moto? Quer dizer que, se é padronizado, não é criminoso? E, se anda sem o adesivo, é um bandido e não ignorante sobre a "lei"? Não vejo efeito prático nisso.
O ponto central é que é sempre mais fácil generalizar, para, digamos, facilitar o trabalho das autoridades. De autoridades em várias esferas. Motociclistas que usam a moto como sustento é quem tem que se virar para provar que não são bandidos. Os bandidos só precisam continuar improvisando para não serem pegos. Se uma lei dessa for aprovada, teremos que andar etiquetados para facilitar o trabalho da polícia. Policiais vão gostar se eu generalizar que todos não cumprem o seu trabalho de caçar bandidos (seja de moto, carro ou barco)? Não, porque essa afirmação não é verdadeira. Mas é muito mais fácil jogar o ônus para nós. Gasta com a tal da etiqueta (por que, tal qual como padronização de placas e 1001 outras coisas, imagina o mercado que isso iria movimentar) e, se não andar na linha, se vira com a multa também. Mas acreditamos que tudo o que a polícia quer é pegar bandidos. Principalmente porque toda pessoa que anda de moto - não importa o tamanho ou a marca - já é um bandido em potencial declarado. Não é?

Já pago um seguro obrigatório surreal, além do seguro opcional de valor tão surreal tanto, pra ficar menos frustada caso o bem que trabalhei para comprar seja levado por um bandido. Ei, autoridades, eu sou motociclista e também sou vítima. Cadê o Estado para me proteger? Já chorei a morte de amigos motociclistas que o facínora trânsito levou, assim como rezo pela recuperação de quem se salvou uma, duas, três, várias vezes sobre uma moto. Muitos próximos já tiveram uma moto roubada ou furtada. Foi sempre culpa deles mesmos? Motociclista só serve como culpado nas estastísticas? Onde está registrado, que eu vou lá conferir.
E tem outra coisa, Estado (e município): se eu tivesse um transporte público decente e com preço justo, apesar de eu gostar tanto os senhores acham que eu me arriscaria de moto? Sou a primeira a querer iniciativas para conter a criminalidade com motos. Mas não a qualquer preço para a coletividade. Cada um com o seu trabalho. Eu evito me tornar ameaça no trânsito: não dirijo carro. Eu sei, mas não tenho experiência. Desde que tenho a carta na mão, só sei o que é pilotar moto. Vou me arriscar, e aos outros, pra quê? Mas eu posso falar por mim. Pelos outros, que oferem perigo em potencial e não estão nem aí, não cabe a mim fiscalizar - e punir. Certo?
Eu sei que é só um adesivo, não custa nada colá-lo nos meus dois capacetes, ou trocar de capacetes quando estiver na garupa da minha irmã, pai ou namorado, eles, idem, se precisarem da minha carona. Ainda mais eu, nojenta com a higiene dos meus próprios capacetes. Trabalho nenhum, complicação alguma. Eu só tô cansada dessa coisa de sempre generalizar, generalizar, genralizar, e nunca aparecer um santo disposto a separar o joio do trigo. Cansei de ser tratada como bandido por ser motociclista. Será que posso chamar os direitos humanos, pra não ser marcada como gado?

E O QUE ERA PARA SER LEI?
E O QUE JÁ É OBRIGAÇÃO?


Bom, no mesmo sábado em que surtei de manhã com tamanha bizarrice, à noite, foi exibida uma matéria no Jornal Nacional sobre as fraturas feias de quem cai de moto. Uma menina até diz no depoimento que, depois que se recuperar nas fisioterapias, não vai mais andar de sandália ou roupa aberta de moto. Tomou, bicudo? Fico imaginando o couro das piriguetes que sobem e descem a serra mostrando as suas pernas na garupa, com o mochilão detonando as costas. Lindo de ver, mané? Imagine a fratura quando o vida loka sair voando no túnel e aterrissar na serra. É falta de noção total.
É claro que na cidade, para trabalhar, não piloto encapotada, como quando estou na estrada. Mas, mesmo no calor de 30 graus, não abro mão da blusa pesada. Pode não impedir ferimento algum, mas pelo menos amenizar de uma queda.
Aí fiquei pensando no que o Estado faz pela segurança do motociclista. Limita os locais em que ele pode rodar, é claro. Tipo, "quer se matar, se mate só na faixa local". Não tem iniciativa tipo "viu, você não deve se matar ou tentar matar os outros, vida loka imbecil".
Por que um deputado, vereador ou delegado não têm a ideia de fazer uma lei que obrigue o motociclista a andar protegido, com jaqueta e botas? Ué, não estão tão empenhados em nossa segurança e na de terceiros? Porque isso não renderia, pelo menos diretamente, nada ao Estado, mas às lojas de equipamentos. De imediato, alguém iria refletir o alívio no tratamento de traumas na rede pública de saúde, que nós mesmos bancamos? Se dariam ao trabalho de fiscalizar adesivos, mas teriam a mesma vontade de conferir algo cujo uso o privilegiado é, primeiramente, o próprio motociclista/motoqueiro?
As fiscalizações, muito bem-vindas, do estado do veículo, ainda são insuficientes. Gente andando com a moto (e carros) caindo aos pedaços, até o dia em que isso acontece, literalmente. Gente andando com aquelas mochilas gigantes escorregando para um dos lados, num desequilíbrio total, e mortal. Capacetes em estados terminais, que com viseira fechada não se vê a um palmo. Regatas, chinelos, bermudas. Fora da praia (não que se justifiquem no litoral). Não se fiscaliza o suficiente o que deve ser fiscalizado, e querem inventar mais medidas sem efeito prático. Mas não, não é indústria de multas. "Só querem a nossa segurança".
Falando em multas, no recente balanço da prefeitura de Limeira, foi justificado o aumento de multas ao da fiscalização. O número de agentes dobrou. O de multas, triplicou. Equânime, não? Bons de vista esses agentes, que só não aparecem quando cometem infrações contra nós. Mas não, não estamos numa indústria de multas e, antes que a gente esqueça, os acidentes continuam aí, claro, com aqueles números lindos para as motos envolvidas. Mas sabe que, até hoje, das pesquisas que não acabam mais falando do envolvimento cada vez maior de motos, NENHUMA especifica se a culpa da ocorrência era de quem estava de moto ou com outro veículo? Eu nunca vou saber se a maioria de motociclistas/motoqueiros é vilã mesmo e deve queimar no inferno, ou se é vítima e deve ter seu lugar no céu reservado para uma partida na próxima esquina. Assim até eu vou demonizar as motos o resto da vida, ainda que um motociclista perca a vida, ou uma perna, fechado por um carro.
O departamento de Transportes de Limeira também anunciou nessa semana que usará parte dos quase R$ 5 milhões de multas arrecadados no ano passado para investir em blitze educativa para motociclista. Acho ótimo, isso. Mas, como já vimos, planejamento e execução decentes não são o forte nesta secretaria. No ano passado, ao mesmo tempo que a campanha pró-pedestre fez o maior barulho e muitas multas em SP, a mesma iniciativa foi ensaiada aqui. Só ensaiada. Na época, usei a bike como transporte alguns dias, também na condição de pedestre, empurrando-a, nas travessias, nas faixas, na calçada. Fosse um pouco mais bobinha, não estaria aqui para contar a história. A campanha para defender o pedestre foi uma campanha fantasma em Limeira. Mas acho que nem quem tem visão sobrenatural conseguiu ver. Nem no sonho.
Só pra lembrar: também é dever do Estado/município oferecer vias seguras e bem sinalizadas. A gente pagar por isso. Não é nenhum favor pra ser comemorado como "presente" em campanha eleitoral. Lembre-se disso, no próximo buraco ou rotatória suicidada, onde não são fiscalizados os abusos.

O QUE EU QUERO DIZER É: VIVA

As autoridades querem nos limpar do mapa para que paremos de dar problemas e trabalho para eles (escrevo isso lembrando dos lemas do Jackson Five... mais verdadeiro, impossível). Por isso, caros amigos motociclistas de bem, estamos fadados à generalização. Desculpe se sou a última a dar conta disso. Só não queria me conformar. Para tributos (das motos, dos produtos, dos documentos, dos registros), servimos. Para cobrar nossa parte em segurança, estamos no grupo dos maus.
Nesta semana fui procurada para dar um depoimento numa matéria sobre motos, que seria produzida para um dos jornais da Rede Família. Como já tinha xingado muito no Twitter, o colega Guina até me tranquilizou: "não é sobre os capacetes não!". Era sobre os dados da Prefeitura, que já comentei anteriormente.
Bom, aceitei de pronto, e fiquei imaginando como conseguiria transmitir, da forma mais sintetizada possível, o que gostaria de falar sobre essa condição numa edição de TV, sendo otimista que minha fala teria uns 2 segundos. Admito que comecei errado, porque não estava com o sapato apropriado para pilotar, e nem com o melhor dos capacetes. Mas não sou exemplo sempre, e nem tenho essa pretensão. Aí fui batendo um papo com a Grá Félix, enquanto íamos ao estacionamento para eu buscar a moto e dar uma voltinha para o vídeo. Contei pra ela sobre o meu primeiro e, graças a Deus, único tombo com três meses de moto, quando descobri que não existe preferencial. Nem pra mim, nem pra ninguém. Contei sobre o camarada na marginal Tietê que passou voando do meu lado no corredor, e que o encontrei alguns quilômetros adiante, estatelado no chão, homem num canto e moto noutro.
Outra coisa, que nossa hipócrita sociedade jamais irá admitir: que é muito fácil levantar o dedo pra eleger o motociclista/motoqueiro de todas as mazelas do trânsito e do mundo, quando se quer que a pizza, a marmita, o remédio, ou o documento cheguem urgentemente a um destino. Por que não é quem pede que está arriscando o couro. E depois você ainda pode chamá-lo de imprudente e causador de acidentes, ainda que fosse pela sua encomenda que ele estivesse correndo.

É claro que nada disso justifica a imprudência, tanto de moto quanto de carro ou ônibus. Mas o principal que consegui falar na entrevista, e gostaria que as pessoas refletissem, é que se cada um pensasse na esposa, mãe ou filhos que estão esperando em casa (os que ficam), iriam refletir se vale a pena correr ou se descuidar para ganhar um minuto, um segundo que seja. Pra quê? Pra chegar primeiro no PS? Ou no cemitério? Se as pessoas não pensam na própria família, como vão pensar na do próximo, ao sair voando pra cima de alguém, tirar uma fina com quem está do lado? É uma terra de ninguém e não há veículo para determinar isso. Há condutas.

Em toda a minha vida já rodei quase 80 mil km de moto, a maioria numa CG 125. Fiquei imaginando.. Com Kashmir, fui e voltei, ilesa, de Curitiba, passei pela "rodovia da morte". Não seria ridículo me acidentar numa das rotatórias de Limeira, um pacto tremendo com a engenharia do mal - e da morte? Ou seja, aonde está o perigo? Com quem está o perigo?

No Brasil, como é de se esperar - mas não para se conformar - as autoridades vão continuar lavando as mãos e fazendo o que convém a elas. É cada um por si na terra de ninguém. Não acho que tudo seja obrigação só do Estado. Pelo contrário. É no desconfiômetro de cada um que as coisas podem ser mudadas. Mas enquanto todo mundo se acha um Vettel, sobre duas, quatro, ou quantas rodas for, o caminho será livre para a imprudência e impunidade no dar de ombros das autoridades para o que realmente importa e faz vítimas. Mas é só mais um, não é mesmo? No que é obrigação do Estado, enquanto não tirarem bandidos das ruas, eles continuam agindo por aí, de moto, carro, a pé, de bicicleta.
Não defendo mais quem anda de moto. Quer se matar, vá, por conta e risco. Todos vão continuar nos culpando, de qualquer jeito. Mas poupe a vida dos outros. É o que tento fazer por mim. Me cuido porque não quero minha família chorando por consequências de um gosto que, apesar dos pesares nos apontamentos da sociedade, me dá mais alegrias do que tristezas nesses seis anos e meio e 80 mil km. Para autoridades são números. Para mim é vida.

sinto-me: Indignada
publicado por Daíza Lacerda às 11:50

20.04.12

Não acabam neste mundo as coisas inexplicáveis. A morte é uma delas, embora seja esta a única certeza da vida. Não adianta eu tentar me esconder da morte sobre duas rodas. Embora esteja indo bem como uma sobrevivente.

Nesta semana a prefeitura divulgou uma enxurrada de números sobre o trânsito da cidade. É claro que não dá para esperar nada otimista com a situação das motos. Muito pelo o contrário. Esse véiculo, movido com paixão por alguns, ainda é arma para outros.
Nesta semana também morreu em outra rotatória de Limeira uma jovem, Letice, de apenas 23 anos. Estava de moto. Deixou um filho de 10 anos e uma vida inteira na condicional - o que "seria". O motorista do caminhão que passou por cima dela disse que não a viu ao fazer a manobra, já que ela estaria posicionada em seu ponto cego. Quem pode explicar de quem é o erro?
No ano passado, Johnny estava com uma Hornet na Lauro Corrêa, onde morreu a caminho de sua casa, que nunca chegou. Estudamos junto no colegial. Naquela época ele já andava de moto, embora não tivesse idade para habilitação. Foi o último de seus vários tombos. Ouvi dizer que, alguns dias antes de sua morte, ele teria dito que era um gato, com sete vidas. Teria gasto todas as fichas?
Numa outra ocasião, eu chegava em casa do trabalho, num sábado à tarde, quando vi, na saída de outra rotatória na Lauro Corrêa, a moto num lado e os dois ocupantes, cada um em outro. Chovia. Devidamente vestida com a capa, desci para ver se era alguém conhecido e, como já tinham chamado socorro (a aglomeração já era grande), fui pra casa. Não sem a imagem de um deles gemendo de dor, com o pé totalmente torto virado para o lado oposto, fora a condição terrível do acompanhante. Ambos vestidos de camiseta, calça e tênis. Dias depois, a notinha no jornal sobre a morte de um deles.

* * *

No trabalho, gosto de escrever ouvindo música, com um fone que veda o ruído externo. Isso ajuda a me concentrar. Entre um texto e outro, hoje ouvi novamente, na rádio online, uma música que há tempos tentava identificar. Era a "Remember It's me", do Gotthard. Tudo o que conhecia da banda era os hits que sempre tocam na Kiss, inclusive Lift U Up, que foi amor à primeira ouvida e que sempre me dá um gás quando estou pra baixo, como o próprio nome e melodia sugerem. 
Fui atrás da balada "Remember", encontrada para download no site da banda. Mas quando se gosta de uma, duas, três, ir atrás do resto é inevitável. Foi assim no passado com Heart, e recentemente com Grand Funk Railroad. Porém, bad news. Me lembrei da notícia, mas não conseguia associar porque não havia pesquisado a banda a fundo ainda. 
Steve Lee. O rock tem muitos filhos chamados Steve, Steven. Se um dia eu tiver um filho, é quase certo que ele tenha este nome também (para honrar Steven Tyler, Steven Morrissey, Steve Vai...). Tão certo quanto ele deverá gostar de rock e de moto, como eu. Como gostava o Steve Lee. Tanto que se exilou de temporadas de shows para viajar pelos EUA com amigos, a bordo de Harleys. E fiquei chocada com a estupidez da morte dele, em 5 de dezembro de 2010, parado com sua moto no acostamento de uma estrada de Las Vegas, quando vestiria a capa de chuva para seguir viagem. Com a estrada escorregadia, um caminhão derrapou na pista e bateu nas motos. Uma delas voou sobre o vocalista do Gotthard. Só bateu nele, e ele morreu, em frente a um dos companheiros de banda e de sua namorada, que saíram ilesos.
O Gotthard continua. Agora com outra voz. But remember...  

* * *

Não é ridículo? Não é inexplicável? A gente tenta achar motivos para todas as mazelas do mundo, e, no fim, temos de nos conformar com um "era pra ser", ou "tinha que ser assim". Pensa na forma mais improvável de uma pessoa morrer de moto. Pois é. 
Muita gente gosta de coisas perigosas e vive e morre com elas a todo o tempo. Cigarro, bebidas, drogas, más companhias. Motos. Como se explica uma morte ocorrida com moto? Quantas vezes consegue se determinar se era culpa do motociclista, ou do motorista de outro veículo, ou das condições? Ou da vontade de Deus? 
Era para ser? Penso em Letice, que eu não conhecia, e penso em Steve Lee, que conheci hoje. Ele tinha 47 anos e dava voz a uma música mais linda do que a outra. Era para ser? Não sabemos, mas a moto taí pra servir de culpada. Ela é? Também não sei. 
Muitas vezes já senti muito medo de que algo pudesse acontecer comigo, de carro ou de ônibus. Seria uma puta sacanagem do destino eu andar de moto toda a minha vida habilitada e sofrer alguma coisa com qualquer outro veículo. Não que eu espere más surpresas com a moto, é claro. Mas tento me preparar contra elas. Que rondam a todo instante enquanto rodo.
Mas vou fazer o quê? Há pessoas que morrem na sala com um caminhão atravessando a parede enquanto assistiam TV. Outras atravessando a rua, atravessando o mar. Não sei o que posso encontrar a cada acelerada ou freada. Não sei se meu fim "é pra ser", um dia, de moto. Ou de bicicleta, ou dormindo. Nem ouso tentar saber.
Nada pode alentar uma família que perdeu alguém. Nada pode fazer alguém não ter o estômago revirado ao ver uma moto, depois de perder alguém querido com este veículo. Mas a gente nunca sabe o fim da linha. Por isso acho que devemos valorizar a travessia. De toda viagem que faço, agradeço poder voltar. Mas se eu não curtir o "durante", não valeu todo esforço pra comprar uma moto. Para ver pessoas, lugares. Para viver. A vida é travessia. Tudo o que podemos fazer é aproveitar a infinita highway, enquanto se pode. Acho que Steve fez isso. E Letice?
Não tenho o poder de consolar ninguém, e nem quero tentar, porque sou péssima nisso. Só sei refletir comigo mesma, ainda que sem chegar a conclusão alguma. Mas com essa mistura de desgraças com moto que tenho ouvido e lido nos últimos dias (na verdade, desde sempre que VIVO de moto), hoje concluí que, se a morte pode estar nas coisas mais estúpidas, a vida pode estar nas mais simples. Não basta?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

sinto-me:
publicado por Daíza Lacerda às 04:46

13.04.12

"E se você pudesse abrir o cadeado da sua vida?". A pergunta veio de supetão. Mas, por força das circunstâncias, e indiretamente, eu já me preparava para ela. Cogitei olhar do lado de lá do portão, mas ultrapassar limites, que não passam de uma cortina de fumaça, é outra história.
Que cadeado? Como assim? Somos tão condicionados à nossa prisão, que sequer nos damos conta de que estamos em uma. Da nossa casa. Do nosso trabalho. Da nossa rotina. Da sociedade como ela nos quer. Como devemos nos adequar socialmente, economicamente, fisicamente. Tudo não passa de jaulas.
Não, não estou amargurada. Mas o choque de realidade, como caldo de galinha, não faz mal a ninguém. E imergi nisso por meio de histórias de gente que nunca vi, senão pelo detalhamento de suas "esquisitices", "loucuras", ou tragédias. Quem me contou foi a Eliane Brum.
Eliane Brum é gente que fala de gente como a gente. Mas que, nem por isso, gente como eu e você consideraria gente. Ela transpõe, com palavras, vida e alma de desconhecidos, daqueles das periferias, dos becos, dos buracos, do rés do chão. Aqueles que não notamos a presença quando passamos numa rua ou na praça, porque estamos preocupados demais em manter as nossas jaulas imaginárias para notar os outros. Ainda mais com o outro desconhecido, e que nada significa para mim.
Mas todo mundo significa algo para alguém. E parece que, em nossas jaulas, não há espaço num vão sequer para esse senso de humanidade. São essas vidas miseráveis que viram poesia, engraçada ou triste, no texto de Eliane. Com ela, eu mergulhei na vida dos outros, para nadar na minha própria.
Domingo, com a segunda-feira já batendo as portas, estava fazendo o que sempre faço: conversando com alguém pela internet enquanto via o que havia de novo no Facebook, do qual já andava reclamando. Cansei, e me dei o desafio de passar os "dias úteis" sem sucumbir àquele ladrão de tempo. As primeiras horas da sexta-feira já chegaram, e mantive firme o propósito. O Twitter também ficou de castigo.
O que eu poderia fazer de melhor em vez de ver correntes, reclamações, campanhas? Bom, além de colocar em dia os episódios de um seriado (calma, um vício de cada vez!), comecei a ler "A vida que ninguém vê", da Eliane, prêmio Jabuti de livro-reportagem em 2007.
Confesso que estou quase obcecada por ela. Eu queria ser como o Ricardo Kotscho quando crescer, mas agora estou em dúvida. O que eu queria mesmo, para o resto da minha vida, era praticar o modus operandi de Eliane. Trazer à tona história de gente desconhecida. Conhecer sobre o que ninguém se interessaria, ou ousaria perguntar. Simplificar. Ouvir. Contar.
Sinceramente, não me interesso pelo sobe-e-desce da bolsa. Tenho pavor do teatro dos vampiros da política (se é que os vampiros merecem uma comparação dessas..). As celebridades já têm gente demais pra cuidar da vida delas. E, no fim das contas, com o que, ou melhor, com quem um leitor, um telespectador se identifica?
As dores, as aflições, as alegrias da vida. Tudo isso tem um significado único para cada um. O que pode ter todas as proporções do mundo. O que é o valor da vida para alguém que está fadado a passar o resto dos dias imóvel num quarto? O que vale tentar lutar não contra uma deficiência física, mas contra o preconceito que impõe a incapacidade para a mais esforçada das pessoas? O que significa ter um trabalho simples, e viver sonhos com ele, mesmo se prostando aos outros como superiores? Pedir esmola, ou não pedir esmola. Precisar de atenção, carecer de uma chance.
A vida é muito mais do que passar o dia atualizando status no Facebook ou executando um trabalho do mesmo jeito, todo dia. A gente não foi programado pra só "dizer sim, sim"... E aceitar o que nos impõe jaula adentro. Mas, como é que se foge disso? Eu quero descobrir.
Por mais que pareça besteira, essa reclusão das redes sociais não chega a ser um passo, mas um leve arrasto numa convicção que falta ser colocada em prática. Nós somos donos do nosso tempo. Inconscientemente, porém, voluntariamente, deixamos que terceiros (quartos, quintos) se apropriem e façam dele não necessariamente o que nós gostaríamos. Enquanto a vontade fica só no "se"...
Eu reconheço que tenho muito tempo livre, e não uso devidamente. E não é de hoje. Já perdi anos à toa. Mas, nesta semana, não. Embora não tenha executado a promessa antiga das caminhadas, me apropriei do meu tempo, optando por ler Eliane. Me infiltrei voluntariamente na vida alheia, para aprender sobre a minha. E, que coisa, isso não acontece quando comentamos sobre a situação do vizinho ou o novo affair da celebridade da vez. Porque Eliane traz das vidas alheias o que realmente importa - e ensina.
Moral da história é que sobrevivi sem face e twitter. O próximo passo é esquecer que e-mail existe aos finais de semana, já no dia a dia o trabalho exige. Também não quer dizer que quero me isolar do mundo, mas pensar mais em mim. Me dedicar ao que posso melhorar e aprender. Mas, pra não cuspir no prato que comi, ou melhor, na página que compartilhei, começo a colocar em prática uma das correntes exaustivamente rodadas do face. "Livros não mudam o mundo. Livros mudam pessoas. Pessoas mudam o mundo".
Mudar o mundo é pretensioso demais. Mas já estou satisfeita. Começo a remanejar as peças do meu próprio mundo, incluindo o cadeado que me prende a muitas coisas, que hei de destrancar. Começo a ver a minha própria vida além das grades. Começo a ver a minha própria vida. É uma grande coisa.

publicado por Daíza Lacerda às 01:38

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