18.07.16

COLUNA RELEITURA - 18/07/2016

O valor da memória

Daíza Lacerda

Não sei você, mas eu paro para flores, animais e histórias. Numa época tão fugaz como a nossa, vejo até como um alívio a possibilidade de se transportar para outros tempos, principalmente os que não vivi. Quando encontram um velhinho bom de papo, a pauta inevitavelmente é direcionada a mim, com os editores já esperando algum "livro" como fruto de conversas com o privilégio de não serem apressadas.
Mas, a cada dia que passa, é mais difícil se aprofundar, ou encontrar alguém lúcido o bastante e disposto a contar. Assim, temos um acervo infinito escondido em mentes, com a triste possibilidade de que não saiam dali.
Por isso, foi emocionante descobrir o testemunho do limeirense Orlando Forster como ex-combatente da Revolução de 32, cujas passagens reproduzi em matéria dedicada ao fato histórico em 9 de julho. Lembro de ter entrevistado o seu Ulisses, último sobrevivente, com a idade já bem avançada, e alguns lampejos da participação no embate. Imagino o que poderia ter ouvido se tivesse a oportunidade de ter chegado antes.
Faço tal colocação porque vejo que muitas pessoas, tomadas pela sua rotina, acabam não aproveitando o baú de sabedoria que têm acesso: seus pais, tios, avós, bisavós. Não importa a instrução, mas sim o que viveram e podem contar. Mas estamos sempre tão ocupados para ouvir...
Na semana em que minha avó paterna fez a sua passagem para outro plano, foi inevitável creditar a ela o meu apego às histórias. Primeiro nossas, depois a dos outros. Inevitável a reflexão sobre o que pude absorver de sua vivência, de tempos agora perdidos pelo elo mais antigo que eu tinha com o passado, e que se foi.
Infelizmente, as consequências da negligência com a memória talvez sejam percebidas tarde demais. É algo que já nos damos conta hoje, mas não sabemos qual será o impacto no futuro. Não sabemos mensurar o tamanho da história oculta em objetos ou recordações, talvez por não termos essa cultura, como em outros países. Aqui, as pessoas tendem a se livrar das velharias.
Nosso patrimônio histórico é (mau) exemplo. Infelizmente, parte é herdada por pessoas que não têm interesse em preservá-la. E quem tem, não tem meios, na maioria das vezes. Assim, fragmentos da nossa história viram entulho. É uma transformação tão dinâmica, que a Limeira que minha avó viveu está na memória. O que a Limeira que eu vivo representará aos meus descendentes daqui algumas décadas? Nós registramos essa história todos os dias, mas não temos ideia do tom que este livro do cotidiano vai ter, lá na frente.
Até hoje ganho broncas pelo espaço consumido com o meu apego a papéis, arquivos. Ainda tenho a esperança de que, o que hoje não passa de "lixo", um dia seja o tesouro de alguém que não testemunha esses tempos. Assim como, eventualmente, tenho a oportunidade de acessar tesouros de quem teve o cuidado de preservar qualquer indício do passado.
A sensação é sempre de que o tempo passa cada vez mais rápido. Mas, na ânsia de avançar, não sabemos o quanto perdemos em não olhar para trás.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

11.07.16

COLUNA RELEITURA - 11/07/2016

 

Quando o absurdo é a regra

 

Daíza Lacerda

 

Sim, vai ter Olimpíada! Sou super a favor da realização dos Jogos no Brasil e faço campanha para que as pessoas se desprendam dos ranços políticos e aproveitem a oportunidade de ter por perto um evento histórico.
Mas... por mais chances que a gente dê, alguns agentes públicos conseguem contrariar leis como a da lógica. Temo quando irão dominar até a da gravidade, diante de feitos que julgaríamos impossíveis, mas eles realizam.
O choque é devido à foto do poste na ciclovia do Parque Olímpico no Rio de Janeiro, literalmente um retrato do descaso à mobilidade e ao esporte, na cidade que se ostenta como "academia natural". Como se não bastasse a queda de um trecho de ciclovia, inclusive com vítima fatal.
Parece cômico, mas é trágico. Assim fica difícil acreditar que há seriedade no trato da coisa pública, até mesmo defender um evento tão tradicional com ameaças de ser manchado pela também tradicional falta de gestão eficiente dos recursos. O pedido de socorro ao governo federal evidencia a vergonhosa falta de planejamento da cidade e Estado do Rio. Mas estamos num país que é mais difícil assumir as limitações do que reconhecer quando não dá. Como já ouvi muito, "não guenta, não tenta". Mas, também, como se diz, brasileiro não desiste nunca.
Só que a vocação de remar contra a maré se espalha de forma espantosa, como em exemplo de outra esfera. Só a intenção de aceitar um simpatizante da ditadura militar para chefiar a Funai já seria uma ofensa. Mas a cereja do bolo é a indicação partir de um partido "cristão", dentro de uma barganha de cargos previamente acertada. Partido este que não considera tal posicionamento um constrangimento, aludindo à "democracia" de cada um defender o que quer. Resumo da ópera em reportagem da Folha: http://bit.ly/29lHt9W. Não sei se estou equivocada ou o partido, nem se estamos tratando do mesmo fato, aquela mancha na história brasileira que até hoje oculta corpos, razões e sabe-se lá mais o quê, em nome de qualquer coisa, menos da democracia. A nomeação foi barrada graças à intervenção do Ministério da Justiça, mas só depois depois de muita repercussão.
É triste ainda precisar garantir justiça "no grito", e ter de demandar mais energia em coisas que deveriam nos tranquilizar (ter uma ciclovia) e não nos preocupar (como um poste no meio dela).
Drummond, que jaz em bronze lá em Copacabana (também vítima com os inúmeros furtos dos seus óculos), sabia de nada, inocente. Pedra é para os fracos. No meio do caminho tinha um poste. Na paciência tão fatigada do brasileiro, vai à prova qual dos acontecimentos nunca serão esquecidos: os Jogos ou as falhas.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

04.07.16

O artigo desta semana é sobre o professor Fumaça, e a nova fase que testemunha daquela que foi a sua casa por quase 50 anos, a pista do Tiro de Guerra. Neste texto peço licença para misturar a jornalista e corredora amadora, dividindo um fragmento do filme que passou na minha cabeça ao fazer parte daquele espaço e ter acompanhado tão de perto a transformação pela qual passou. No mais, fica a minha admiração ao professor e o agradecimento por mais uma lição: o amor incondicional ao que se tem como missão de vida, ainda que isso exija o desapego.

 

COLUNA RELEITURA - 04/07/2016

 

Ao mestre, com carinho

 

Daíza Lacerda

 

Foi ao ver a foto postada na rede social que me mei dei conta da relação de causa e efeito entre o exercício da profissão e o gosto pessoal pela corrida que me tomou há alguns anos. No álbum da inauguração do piscinão na fan page da ALA, o atleta Hiei Germano registrou minha entrevista com um Fumaça emocionado ao voltar ao local no qual se dedicou por quase meio século ao atletismo.
Lembrei que era uma sedentária quando entrevistei o Fumaça pela primeira vez. À época, a pauta era uma das edições da corrida Ainda. A matéria teve também depoimentos de deficientes que arrasavam (e ainda arrasam) nas pistas, o que me deixava mais envergonhada de não ter coragem de me mexer. Isso mudaria tempo depois, quando pisei pela primeira vez na pista do Tiro de Guerra, com um par de tênis velho e um par de canelas muito finas e fracas.
Ainda não fazia ideia da vasta formação que a pista havia proporcionado. Histórias de gente que passou a juventude ou infância trotando ou acelerando ali pipocaram quando a pista seria fechada para obras do piscinão. As máquinas escavadeiras chegaram antes do esperado, e foi de cortar o coração ver o professor deixar aquele que era o seu lar. Na verdade, era como um lar a todos que habitavam, inclusive eu que, à epoca, mal havia aderido à equipe. Tudo tinha significado, desde o pomar nos quais as galinhas descansavam à escadaria, gramado, e falhas na pista que todos conheciam de cor. Era impossível não se sentir em casa com tanta hospitalidade.
Fiquei surpresa ao constatar o quanto Fumaça havia acostumado ao "novo lar", na área ao lado da Câmara Municipal - que também foi um parto para ser viabilizada. Era um desapego que não esperava dele, mas que se mostrou tão importante quanto se apropriar dos locais públicos de forma sadia.
A pista disponível hoje não é mais a mesma, e precisará de adequações. Assim como a área do Piratininga, que foi totalmente transformada pela ALA à época, quando se encontrava fechada e abandonada. Se o piscinão promete iniciar um novo capítulo na drenagem, talvez a transformação que está por vir na então tradicional pista também seja uma oportunidade para renovar e alavancar o atletismo em Limeira.
O professor estava indeciso. Disse que ficaria na pista a qual fosse designado, sem sinais de querer se aposentar. Quem já presenciou seus treinos morro acima na tutela de jovens pangarés como eu e muitos outros, sabe que não largará o osso até que lhe faltem forças. Problemas de saúde o tiraram das competições por um tempo. Paciente, esperou e voltou nos Jogos Regionais do Idoso (Jori) deste ano, garantindo medalha.
A saga do piscinão, nos dois anos entre a primeira escavada e a inauguração, pode até ter parecido um dia como uma eternidade, mas imagino como deve ter sido presenciar, de fato, o pulo de gerações à maneira que Fumaça testemunhou. O tempo entre a construção e reconstrução teria passado na velocidade de um tiro dos 300 metros que a pista tinha? O peso, velocidade e valor dos anos está além do que a nossa geração pode mensurar. Mas, como um patrimônio vivo, Fumaça sobrevive ao tempo de olhar para o novo, com a sabedoria do veterano.

 

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

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