27.06.16

E como é que faz para entrevistar um ídolo segurando a tietagem? Meu nervosismo foi embora nas primeiras trocas de ideias na entrevista com a Ariane Monticeli, fera do triathlon de longa distância (pra quem perdeu, matéria na íntegra em http://bit.ly/28Y5Go2). Desliguei o telefone e lembrei daquele longínquo e inusitado encontro com o Neymar, e da distância estratosférica de tratamento de ambos os campeões. A vida de nenhum atleta é fácil, mas não é raro enchermos demais a bola (principalmente a bola!) de quem tá mais preocupado com holofote do que com resultado. Mais em ostentar grifes do que fazer bonito pela própria Nação. Vamos olhar mais pra quem está ralando de verdade. Se as Olimpíadas não forem uma oportunidade pra isso, só Deus sabe quando seremos capazes de reconhecer os esforços genuínos de tantos anônimos que treinam além de seus limites.

COLUNA RELEITURA - 27/06/2016

Gente como a gente

Daíza Lacerda

Em meados de 2014, era início da noite de domingo quando eu e famíliares saímos da Bolsa do Café, em Santos, antes de seguir de volta para o interior. Nas calçadas já escuras da região histórica da cidade litorânea, uma movimentação nos chamou atenção. Era ninguém menos que o jogador Neymar, desembarcando de um carro importado que não faço ideia de qual seja, com seu filho no colo e um outro acompanhante, e um grupo considerável de fãs atrás. Parou para meia dúzia de fotos, antes de sair correndo na noite que já se instalara. Isso foi depois daquela lesão que teve em campo, em plena Copa do Mundo, no Brasil. Na noite e num local cujas opções próximas eram barzinhos, a celebridade na qual uma Nação inteira depositara as esperanças da taça parecia muito bem, obrigada.
Me lembrei dessa passagem no final da última semana, ao entrevistar a Ariane Monticeli, que viria a Limeira para palestra e treino, trazida pelo nadador limeirense Diego Prado. Craque no que faz, ela seria uma versão feminina do Neymar no triathlon que, como tantos outros esportes, está longe dos holofotes monopolizados pelo futebol, exceto pelas coberturas especializadas naquela modalidade ou campeonatos muito, muito específicos.
No contato com ambos, Neymar parecia um rei. Ariane, parecia minha vizinha. Conversou comigo como me conhecesse há tempos e não poupou detalhes de sua árdua trajetória na busca da vaga do mundial de Ironman. Mas, como a fama a precede, não esperava algo diferente daquela que divide a rotina com seguidores, na alegria e na dureza de trazer de volta ao Brasil aqueles feitos até hoje conquistados pela lenda Fernanda Keller, como os títulos nacionais e boas posições internacionais.
Mais uma vez, nos limites da lauda não couberam a paixão dessa mulher pelo que faz, e o quanto está disposta à luta. Conversamos num momento em que ela parecia especialmente esgotada, e se preparando para quatro semanas de treino a serem cumpridas em três. Limite da força e disciplina na alimentação fazem parte da rotina da gaúcha radicada na capital paulista que adora doces e lida com o trânsito para conseguir treinar. Ela diz que é uma pessoa normal, cumpre expediente na firma (o Esporte Clube Pinheiros), programa férias. Só que não consegue dizer não para as selfies e questionários intermináveis dos admiradores, em sabatina que prolonga as suas palestras, nas quais não poupa detalhes de sua vida de mulher de ferro.
As posturas desses atletas expõem mais do que parece, pois falta muito valor onde realmente precisa. Tem muita gente investindo suor e força imensuráveis em trabalhos que são pouco ou nada reconhecidos. Exemplo são os atletas paralímpicos, cujo desdém veio do próprio Comitê Olímpico na divulgação e venda dos ingressos das disputas olímpicas dos deficientes. Esses atletas, justamente por chegarem ali, se mostram muito mais eficientes que muita gente com corpo e mente íntegros.
Outro furo é a recente estreia do filme Paratodos, cujo elenco são atletas paralimpicos e as suas jornadas rumo ao pódio. Alguém viu em cartaz em algum cinema aqui do interior? Nem eu.
Mais do que lamentações, que fiquem os exemplos. Embora extraordinários, atletas são gente como a gente. A postura de cada um - e a nossa diante deles - pode ensinar muito.

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publicado por Daíza Lacerda às 08:30

20.06.16

Meu artigo de hoje traz o lado B da ‪‎reportagem‬, aquilo que nem sempre cabe na tal da objetividade ‪‎jornalística‬. A satisfação sincera, aquela alegria genuína incontida, são manifestações que podem passar ao largo dos limites da lauda, mas é impossível sair imune a demonstrações como essas. Betinho dá a cara a um trabalho que é de equipe, mas para ele é muito mais. É uma ‪‎missão‬ de vida. Dedicada a outras vidas vulneráveis. O ‎inverno‬ quer se fazer de difícil. Vamos ver se ele é páreo para o riso do Betinho.

 

COLUNA RELEITURA - 20/06/2016

O riso do Betinho

Daíza Lacerda

Não era exagero: ele parecia querer soltar fogos de artifício para comemorar. Não se continha de alegria diante das dezenas de camas arrumadinhas, coloridas, à espera de alguém para aquecer. Era a materialização de um ideal pelo qual trabalhava muito antes de entrar no serviço público. Reluzia a alegria de Albert Neves, o Betinho. Coordenador de abordagem social por profissão. Acolhedor de moradores de rua por vocação.
A sensibilidade aflorada nesta época de tanto frio é constante na vida de Betinho, que é facilmente visto percorrendo a cidade numa Kombi branca da prefeitura, levando e trazendo pessoas com as mais variadas carências: de comida, de estrutura familiar, de um lar. Faltas que a assistência social tenta suprir em serviços como o do Centro Pop, mas que dependem também do comprometimento e colaboração da própria pessoa.
Foi em meados de 2011 que conheci a missão Anjos da Noite, da Comunidade São Judas Tadeu, da Paróquia Santa Isabel. Uma equipe passava a noite percorrendo as ruas para dar o que comer e onde dormir a quem aceitasse. Lá, conheci Betinho, outros fundadores e voluntários, e um mundo de histórias que não poderia ser contado numa única matéria, mas rendeu uma série delas. Qual não foi minha surpresa em vê-lo em ação no Ceprosom, prestando no serviço público municipal aquilo que já adotara como missão de vida.
É fato que a burocaria sufoca os serviços. Mas há áreas que simplesmente perdem a razão de ser, caso não sejam movidas por quem se identifica com elas. Na assistência social, o acerto é reconhecido de longe quando o trabalho é feito por quem tem o dom. Não é qualquer um que sabe abordar, ouvir, orientar. Essa é uma carência gritante, por exemplo, em alguns setores da saúde pública (e até particular), nos quais as pessoas já chegam fragilizadas, e muitas vezes recebem atendimento com desdém, para dizer o mínimo. Isso quando um mero sorriso pode fazer toda a diferença.
Numa semana em que dezenas foram mortos num vergonhoso ataque homofóbico e que uma deputada é assassinada a tiros e facadas, tudo no "primeiro mundo", é de se perguntar aonde o mundo vai parar se nem os países mais desenvolvidos estão imunes à barbárie. Porém, são singelos os sinais de que, apesar de tudo, ainda não é hora de perder a fé na humanidade. Felizmente, temos escondidinhos por aí raios de sol que só se mostram na hora certa, e a quem precisa. Sem alarde, mas com eficácia.
A partir da noite de hoje, os apetrechos precários, cinzentos, de quem tem a rua como casa, serão substituídos por cobertores, edredons de todas as cores. Na baixada do Centro, tão mal referenciada como o ponto da miséria e das inúmeras vulnerabilidades possíveis, mãos, mentes, corações e ideais de equipes tornaram real o verdadeiro hotel 5 estrelas de quem só tem as marquises como teto. Na baixada do Centro, no leva-e-traz cidade afora, o riso do Betinho é o calor dos corações anônimos acolhidos no meio na noite fria.

 

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publicado por Daíza Lacerda às 08:30

06.06.16

COLUNA RELEITURA - 06/06/2016

 

Vamos voltar para a selva

 

Daíza Lacerda

 

As condições climáticas da semana que passou são pertinentes para uma reflexão profunda no Dia do Meio Ambiente, celebrado ontem. Ventania, granizo e chuvas torrenciais assustaram mas, infelizmente, o falatório sobre os eventos pode ter ficado restrito ao medo e indignação sobre a (falta de) estrutura das cidades. Já escrevi antes que o problema não são as chuvas, mas nós. Mas e quando a chuva vem com tudo fora de época? E quando ela desapareceu quando era época? Falta de previsão continua não sendo desculpa.
Ao cruzar a cidade na noite de quinta-feira no meio do temporal mais volumoso de junho nas últimas décadas, com enxurradas de fazer inveja para qualquer chuva de verão, ficaram evidentes as negligências estruturais acumuladas desde que a cidade virou cidade. Bocas de lobo que, quando não estão em lugares errados, são inexistentes. Ou insuficientes no mar de impermeabilização do asfalto. Mas não se trata só da falta de cultura de planejamento urbano. A negligência é também com o planejamento ambiental.
A única conclusão possível na travessia chuvosa é que simplesmente plantamos o que colhemos. Enxurradas, enchentes, quedas de árvores: nada mais do que a reação à ação do homem, que insiste em subestimar a soberania da Mãe Natureza. O erro é simplesmente não respeitá-la - ou minimamente aprender com ela.
O mundo todo sofre com extremos nas condições. O que muda é a postura diante delas. Um exemplo perfeito é a reconstrução em tempo recorde após os terremotos e tsunamis registrados no Japão em 2011. No Brasil, por danos infinitamente menores, mas significantes, discursos se arrastam e estruturas não mudam. A postura é oposta. Que tipo de consideração esperar de uma concessionária de energia que alega "situação controlada" quando comércios perdem um dia de expediente com a falta de eletricidade ultrapassando as 12 horas? Quando operadoras telefônicas averiguam uma fiação caída no chão e nada fazem? E são serviços muito, muito caros. Mal prestados e mal regulados.
Somos reféns do nosso próprio conforto nestes tempos. Nessas horas é possível enxergar que não passa de ilusão toda essa infraestrutura de segurança que acreditamos ter. Criamos redes e serviços de ponta que são reduzidos a nada quando a natureza assim decide. Talvez a única forma de fugir da vulnerabilidade seja voltar para a selva, embora as demandas desses tempos estejam roubando até essa possibilidade, a exemplo da hidrelétrica de Belo Monte, erguida a um custo humano e ambiental imensuráveis.
Em "Nascido para correr", Christopher McDougall envereda pelos estudos de quais fatores determinaram a evolução do homem como corredor. Em dado momento da História, o homem literalmente corria horas atrás da caça, dependendo somente das próprias pernas, mente e fôlego para garantir a janta. Pensando bem, felizes deles. Não estavam nas mãos de economia, urbanização ou concessionária alguma, o que os obrigavam a conhecer e respeitar a natureza, aprendendo a sobreviver nas regras dela.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

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