26.04.12

Por mais que eu tente ficar indiferente, ou neutra, a todas as "provocações" em relação a moto, não consigo. Por mais que eu já tenha "lavado as mãos" de segurar a bandeira de defesa de quem usa a moto. Não posso mais defender quem quer se matar. Agora só falo por mim.
Na sexta-feira, achei que era brincadeira quando minha colega de redação e vizinha de baia Renata Reis voltou de uma entrevista com o delegado seccional falando sobre um possível projeto que obrigasse os motociclistas/motoqueiros a terem, no capacete, uma etiqueta padronizada com o número da placa da moto. Hein? Será que estou em São Paulo, com aquelas leis esdrúxulas propostas pelos deputados e não sei?
Bom, no dia seguinte, levantei para o plantão de sábado, ouvindo uma música que adoro no rádio, aliás. Mas tinha que conferir o jornal na internet antes de sair. E lá estava a manchete, com o capacete do também colega de redação e motociclista, Denis Martins, servindo de modelo na foto. Cheguei na redação com um humor do cão, sem esconder da Renata, que também estava de plantão naquela manhã cinza de chuva torrencial, que a matéria dela tinha estragado o meu dia. Embora não fosse culpa dela, que só apurou e escreveu.
Depois de algumas leves considerações no Twitter, e a promessa de destilar a minha ira mais tarde, o que faço agora, consegui me concentrar no trabalho. E, agora, nessas horinhas livres, vou me dar ao trabalho de pensar sobre o trabalho da polícia.
Por quê sou contra ser padronizada com um adesivo na cabeça? Primeiro porque não sou gado para ser marcada. A "ideia", importada de uma iniciativa em La Paz, na Bolívia, que derrubou os índices de crimes com motos, para mim não é mais do que outra medida preconceituosa, da mesma cesta de ideias "incríveis" de edis São Paulo afora como andar com colete com a placa da moto ou proibir garupas. Segundo, porque não acredito que irá trazer efeito prático, dado o brilhantismo de improvisação dos bandidos tupiniquins (sem ofender a classe criminosa da Bolívia, é claro).

Na matéria, o delegado seccional - excelente profissional que também já tive o prazer de entrevistar e respeito muito - explica que a ideia da padronização humana com etiqueta, válida para quem tem o azar de precisar da moto, mesmo veículo usado por ladrões, não é multar, mas identificar criminosos que, presume-se, não se adequariam à lei e seriam descobertos.
Criminoso tem malícia até para roubar joalherias nos shoppings mais chiques de São Paulo, meu caro delegado. Por que não teriam ao praticar qualquer outro crime aqui, de moto? Quer dizer que, se é padronizado, não é criminoso? E, se anda sem o adesivo, é um bandido e não ignorante sobre a "lei"? Não vejo efeito prático nisso.
O ponto central é que é sempre mais fácil generalizar, para, digamos, facilitar o trabalho das autoridades. De autoridades em várias esferas. Motociclistas que usam a moto como sustento é quem tem que se virar para provar que não são bandidos. Os bandidos só precisam continuar improvisando para não serem pegos. Se uma lei dessa for aprovada, teremos que andar etiquetados para facilitar o trabalho da polícia. Policiais vão gostar se eu generalizar que todos não cumprem o seu trabalho de caçar bandidos (seja de moto, carro ou barco)? Não, porque essa afirmação não é verdadeira. Mas é muito mais fácil jogar o ônus para nós. Gasta com a tal da etiqueta (por que, tal qual como padronização de placas e 1001 outras coisas, imagina o mercado que isso iria movimentar) e, se não andar na linha, se vira com a multa também. Mas acreditamos que tudo o que a polícia quer é pegar bandidos. Principalmente porque toda pessoa que anda de moto - não importa o tamanho ou a marca - já é um bandido em potencial declarado. Não é?

Já pago um seguro obrigatório surreal, além do seguro opcional de valor tão surreal tanto, pra ficar menos frustada caso o bem que trabalhei para comprar seja levado por um bandido. Ei, autoridades, eu sou motociclista e também sou vítima. Cadê o Estado para me proteger? Já chorei a morte de amigos motociclistas que o facínora trânsito levou, assim como rezo pela recuperação de quem se salvou uma, duas, três, várias vezes sobre uma moto. Muitos próximos já tiveram uma moto roubada ou furtada. Foi sempre culpa deles mesmos? Motociclista só serve como culpado nas estastísticas? Onde está registrado, que eu vou lá conferir.
E tem outra coisa, Estado (e município): se eu tivesse um transporte público decente e com preço justo, apesar de eu gostar tanto os senhores acham que eu me arriscaria de moto? Sou a primeira a querer iniciativas para conter a criminalidade com motos. Mas não a qualquer preço para a coletividade. Cada um com o seu trabalho. Eu evito me tornar ameaça no trânsito: não dirijo carro. Eu sei, mas não tenho experiência. Desde que tenho a carta na mão, só sei o que é pilotar moto. Vou me arriscar, e aos outros, pra quê? Mas eu posso falar por mim. Pelos outros, que oferem perigo em potencial e não estão nem aí, não cabe a mim fiscalizar - e punir. Certo?
Eu sei que é só um adesivo, não custa nada colá-lo nos meus dois capacetes, ou trocar de capacetes quando estiver na garupa da minha irmã, pai ou namorado, eles, idem, se precisarem da minha carona. Ainda mais eu, nojenta com a higiene dos meus próprios capacetes. Trabalho nenhum, complicação alguma. Eu só tô cansada dessa coisa de sempre generalizar, generalizar, genralizar, e nunca aparecer um santo disposto a separar o joio do trigo. Cansei de ser tratada como bandido por ser motociclista. Será que posso chamar os direitos humanos, pra não ser marcada como gado?

E O QUE ERA PARA SER LEI?
E O QUE JÁ É OBRIGAÇÃO?


Bom, no mesmo sábado em que surtei de manhã com tamanha bizarrice, à noite, foi exibida uma matéria no Jornal Nacional sobre as fraturas feias de quem cai de moto. Uma menina até diz no depoimento que, depois que se recuperar nas fisioterapias, não vai mais andar de sandália ou roupa aberta de moto. Tomou, bicudo? Fico imaginando o couro das piriguetes que sobem e descem a serra mostrando as suas pernas na garupa, com o mochilão detonando as costas. Lindo de ver, mané? Imagine a fratura quando o vida loka sair voando no túnel e aterrissar na serra. É falta de noção total.
É claro que na cidade, para trabalhar, não piloto encapotada, como quando estou na estrada. Mas, mesmo no calor de 30 graus, não abro mão da blusa pesada. Pode não impedir ferimento algum, mas pelo menos amenizar de uma queda.
Aí fiquei pensando no que o Estado faz pela segurança do motociclista. Limita os locais em que ele pode rodar, é claro. Tipo, "quer se matar, se mate só na faixa local". Não tem iniciativa tipo "viu, você não deve se matar ou tentar matar os outros, vida loka imbecil".
Por que um deputado, vereador ou delegado não têm a ideia de fazer uma lei que obrigue o motociclista a andar protegido, com jaqueta e botas? Ué, não estão tão empenhados em nossa segurança e na de terceiros? Porque isso não renderia, pelo menos diretamente, nada ao Estado, mas às lojas de equipamentos. De imediato, alguém iria refletir o alívio no tratamento de traumas na rede pública de saúde, que nós mesmos bancamos? Se dariam ao trabalho de fiscalizar adesivos, mas teriam a mesma vontade de conferir algo cujo uso o privilegiado é, primeiramente, o próprio motociclista/motoqueiro?
As fiscalizações, muito bem-vindas, do estado do veículo, ainda são insuficientes. Gente andando com a moto (e carros) caindo aos pedaços, até o dia em que isso acontece, literalmente. Gente andando com aquelas mochilas gigantes escorregando para um dos lados, num desequilíbrio total, e mortal. Capacetes em estados terminais, que com viseira fechada não se vê a um palmo. Regatas, chinelos, bermudas. Fora da praia (não que se justifiquem no litoral). Não se fiscaliza o suficiente o que deve ser fiscalizado, e querem inventar mais medidas sem efeito prático. Mas não, não é indústria de multas. "Só querem a nossa segurança".
Falando em multas, no recente balanço da prefeitura de Limeira, foi justificado o aumento de multas ao da fiscalização. O número de agentes dobrou. O de multas, triplicou. Equânime, não? Bons de vista esses agentes, que só não aparecem quando cometem infrações contra nós. Mas não, não estamos numa indústria de multas e, antes que a gente esqueça, os acidentes continuam aí, claro, com aqueles números lindos para as motos envolvidas. Mas sabe que, até hoje, das pesquisas que não acabam mais falando do envolvimento cada vez maior de motos, NENHUMA especifica se a culpa da ocorrência era de quem estava de moto ou com outro veículo? Eu nunca vou saber se a maioria de motociclistas/motoqueiros é vilã mesmo e deve queimar no inferno, ou se é vítima e deve ter seu lugar no céu reservado para uma partida na próxima esquina. Assim até eu vou demonizar as motos o resto da vida, ainda que um motociclista perca a vida, ou uma perna, fechado por um carro.
O departamento de Transportes de Limeira também anunciou nessa semana que usará parte dos quase R$ 5 milhões de multas arrecadados no ano passado para investir em blitze educativa para motociclista. Acho ótimo, isso. Mas, como já vimos, planejamento e execução decentes não são o forte nesta secretaria. No ano passado, ao mesmo tempo que a campanha pró-pedestre fez o maior barulho e muitas multas em SP, a mesma iniciativa foi ensaiada aqui. Só ensaiada. Na época, usei a bike como transporte alguns dias, também na condição de pedestre, empurrando-a, nas travessias, nas faixas, na calçada. Fosse um pouco mais bobinha, não estaria aqui para contar a história. A campanha para defender o pedestre foi uma campanha fantasma em Limeira. Mas acho que nem quem tem visão sobrenatural conseguiu ver. Nem no sonho.
Só pra lembrar: também é dever do Estado/município oferecer vias seguras e bem sinalizadas. A gente pagar por isso. Não é nenhum favor pra ser comemorado como "presente" em campanha eleitoral. Lembre-se disso, no próximo buraco ou rotatória suicidada, onde não são fiscalizados os abusos.

O QUE EU QUERO DIZER É: VIVA

As autoridades querem nos limpar do mapa para que paremos de dar problemas e trabalho para eles (escrevo isso lembrando dos lemas do Jackson Five... mais verdadeiro, impossível). Por isso, caros amigos motociclistas de bem, estamos fadados à generalização. Desculpe se sou a última a dar conta disso. Só não queria me conformar. Para tributos (das motos, dos produtos, dos documentos, dos registros), servimos. Para cobrar nossa parte em segurança, estamos no grupo dos maus.
Nesta semana fui procurada para dar um depoimento numa matéria sobre motos, que seria produzida para um dos jornais da Rede Família. Como já tinha xingado muito no Twitter, o colega Guina até me tranquilizou: "não é sobre os capacetes não!". Era sobre os dados da Prefeitura, que já comentei anteriormente.
Bom, aceitei de pronto, e fiquei imaginando como conseguiria transmitir, da forma mais sintetizada possível, o que gostaria de falar sobre essa condição numa edição de TV, sendo otimista que minha fala teria uns 2 segundos. Admito que comecei errado, porque não estava com o sapato apropriado para pilotar, e nem com o melhor dos capacetes. Mas não sou exemplo sempre, e nem tenho essa pretensão. Aí fui batendo um papo com a Grá Félix, enquanto íamos ao estacionamento para eu buscar a moto e dar uma voltinha para o vídeo. Contei pra ela sobre o meu primeiro e, graças a Deus, único tombo com três meses de moto, quando descobri que não existe preferencial. Nem pra mim, nem pra ninguém. Contei sobre o camarada na marginal Tietê que passou voando do meu lado no corredor, e que o encontrei alguns quilômetros adiante, estatelado no chão, homem num canto e moto noutro.
Outra coisa, que nossa hipócrita sociedade jamais irá admitir: que é muito fácil levantar o dedo pra eleger o motociclista/motoqueiro de todas as mazelas do trânsito e do mundo, quando se quer que a pizza, a marmita, o remédio, ou o documento cheguem urgentemente a um destino. Por que não é quem pede que está arriscando o couro. E depois você ainda pode chamá-lo de imprudente e causador de acidentes, ainda que fosse pela sua encomenda que ele estivesse correndo.

É claro que nada disso justifica a imprudência, tanto de moto quanto de carro ou ônibus. Mas o principal que consegui falar na entrevista, e gostaria que as pessoas refletissem, é que se cada um pensasse na esposa, mãe ou filhos que estão esperando em casa (os que ficam), iriam refletir se vale a pena correr ou se descuidar para ganhar um minuto, um segundo que seja. Pra quê? Pra chegar primeiro no PS? Ou no cemitério? Se as pessoas não pensam na própria família, como vão pensar na do próximo, ao sair voando pra cima de alguém, tirar uma fina com quem está do lado? É uma terra de ninguém e não há veículo para determinar isso. Há condutas.

Em toda a minha vida já rodei quase 80 mil km de moto, a maioria numa CG 125. Fiquei imaginando.. Com Kashmir, fui e voltei, ilesa, de Curitiba, passei pela "rodovia da morte". Não seria ridículo me acidentar numa das rotatórias de Limeira, um pacto tremendo com a engenharia do mal - e da morte? Ou seja, aonde está o perigo? Com quem está o perigo?

No Brasil, como é de se esperar - mas não para se conformar - as autoridades vão continuar lavando as mãos e fazendo o que convém a elas. É cada um por si na terra de ninguém. Não acho que tudo seja obrigação só do Estado. Pelo contrário. É no desconfiômetro de cada um que as coisas podem ser mudadas. Mas enquanto todo mundo se acha um Vettel, sobre duas, quatro, ou quantas rodas for, o caminho será livre para a imprudência e impunidade no dar de ombros das autoridades para o que realmente importa e faz vítimas. Mas é só mais um, não é mesmo? No que é obrigação do Estado, enquanto não tirarem bandidos das ruas, eles continuam agindo por aí, de moto, carro, a pé, de bicicleta.
Não defendo mais quem anda de moto. Quer se matar, vá, por conta e risco. Todos vão continuar nos culpando, de qualquer jeito. Mas poupe a vida dos outros. É o que tento fazer por mim. Me cuido porque não quero minha família chorando por consequências de um gosto que, apesar dos pesares nos apontamentos da sociedade, me dá mais alegrias do que tristezas nesses seis anos e meio e 80 mil km. Para autoridades são números. Para mim é vida.

sinto-me: Indignada
publicado por Daíza Lacerda às 11:50

20.04.12

Não acabam neste mundo as coisas inexplicáveis. A morte é uma delas, embora seja esta a única certeza da vida. Não adianta eu tentar me esconder da morte sobre duas rodas. Embora esteja indo bem como uma sobrevivente.

Nesta semana a prefeitura divulgou uma enxurrada de números sobre o trânsito da cidade. É claro que não dá para esperar nada otimista com a situação das motos. Muito pelo o contrário. Esse véiculo, movido com paixão por alguns, ainda é arma para outros.
Nesta semana também morreu em outra rotatória de Limeira uma jovem, Letice, de apenas 23 anos. Estava de moto. Deixou um filho de 10 anos e uma vida inteira na condicional - o que "seria". O motorista do caminhão que passou por cima dela disse que não a viu ao fazer a manobra, já que ela estaria posicionada em seu ponto cego. Quem pode explicar de quem é o erro?
No ano passado, Johnny estava com uma Hornet na Lauro Corrêa, onde morreu a caminho de sua casa, que nunca chegou. Estudamos junto no colegial. Naquela época ele já andava de moto, embora não tivesse idade para habilitação. Foi o último de seus vários tombos. Ouvi dizer que, alguns dias antes de sua morte, ele teria dito que era um gato, com sete vidas. Teria gasto todas as fichas?
Numa outra ocasião, eu chegava em casa do trabalho, num sábado à tarde, quando vi, na saída de outra rotatória na Lauro Corrêa, a moto num lado e os dois ocupantes, cada um em outro. Chovia. Devidamente vestida com a capa, desci para ver se era alguém conhecido e, como já tinham chamado socorro (a aglomeração já era grande), fui pra casa. Não sem a imagem de um deles gemendo de dor, com o pé totalmente torto virado para o lado oposto, fora a condição terrível do acompanhante. Ambos vestidos de camiseta, calça e tênis. Dias depois, a notinha no jornal sobre a morte de um deles.

* * *

No trabalho, gosto de escrever ouvindo música, com um fone que veda o ruído externo. Isso ajuda a me concentrar. Entre um texto e outro, hoje ouvi novamente, na rádio online, uma música que há tempos tentava identificar. Era a "Remember It's me", do Gotthard. Tudo o que conhecia da banda era os hits que sempre tocam na Kiss, inclusive Lift U Up, que foi amor à primeira ouvida e que sempre me dá um gás quando estou pra baixo, como o próprio nome e melodia sugerem. 
Fui atrás da balada "Remember", encontrada para download no site da banda. Mas quando se gosta de uma, duas, três, ir atrás do resto é inevitável. Foi assim no passado com Heart, e recentemente com Grand Funk Railroad. Porém, bad news. Me lembrei da notícia, mas não conseguia associar porque não havia pesquisado a banda a fundo ainda. 
Steve Lee. O rock tem muitos filhos chamados Steve, Steven. Se um dia eu tiver um filho, é quase certo que ele tenha este nome também (para honrar Steven Tyler, Steven Morrissey, Steve Vai...). Tão certo quanto ele deverá gostar de rock e de moto, como eu. Como gostava o Steve Lee. Tanto que se exilou de temporadas de shows para viajar pelos EUA com amigos, a bordo de Harleys. E fiquei chocada com a estupidez da morte dele, em 5 de dezembro de 2010, parado com sua moto no acostamento de uma estrada de Las Vegas, quando vestiria a capa de chuva para seguir viagem. Com a estrada escorregadia, um caminhão derrapou na pista e bateu nas motos. Uma delas voou sobre o vocalista do Gotthard. Só bateu nele, e ele morreu, em frente a um dos companheiros de banda e de sua namorada, que saíram ilesos.
O Gotthard continua. Agora com outra voz. But remember...  

* * *

Não é ridículo? Não é inexplicável? A gente tenta achar motivos para todas as mazelas do mundo, e, no fim, temos de nos conformar com um "era pra ser", ou "tinha que ser assim". Pensa na forma mais improvável de uma pessoa morrer de moto. Pois é. 
Muita gente gosta de coisas perigosas e vive e morre com elas a todo o tempo. Cigarro, bebidas, drogas, más companhias. Motos. Como se explica uma morte ocorrida com moto? Quantas vezes consegue se determinar se era culpa do motociclista, ou do motorista de outro veículo, ou das condições? Ou da vontade de Deus? 
Era para ser? Penso em Letice, que eu não conhecia, e penso em Steve Lee, que conheci hoje. Ele tinha 47 anos e dava voz a uma música mais linda do que a outra. Era para ser? Não sabemos, mas a moto taí pra servir de culpada. Ela é? Também não sei. 
Muitas vezes já senti muito medo de que algo pudesse acontecer comigo, de carro ou de ônibus. Seria uma puta sacanagem do destino eu andar de moto toda a minha vida habilitada e sofrer alguma coisa com qualquer outro veículo. Não que eu espere más surpresas com a moto, é claro. Mas tento me preparar contra elas. Que rondam a todo instante enquanto rodo.
Mas vou fazer o quê? Há pessoas que morrem na sala com um caminhão atravessando a parede enquanto assistiam TV. Outras atravessando a rua, atravessando o mar. Não sei o que posso encontrar a cada acelerada ou freada. Não sei se meu fim "é pra ser", um dia, de moto. Ou de bicicleta, ou dormindo. Nem ouso tentar saber.
Nada pode alentar uma família que perdeu alguém. Nada pode fazer alguém não ter o estômago revirado ao ver uma moto, depois de perder alguém querido com este veículo. Mas a gente nunca sabe o fim da linha. Por isso acho que devemos valorizar a travessia. De toda viagem que faço, agradeço poder voltar. Mas se eu não curtir o "durante", não valeu todo esforço pra comprar uma moto. Para ver pessoas, lugares. Para viver. A vida é travessia. Tudo o que podemos fazer é aproveitar a infinita highway, enquanto se pode. Acho que Steve fez isso. E Letice?
Não tenho o poder de consolar ninguém, e nem quero tentar, porque sou péssima nisso. Só sei refletir comigo mesma, ainda que sem chegar a conclusão alguma. Mas com essa mistura de desgraças com moto que tenho ouvido e lido nos últimos dias (na verdade, desde sempre que VIVO de moto), hoje concluí que, se a morte pode estar nas coisas mais estúpidas, a vida pode estar nas mais simples. Não basta?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

sinto-me:
publicado por Daíza Lacerda às 04:46

13.04.12

"E se você pudesse abrir o cadeado da sua vida?". A pergunta veio de supetão. Mas, por força das circunstâncias, e indiretamente, eu já me preparava para ela. Cogitei olhar do lado de lá do portão, mas ultrapassar limites, que não passam de uma cortina de fumaça, é outra história.
Que cadeado? Como assim? Somos tão condicionados à nossa prisão, que sequer nos damos conta de que estamos em uma. Da nossa casa. Do nosso trabalho. Da nossa rotina. Da sociedade como ela nos quer. Como devemos nos adequar socialmente, economicamente, fisicamente. Tudo não passa de jaulas.
Não, não estou amargurada. Mas o choque de realidade, como caldo de galinha, não faz mal a ninguém. E imergi nisso por meio de histórias de gente que nunca vi, senão pelo detalhamento de suas "esquisitices", "loucuras", ou tragédias. Quem me contou foi a Eliane Brum.
Eliane Brum é gente que fala de gente como a gente. Mas que, nem por isso, gente como eu e você consideraria gente. Ela transpõe, com palavras, vida e alma de desconhecidos, daqueles das periferias, dos becos, dos buracos, do rés do chão. Aqueles que não notamos a presença quando passamos numa rua ou na praça, porque estamos preocupados demais em manter as nossas jaulas imaginárias para notar os outros. Ainda mais com o outro desconhecido, e que nada significa para mim.
Mas todo mundo significa algo para alguém. E parece que, em nossas jaulas, não há espaço num vão sequer para esse senso de humanidade. São essas vidas miseráveis que viram poesia, engraçada ou triste, no texto de Eliane. Com ela, eu mergulhei na vida dos outros, para nadar na minha própria.
Domingo, com a segunda-feira já batendo as portas, estava fazendo o que sempre faço: conversando com alguém pela internet enquanto via o que havia de novo no Facebook, do qual já andava reclamando. Cansei, e me dei o desafio de passar os "dias úteis" sem sucumbir àquele ladrão de tempo. As primeiras horas da sexta-feira já chegaram, e mantive firme o propósito. O Twitter também ficou de castigo.
O que eu poderia fazer de melhor em vez de ver correntes, reclamações, campanhas? Bom, além de colocar em dia os episódios de um seriado (calma, um vício de cada vez!), comecei a ler "A vida que ninguém vê", da Eliane, prêmio Jabuti de livro-reportagem em 2007.
Confesso que estou quase obcecada por ela. Eu queria ser como o Ricardo Kotscho quando crescer, mas agora estou em dúvida. O que eu queria mesmo, para o resto da minha vida, era praticar o modus operandi de Eliane. Trazer à tona história de gente desconhecida. Conhecer sobre o que ninguém se interessaria, ou ousaria perguntar. Simplificar. Ouvir. Contar.
Sinceramente, não me interesso pelo sobe-e-desce da bolsa. Tenho pavor do teatro dos vampiros da política (se é que os vampiros merecem uma comparação dessas..). As celebridades já têm gente demais pra cuidar da vida delas. E, no fim das contas, com o que, ou melhor, com quem um leitor, um telespectador se identifica?
As dores, as aflições, as alegrias da vida. Tudo isso tem um significado único para cada um. O que pode ter todas as proporções do mundo. O que é o valor da vida para alguém que está fadado a passar o resto dos dias imóvel num quarto? O que vale tentar lutar não contra uma deficiência física, mas contra o preconceito que impõe a incapacidade para a mais esforçada das pessoas? O que significa ter um trabalho simples, e viver sonhos com ele, mesmo se prostando aos outros como superiores? Pedir esmola, ou não pedir esmola. Precisar de atenção, carecer de uma chance.
A vida é muito mais do que passar o dia atualizando status no Facebook ou executando um trabalho do mesmo jeito, todo dia. A gente não foi programado pra só "dizer sim, sim"... E aceitar o que nos impõe jaula adentro. Mas, como é que se foge disso? Eu quero descobrir.
Por mais que pareça besteira, essa reclusão das redes sociais não chega a ser um passo, mas um leve arrasto numa convicção que falta ser colocada em prática. Nós somos donos do nosso tempo. Inconscientemente, porém, voluntariamente, deixamos que terceiros (quartos, quintos) se apropriem e façam dele não necessariamente o que nós gostaríamos. Enquanto a vontade fica só no "se"...
Eu reconheço que tenho muito tempo livre, e não uso devidamente. E não é de hoje. Já perdi anos à toa. Mas, nesta semana, não. Embora não tenha executado a promessa antiga das caminhadas, me apropriei do meu tempo, optando por ler Eliane. Me infiltrei voluntariamente na vida alheia, para aprender sobre a minha. E, que coisa, isso não acontece quando comentamos sobre a situação do vizinho ou o novo affair da celebridade da vez. Porque Eliane traz das vidas alheias o que realmente importa - e ensina.
Moral da história é que sobrevivi sem face e twitter. O próximo passo é esquecer que e-mail existe aos finais de semana, já no dia a dia o trabalho exige. Também não quer dizer que quero me isolar do mundo, mas pensar mais em mim. Me dedicar ao que posso melhorar e aprender. Mas, pra não cuspir no prato que comi, ou melhor, na página que compartilhei, começo a colocar em prática uma das correntes exaustivamente rodadas do face. "Livros não mudam o mundo. Livros mudam pessoas. Pessoas mudam o mundo".
Mudar o mundo é pretensioso demais. Mas já estou satisfeita. Começo a remanejar as peças do meu próprio mundo, incluindo o cadeado que me prende a muitas coisas, que hei de destrancar. Começo a ver a minha própria vida além das grades. Começo a ver a minha própria vida. É uma grande coisa.

publicado por Daíza Lacerda às 01:38

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