13.02.18

Quando a Folha desistiu, eu já tinha desistido havia algum tempo. "Mas como assim, você é profissional da comunicação e não usa Facebook?". Simples assim. Passados alguns meses, posso afirmar que não me fez falta, obrigada. Nem na vida profissional, muito menos na pessoal. Não deixei de escrever nenhuma matéria necessária ou de encontrar alguma fonte e, no âmbito pessoal, de repente "ganhei" mais tempo para passar os olhos naquilo que realmente me interessava: livros, séries, pessoas. Me dei o direito de escolher o que quero, e não deixar, ou ao menos minimizar o que os algoritmos me entregam de bandeja - ao gosto de quem os programou.

Não sou ingênua. É muito difícil ficar imune aos algoritmos pelo simples fato de que atualmente é quase impossível viver desconectado, infelizmente. Mas a coisa estava chegando num nível sem sentido, que não me acrescentava nada mais além do que a pura descrença na humanidade, considerando "humanidade" aquilo que eu estava programada para ver.

No começo, eu tentava argumentar. Os posts são o nosso olhar sobre o mundo, e esse alto falante chamado rede social matou o limite de qualquer bom senso. Gosto de dialogar, de argumentar. E é claro que todos simpatizam com ideias iguais e têm resistência às contrárias. Mas parece que a "comunidade" está cada dia mais radical, sem espaço para respeito ao ideal alheio. Tudo a ferro e fogo. Cada vez menos debate. Cada vez mais embate. É o que o algoritmo me mostrava. E isso eu dispenso.

Na minha ingenuidade, achava que tinha treinado bem o meu algoritmo. Minha timeline era só notícias de corridas, treinos, alguns colunistas que eu gosto. Não sabia nem o que estava acontecendo com os posts das minhas vizinhas de baia na redação, a não ser quando elas comentavam ali ao vivo, porque minhas preferências pareciam bem definidas a partir de quando eu logava.

Mas, adivinhe?? A vida acontece quando esquecemos da rede social! Dei um tempo quando entrei de férias, e já estou pensando nas próximas férias e sobrevivendo bem sem novos posts no Facebook. Ninguém sentiu minha falta. Nada que tenha pipocado ali me fez falta.

Nas esporádicas vezes que voltei, estranhei as notificações do que familiares estavam fazendo, postando, comentando. Procurei nas ferramentas como desabilitar aquilo como se tivesse começado a mexer em computadores no mês passado, e não há 20 anos, e não encontrei. Ei, péra! É o algoritmo, estúpida! Ele só me dá opções que eu tenho que aceitar goela abaixo. Não, obrigada.

Eu ainda tinha certo apego ao "neste dia", para relembrar coisas legais que passaram, como eu era uma tuiteira irritante, como alguns memes eram realmente criativos a ponto de merecer um compartilhamento... até cair na real que talvez 10% de tudo aquilo me define. E que eu não deveria estar apegada à tela, mas às fotos que deveriam estar impressas em algum álbum físico para eu mostrar para pessoas que me visitam pessoalmente, e não para exibir no perfil esperando curtidas. Os lances que para mim eram mais legais não foram sucesso de curtidas. Por que as coisas não bastam para nós quando agradam a nós? Por que não vale se não agradar aos outros também? Essa necessidade de aprovação constante é humilhante. E fulminante. Autoestima (aquela de ser feliz consigo mesmo sem precisar de exibição para ou aprovação do mundo) mandou um abraço. Mas agente não viu, porque não passou no filtro do algoritmo.

The Walking Dead é uma das séries que não assisto há várias temporadas, assim como House of Cards, que não tive estômago para continuar a última temporada, mesmo antes de estourar o escândalo com o Spacey. Mas vivemos cada vez mais como zumbis, e como massa manipulada por quem manja dos paranauês. Não adianta esbravejar contra o algoritmo se você aceita se submeter a ele. Mas, quem quer, realmente se libertar dele??

Parei de entrar no Facebook, mas sou uma assinante assídua de newsletters de veículos críveis, até que se prove o contrário. Leio tudo? Não. Mas coisas realmente extraordinárias me chamam atenção entre elas, e tenho certeza que o Facebook jamais iria me sugerir, por mais que eu tentasse manipular suas artimanhas. Entre as listas que sigo está a do Flipboard. Porque me interessa muito mais saber do mosaico de 1.800 anos que acharam em Israel do que da última treta do BBB, que provavelmente deve estar circulando na "minha comunidade". Prefiro as escolhas de um editor de verdade. Profissional. Não mecânico.

A "benevolência" do Facebook em nos "aproximar da comunidade" em detrimento dos veículos de notícias com profissionais que passam o dia checando coisas para levar informação de qualidade não é um mal só para os negócios da comunicação. É mais ópio para o povo que está hipnotizado na frente da tela. O problema não é o Facebook. É a dependência do Facebook para o social. O que quer que "social" tenha se tornado hoje em dia.

Me identifico com alguns veículos, e quando quero me informar, vou direto neles. Mas a dependência da rede social limou qualquer "livre arbítrio" de se procurar o que gosta fora da caixinha azul. As pessoas não estão acostumadas a procurar. Estão condicionadas à passividade de pegar carona no que quer que venha na sua timeline. E é realmente preocupante num país que vai sediar eleições presidenciais nas condições que nós vamos ter um povo que não consegue ser independente, pensar sem uma muleta nos apontando para onde ir. Referências são importantes, sim. Desde que não virem dependência.

Fiz uma outra conta de Facebook para acompanhar alguns grupos, seguir algumas páginas e fazer gestão de algumas páginas que nem sei se vou manter. Não adicionei ninguém, por mais que o Facebook insista. O algoritmo, esperto, já identificou familiares pelo mínimo de informações que sou obrigada a colocar para me cadastrar. Cruzamento de contatos de e-mail, telefone sincronizado, localização. Nada passa despercebido. Como diria John Donne, ninguém é uma ilha, e se tem uma empresa que faz questão de nos lembrar, é o Facebook.

Não só ele, é claro. Como todo bom brasileiro que valoriza muito cada centavo suado, pesquiso muito antes de comprar qualquer coisa. Na internet, porque tenho pavor de andança em rua se não for para treino de corrida. E é a deixa para um bombardeio de anúncios em qualquer página que eu esteja. Até eu descobrir a maravilha da navegação anônima (no Chrome ou no Firefox). Que, claro não deve ser 100% anônima, mas pelo menos me poupa de ser ainda mais bombardeada por anúncios.

LIBERDADE AINDA QUE TARDIA

Não larguei o Facebook só por ter ficado de saco cheio com aquele "ambiente". Vi várias entrevistas de pessoas que fizeram um detox da vida conectada e tive a vontade imensa de ser cascuda o suficiente pra fazer o mesmo. Não poderia zerar mas, ao menos, reduzir. Afinal há tanta vida lá fora... por menos que a gente queira reconhecer, a ansiedade de quantos likes a foto deu está lá, a cada cinco minutos que a gente vai ver se teve notificação. Isso NÃO é vida.

Sou entusiasta das redes sociais. Amava o Twitter de paixão, e se tem uma coisa que não largo é o Instagram. Mas só coloco no Insta as fotos das quais realmente me orgulho ou de alguma mensagem útil que eu queira passar. E se quiser colocar 10 fotos seguidas da minha gata, vou colocar, porque gosto de fotografá-la. Gosto de fotografar comida, paisagens. Me refugio nas fotos quando quero limitar o verbo. E o que há de melhor do que imagens que nos deixa sem palavras?? Ok, não sou fodona assim com uma câmera, mas me esforço para coisas decentes. Sempre. Ainda que seja a mais nova pose de alongamento da minha gata. Afinal, isso pode me ensinar muito mais do que saber onde Jojo Toddynho está desfilando (whatahell??).

O ponto é: não sou movida por aquela coisa de TER QUE mostrar o que estou fazendo a todo tempo. Muito esforço para aparências, e pouco para ideias. Levo a vida e, se surge algo legal, coloco. As pessoas podem saber do meu gosto, de algumas ideias, ideais. Não precisam saber da minha vida. Não estou dizendo que esse é o jeito certo, mas que é o meu jeito de usar. Neste carnaval, além dos unidos da Netflix, também estou no bloco da vergonha alheia só pelo que minhas colegas comentaram que viram de barbaridades (de acordo com o nosso critério de decência) "performadas" por gente próxima ou nem tanto. Se essas pessoas preferem se expor, paciência. Uma coisa é certa: fora da tela, não há filtros. Por mais que se sustente uma vida linda num perfil. Esse show de horrores é o tipo de coisa que só me deixa mais satisfeita pela decisão de não estar sujeita a ver essas coisas, de não dar permissão para que enfiem goela abaixo o que não me interessa. Meu tempo e mente agradecem.

Não vou deletar meu perfil do Face. Espiar sem postar, quem nunca? Ou sempre? Ele ainda me serve para determinadas análises, como essa. Ver em qual velocidade o algoritmo aponta para o fim dos tempos no quesito senso crítico. E, quem sabe, ficar lá esperando para um amadurecimento de quem usa essas ferramentas. Cada vez que entro, a cada semana, ou quinzena, ou quando meu chefe me avisa que tem alguma informação na caixinha azul que tenho que checar, não perco mais que dez minutos (o que ainda é muito), como quem fica desconfortável na casa de um parente distante. Aliás, não me interessa o que os parentes estão postando, como o Mark insiste em me mostrar. Quem ele pensa que é para achar que sabe qual é a minha comunidade? Dos parentes, me interessa poder revê-los, não quero saber o que estão repercutindo. Seus gostos prefiro debater na mesa do bar ou do almoço, não no ambiente em que qualquer pitaco pode ganhar ares de lei na leitura dos radicais, seja de qual lado for.

Enfim, eu não me sinto na obrigação de me justificar por ser uma profissional da comunicação que quer se ver longe do Facebook. Mas acho válido explicar minhas razões pelo imenso medo que tenho que os meus sobrinhos, por exemplo, virem zumbis desses tempos. Quero que sejam cidadãos que decidam por si, que não terceirizem seu gosto a empresas manipuladoras. Pelo menos não na totalidade. Não quero que este texto valha curtidas. Quero que valha reflexões principalmente sobre as escolhas que NÃO fazemos. Sempre há quem - ou o quê - faça por nós.

publicado por Daíza Lacerda às 01:59

15.09.17

Eu gosto de setembro porque é o mês que o sol começa a ficar mais um pouquinho, de tarde. Eu gosto de setembro, porque ele começa com o fim do desgosto de agosto, dá sumiço no frio que gela a alma e traz as cores da primavera. Eu gosto de setembro porque é o mês que nasci, é o mês que tiro férias e é o mês da padroeira Nossa Senhora das Dores, o que nos leva à comemoração do aniversário de Limeira.
No meu último treino de corrida, divaguei no que poderia virar um textão sobre o tema da edição especial da Gazeta de Limeira, que fizemos para os 191 anos da cidade que escolhemos ou aceitamos como lar. Abordamos o ensino superior e a forma que ele identifica a nossa cidade - ou não. Foi um esforço conjunto que pode ser conferido nas páginas hoje, mas me pergunto o que, de fato, os moradores de Limeira têm aprendido ou absorvido ao abrigar instâncias que têm o saber e o aprender como motivação.
Minha conclusão imediata foi de que falta muito para sairmos fora da caixa. Não de pensar fora da caixa, mas primeiro sair dela, mesmo. Limeira ainda tem uma mentalidade muito provinciana, talvez ainda não tenha se dado conta do quanto conhecimento tem à disposição. Da mesma forma, as faculdades também ainda não exploram, ao todo, essa possibilidade de conexão com a comunidade. São desenvolvidos trabalhos geniais, que na maioria das vezes não chegam ao conhecimento da própria imprensa, tampouco da população, senão por repórteres insistentes que cavam pautas.
Limeira ainda não é uma cidade genuínamente universitária não só porque tem uma rodoviária vergonhosa ou porque grande parte reluta em se misturar ao conhecimento propagado pelos cantos. Limeira ainda tem muito a avançar porque ainda falta esforço para enxergar à frente, o que é tristemente constatado em comentários de rede social. Ainda que isso não seja pressuposto para formular um diágnóstico, mostra muito de nós, enquanto comunidade.
Limeirenses têm que sair fora da caixinha quando chiam pelo aumento da tarifa de água e esgoto sem entender a estrutura que esse dinheiro vai subsidiar. As pessoas pensam que é só dar descarga para o problema acabar, e é fácil reclamar quando não se viveu um dia da vida sem saneamento decente. Nós temos e não damos valor. Não nos tocamos da complexidade ambiental que isso envolve, desde que a dor não seja no nosso bolso.
Limeirenses têm que correr pra fora da caixinha quando criticam o fim do aluguel caríssimo do Centro de Eventos, um acordo burro que durou até demais e ainda era pago com o meu e o seu dinheiro para abrigar um serviço que já não era oferecido há mais de um ano. Se gasta, o povo reclama. Se deixa de gastar, o povo reclama. Que tal focar as energias em fiscalizar se essa economia será decentemente aplicada?
Limeirenses têm que sair dora da ciaxa quando reclama do trânsito local. Que, sim, é horrível. Mas quem faz o trânsito somos nós! É fácil reclamar sem policiar as próprias atitudes.
Todo ano paramos para refletir a cidade em torno de um tema, em meio ao turbilhão de refleti-la com todos os problemas e soluções, diariamente, dentro do que é possível abraçar com nossas mãos, mentes e blocos de anotações. Não somos donos da verdade - nem queremos. Mas, como sempre repito: a gente gosta é de dar notícia boa.

Hoje é um dia que quero ser otimista, mesmo na falta de grandes expectativas em relação à nossa cidade ou país. E não é porque as minhas férias estão só começando. É porque nesta manhã li a coluna do Denis Russo Burgierman no Nexo (www.nexojornal.com.br/colunistas/2017/Todo-o-potencial-do-mundo), no qual ele se esforça para sair de uma onda de pessimismo em seus textos para um olhar menos apocalíptico sobre o nosso Brasil, tão desmilinguido, como descreve. Ele fala das crianças e de todo o potencial que elas têm, de fazer coisas, de transformar o Brasil em qualquer coisa - desde que as malas de dinheiro, como as do Geddel, sejam dedicadas a nutrir esse potencial. Independentemente disso, elas têm o talento nato da criação de mundos, ao menos até quando esse poder é ceifado pelas limitações que nós, adultos, insistimos em reproduzir. E essa observação é minha, não dele, embora no texto ele reconheça a nossa dificuldade em aprender coisas novas, mudar hábitos, em paredões que simplesmente não existem para as crianças (é a tal da plasticidade que perdemos enquanto nos "desenvolvemos").
Aí juntou esse texto, com a lembrança do filme da Mulher Maravilha, com algo que me ocorreu ontem. No filme, Diana é a criança que deveríamos ser. É uma heroína com o olhar que deveríamos ter. De não achar barbáries comuns e de enxergar as belezas que nos rodeiam, além das mazelas. Fato que me deixou maravilhada (trocadilho irresistível!) com o filme e me inspirou a escrever (http://reportareviver.blogspot.com.br/2017/06/precisamos-da-inocencia-de-diana-uma.html).

Ontem, inicialmente, fiquei um pouco chateada por ter uma cobertura a fazer no fim da tarde, no fim do expediente, nos 45 do segundo tempo antes de sair de férias (que na verdade começam na segunda, e não no feriado municipal de hoje ou folga de amanhã). Mas, como dizem as mães, o que não tem remédio, remediado está. Fui para uma inauguração de praça, no meio de um trânsito caótico, no qual acho que a maioria dos que passaram se deram mais ao trabalho de praguejar do que notar os coqueiros que ornamentavam a praça, na verdade uma rotatória, inacessível a pedestres.
O "tchan" da coisa seria ao escurecer, com a exibição da nova iluminação do local. Mas o sol insistia em ficar. O staff do prefeito estava tenso, na expectativa que tudo funcionasse, que as lâmpadas se acendessem ao esfriar do sol, que a sincronização de discursos, fotos, luzes naturais e artificiais transcorresse conforme o roteiro. Pois a luz das lâmpadas deram as caras, e o sol continuava ali, sem pressa.
Não fosse por isso, talvez eu não tivesse apreciado o por do sol no meu último expediente antes das férias. Mas, mais emblemático do que o espetáculo natural, foi o monumento da praça, registrando a sua construção em 6 de setembro de 1985, um pouco mais de um ano após eu vir ao mundo nesta terrinha. É um monumento que parece um banquinho. Assim eu via, pelo menos, com o meu olhar de criança, quando tudo era possível. Eu cabia sentadinha ali, num igualzinho àquele nos meus anos iniciais, quando as escolas infantis tinham nomes de desenhos, e não de pessoas.
O texto do Denis Russo me provocou a refletir o que aconteceu entre eu caber sentada naquele banquinho entre o fim dos anos 80 e início dos 90 e estar diante dele e do por do sol, à beira dos 33 anos de idade, com um pé na responsabilidade de entregar uma matéria no fechamento e o outro no barril de chopp do início das férias. Concluí que não adianta muito refletir sobre o que eu fiz ou deixei de fazer para melhorar meu mundo e minha cidade. Me senti desafiada a ser criança de novo, e olhar o mundo desapegada das restrições burras que adquirimos por osmose ou por imposição no decorrer da vida. Me senti desafiada a sair fora da caixinha. Agora. Amanhã. Durante as férias. No meu aniversário. Quando terminarem as férias. A cidade e o país que faremos/teremos é fruto de um esforço diário, que muitos de nós insiste em procrastinar.
Quando alguém faz aniversário, a gente automaticamente deseja tudo de bom. Pensamos no todo, no ano, no resto da vida, e nunca no dia de hoje, com o de amanhã e depois. Então eu só desejo que, todo dia, quando o sol se demorar ou se apressar a dar lugar à noite, a gente possa ter certeza de que fez, nas últimas horas, o possível para contribuir positivamente de alguma forma nas mudanças que inevitavelmente virão. Até estar longe, mas bem longe da caixinha que limita as nossas possibilidades.

publicado por Daíza Lacerda às 03:02

08.06.17

Você não vai assistir a um blockbuster esperando sair de lá incomodado, pensando na vida. Pois eu diria que este é o principal super poder da Mulher Maravilha.
Se à nossa cultura parece ridículo ver em algo tão banal quanto um relógio aquilo que dita o que temos que fazer, cômico ter a hierarquia profissional relacionada à escravidão e algo corriqueiro em ver pessoas sofrendo e simplesmente ignorá-las, o problema talvez não seja o roteiro, mas vida real.
Infelizmente, perdemos a inocência que transborda na deusa vinda de um mundo sem terceiras intenções, sem cobiça ao poder, mas à justiça. O que você teria a dizer para referenciar o lugar de onde veio? De onde você vem as pessoas lutam ou se acovardam?
Os questionamentos de Diana parecem cômicos, mas a seriedade com que ela os faz, deveria ser levada a sério. Por mais utópico que seja, não deveria ser normal ver o terror se alastrar na sua frente e simplesmente continuar o seu caminho. O problema do mundo é que as exceções viraram regra. E o olhar de Diana não aceita isso. Nós não deveríamos. Mas, enfim, não nascemos em Temiscira. Nascemos condicionados à passividade (entre tantas outras coisas, boas e ruins), e a maioria de nós assim permanece, à espera do despertar por uma heroína, quem sabe.
Mas, a humanidade... dark side/light side. Todos temos. A explicação mitológica até parece fazer sentido, assim como a justificativa do vilão: os homens fizeram a bagunça, e não Deus. Como dar chance ao lado bom? Ser misericordioso ou não com o lado ruim?
Fiquei pensando que os poderes de Diana seriam muito bem-vindos principalmente às mulheres com TPM. Mas teríamos o senso de justiça da heroína para usá-los? Em que ponto deixamos de ser justos para ser vingativos? Essa linha ainda existe, conseguimos enxergá-la? Qual o sentido de atacar? Recuar é perder?
Ao sair da sala, a frustração não foi de não ter cenas pós-créditos. Foi ter escancarado, por uma ficção, o quanto regredimos ao querer evoluir. Que ao perder a inocência, nossos julgamentos ficaram difusos demais. Aderimos a justificativas que quase nunca fazem sentido. E paramos de questionar. A pancadaria mais dolorosa de Diana são as suas perguntas. Para quem se permitir usar o filtro da sua inocência.

publicado por Daíza Lacerda às 03:00

08.08.16

Se você também foi uma criança que cresceu sob o encanto de obras como "ET - O Extraterrestre", vai me entender. E se também devorou os episódios de Stranger Things na sua rotina moderna e tecnológica, te convido à melancolia da comparação de gerações que não têm comparação. Sim, são os "novos tempos", ganhamos e perdemos. Mas, como conservar mais daquilo que era tão bom e escorre pelos dedos? As brincadeiras de crianças são outras, infelizmente mais dependentes de coisas do que de outras pessoas - esse é o fator mais triste. Os desafios se impõem primeiro a nós, "adultos", antes de indicarmos os caminhos às crianças. Que a verdadeira essência não se perca. Nem em nós, nem nelas.
Artigo de hoje da coluna Releitura, da Gazeta de Limeira, que fica off por um tempo, durante as férias de quem vos escreve.


COLUNA RELEITURA - 08/08/2016

A velha (e a nova) infância

Daíza Lacerda

Na semana que passou, a infância atual e a da "nossa época" foram motivo de considerações aqui na redação. O ponto de partida da discussão foi a série Stranger Things, da Netflix. Ela arremessa nós, "trintões", de volta aos saborosos anos 80 da infância, com filmes de amizades e acontecimentos extraordinários. Inevitável pensar como as produções de hoje valorizam mais os efeitos de computação gráfica do que as boas histórias, tendo no tal CGI uma muleta para arrebatar multidões aos cinemas, exagerando na dose visual e relaxando na emocional.
Apesar de também ter efeitos, a curta primeira temporada de Stranger Things resgatou o senso de companheirismo, a amizade que nasce e se fortalece genuinamente - apesar dos monstros. Os quatro amigos que transitam pela cidadezinha de bicicleta, que têm uma cabana na floresta, parecem remeter a outro mundo, distante algumas décadas que parecem milênios.
Porque parece que faz tempo que vivemos no reino das telas de alta resolução, e não das bicicletas e das reuniões no porão ou quintal, cara a cara, com a imaginação ditando os jogos, como os de tabuleiro, que exigem interação física. Vivemos na era em que o movimento só acontece quando assim dita o mundo virtual, como o Pokémon Go ou Kinect, sensor de videogame que faz o jogador dançar ou praticar algum esporte. Dentro da sala.
A nossa geração, que viveu tempos de jogar queimada ou taco na rua sem se preocupar com o tráfego intenso ou ladrões e sequestradores, cercará seus filhos de todos os cuidados que a tecnologia e segurança poderão proporcionar, na melhor das intenções. Conseguir resgatar o mínimo de liberdade que vivemos lá nos anos 80 demandará não só muita criatividade, mas escolhas que vão interferir diretamente no meio de vida, inclusive profissional.
As crianças saberão inglês antes da adolescência, ensinarão informática aos pais, vão zerar os níveis dos jogos, passar de primeira no vestibular. Mas talvez não saibam o que é ralar o joelho aprendendo a pedalar ou tropeçando no pega-pega, que não dominarão a imensidão de um bairro com a sua turma, mas espaços delimitados, por tempos delimitados, eventualmente. Talvez não consigam ter mais atenção nas pessoas do que nas telas.
Reconheço que sempre fui chegada nos aparatos eletrônicos, mas é muito chato tentar travar uma conversa com quem está mais interessado nas telas do que na gente. E isso tem virado regra entre crianças, sob "exemplo" dos adultos. O início da matéria publicada na sexta, na Gazeta, da repercussão do Pokémon Go em Limeira, reflete exatamente o que aconteceu na busca de depoimentos no parque: entrevistas entrecortadas pelo jogo, ainda que ele fosse o assunto.
De minha parte, fico feliz com a lembrança de, num aniversário, descer ao Centro de ônibus com a minha mãe, escolher meus patins no Palácio dos Brinquedos (que parecia mesmo um palácio!) e passar uma das tardes mais ansiosas da minha infância até que a aula da 2ª série acabasse, para curtir meu brinquedo novo, na rua, com a criançada. Talvez os caçadores do Pokémon jamais saibam o que é isso.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

01.08.16

É sempre mais fácil reclamar dos candidatos do que procurar fiscalizá-los a contento, não é? A urgência de fazermos nossa parte como eleitores (cidadãos!) é assunto do meu artigo. Convido a refletir, de forma séria, sobre a nossa postura como quem elege, e não "lavar as mãos" diante de todas as consequências que colhemos a partir do nosso voto. Por mais clichê que seja, a mudança está, sim, em nossas mãos, e essa responsabilidade não termina na urna, mas começa. Não basta eleger, tem de acompanhar, cobrar, contribuir, participar. Isso depende de uma longa mudança cultural, é verdade. Mas não existe maratona sem o primeiro passo!

COLUNA RELEITURA - 01/08/2016

O eleitor é que precisa evoluir

Daíza Lacerda

Pode não ser nos próximos quatro anos. Nem mesmo neste milênio. Mas a postura do eleitor precisa mudar tanto quanto a batida fórmula dos candidatos. Cobramos sangue e ideias novos, mas nós mesmos não evoluímos o nosso "relacionamento" com políticos e com a política. O esquecimento em quem votou em eleições passadas é uma das evidências mais graves.
É fato que nunca tantas pessoas serão cumprimentadas em inícios e meios de mandato como serão nos próximos meses. Já se ouve por aí que "vai começar" aquilo tudo que a gente já conhece na rotina pré-eleições, seguida de um revirar de olhos. Boa parte não consegue esconder o desânimo, já esperando mais do mesmo: discursos, promessas, quintais e ruas imundos com santinhos e a encheção de saco dos carros de som.
Sei que a descrença nas instituições é considerável, e não sem motivo. Só não dá para ignorar que as instituições são reflexos das nossas escolhas e, principalmente, dos nossos desleixos. Milhares elegem um vereador ou deputado, mas quantos acompanham sua conduta durante o mandato? Verbalizar em rede social é fácil, mas quem vai no gabinete para cobrar posição e atuação condizentes? Daí, chega esta época, emerge o circo do desespero como o retratado na última sexta nesta Gazeta, em matéria da jornalista Érica Samara, sobre a quantidade de proposituras arquivadas por serem ilegais. Parte das dezenas de pessoas que são pagas com o nosso dinheiro para legislar e fiscalizar, sequer sabe uma coisa ou pratica outra. Isso só para ficar no âmbito municipal.
Quero acreditar que nossos critérios como eleitores é que serão responsáveis por elevar o nível principalmente de comprometimento de candidatos, ainda que eu não esteja viva para usufruir disso. Afinal, dependerá de uma profunda mudança de cultura que, felizmente, começou, ainda que tímida perto da revolução que necessitamos. Antes tarde do que mais tarde.
Já passou da hora, por exemplo, de acabar com os votos de protesto, elegendo figuras cujos perfis são evidentemente inaptos para qualquer cargo eletivo. Já passou da hora de torcer o nariz para horário político, e tentar avaliar as propostas - para avaliá-las e cobrá-las no futuro, se for o caso. No mínimo, vai garantir risadas, o que é quase inevitável na campanha televisiva.
Estamos mais céticos, mas muitos ainda se rendem à ingenuidade perante a imagem. Passou da hora de se deixar levar pela trilha sonora envolvente, pelo sorriso falso nas fotos, pelos terninhos e camisas, pelo excesso de base facial ou de Photoshop mesmo e ir direto ao que interessa. Não basta saber quais são as propostas, mas a viabilidade, como serão executadas, se são possíveis ou palavras ao vento. Estamos condicionados às promessas vagas. E na hora do vamos ver, a velha justificativa da falta de verba, de entraves jurídicos.
Nós também temos de ser realistas o suficiente para saber o que é e o que não é possível dentro das fórmulas que nos serão vendidas. Não dá para tolerar ingerência e má vontade, mas também não dá para esperar milagres. Para isso, é preciso se envolver, se interessar o mínimo para entender as engrenagens que fazem uma cidade evoluir ou não. Nada menos do que exercer a cidadania.

 

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

18.07.16

COLUNA RELEITURA - 18/07/2016

O valor da memória

Daíza Lacerda

Não sei você, mas eu paro para flores, animais e histórias. Numa época tão fugaz como a nossa, vejo até como um alívio a possibilidade de se transportar para outros tempos, principalmente os que não vivi. Quando encontram um velhinho bom de papo, a pauta inevitavelmente é direcionada a mim, com os editores já esperando algum "livro" como fruto de conversas com o privilégio de não serem apressadas.
Mas, a cada dia que passa, é mais difícil se aprofundar, ou encontrar alguém lúcido o bastante e disposto a contar. Assim, temos um acervo infinito escondido em mentes, com a triste possibilidade de que não saiam dali.
Por isso, foi emocionante descobrir o testemunho do limeirense Orlando Forster como ex-combatente da Revolução de 32, cujas passagens reproduzi em matéria dedicada ao fato histórico em 9 de julho. Lembro de ter entrevistado o seu Ulisses, último sobrevivente, com a idade já bem avançada, e alguns lampejos da participação no embate. Imagino o que poderia ter ouvido se tivesse a oportunidade de ter chegado antes.
Faço tal colocação porque vejo que muitas pessoas, tomadas pela sua rotina, acabam não aproveitando o baú de sabedoria que têm acesso: seus pais, tios, avós, bisavós. Não importa a instrução, mas sim o que viveram e podem contar. Mas estamos sempre tão ocupados para ouvir...
Na semana em que minha avó paterna fez a sua passagem para outro plano, foi inevitável creditar a ela o meu apego às histórias. Primeiro nossas, depois a dos outros. Inevitável a reflexão sobre o que pude absorver de sua vivência, de tempos agora perdidos pelo elo mais antigo que eu tinha com o passado, e que se foi.
Infelizmente, as consequências da negligência com a memória talvez sejam percebidas tarde demais. É algo que já nos damos conta hoje, mas não sabemos qual será o impacto no futuro. Não sabemos mensurar o tamanho da história oculta em objetos ou recordações, talvez por não termos essa cultura, como em outros países. Aqui, as pessoas tendem a se livrar das velharias.
Nosso patrimônio histórico é (mau) exemplo. Infelizmente, parte é herdada por pessoas que não têm interesse em preservá-la. E quem tem, não tem meios, na maioria das vezes. Assim, fragmentos da nossa história viram entulho. É uma transformação tão dinâmica, que a Limeira que minha avó viveu está na memória. O que a Limeira que eu vivo representará aos meus descendentes daqui algumas décadas? Nós registramos essa história todos os dias, mas não temos ideia do tom que este livro do cotidiano vai ter, lá na frente.
Até hoje ganho broncas pelo espaço consumido com o meu apego a papéis, arquivos. Ainda tenho a esperança de que, o que hoje não passa de "lixo", um dia seja o tesouro de alguém que não testemunha esses tempos. Assim como, eventualmente, tenho a oportunidade de acessar tesouros de quem teve o cuidado de preservar qualquer indício do passado.
A sensação é sempre de que o tempo passa cada vez mais rápido. Mas, na ânsia de avançar, não sabemos o quanto perdemos em não olhar para trás.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

11.07.16

COLUNA RELEITURA - 11/07/2016

 

Quando o absurdo é a regra

 

Daíza Lacerda

 

Sim, vai ter Olimpíada! Sou super a favor da realização dos Jogos no Brasil e faço campanha para que as pessoas se desprendam dos ranços políticos e aproveitem a oportunidade de ter por perto um evento histórico.
Mas... por mais chances que a gente dê, alguns agentes públicos conseguem contrariar leis como a da lógica. Temo quando irão dominar até a da gravidade, diante de feitos que julgaríamos impossíveis, mas eles realizam.
O choque é devido à foto do poste na ciclovia do Parque Olímpico no Rio de Janeiro, literalmente um retrato do descaso à mobilidade e ao esporte, na cidade que se ostenta como "academia natural". Como se não bastasse a queda de um trecho de ciclovia, inclusive com vítima fatal.
Parece cômico, mas é trágico. Assim fica difícil acreditar que há seriedade no trato da coisa pública, até mesmo defender um evento tão tradicional com ameaças de ser manchado pela também tradicional falta de gestão eficiente dos recursos. O pedido de socorro ao governo federal evidencia a vergonhosa falta de planejamento da cidade e Estado do Rio. Mas estamos num país que é mais difícil assumir as limitações do que reconhecer quando não dá. Como já ouvi muito, "não guenta, não tenta". Mas, também, como se diz, brasileiro não desiste nunca.
Só que a vocação de remar contra a maré se espalha de forma espantosa, como em exemplo de outra esfera. Só a intenção de aceitar um simpatizante da ditadura militar para chefiar a Funai já seria uma ofensa. Mas a cereja do bolo é a indicação partir de um partido "cristão", dentro de uma barganha de cargos previamente acertada. Partido este que não considera tal posicionamento um constrangimento, aludindo à "democracia" de cada um defender o que quer. Resumo da ópera em reportagem da Folha: http://bit.ly/29lHt9W. Não sei se estou equivocada ou o partido, nem se estamos tratando do mesmo fato, aquela mancha na história brasileira que até hoje oculta corpos, razões e sabe-se lá mais o quê, em nome de qualquer coisa, menos da democracia. A nomeação foi barrada graças à intervenção do Ministério da Justiça, mas só depois depois de muita repercussão.
É triste ainda precisar garantir justiça "no grito", e ter de demandar mais energia em coisas que deveriam nos tranquilizar (ter uma ciclovia) e não nos preocupar (como um poste no meio dela).
Drummond, que jaz em bronze lá em Copacabana (também vítima com os inúmeros furtos dos seus óculos), sabia de nada, inocente. Pedra é para os fracos. No meio do caminho tinha um poste. Na paciência tão fatigada do brasileiro, vai à prova qual dos acontecimentos nunca serão esquecidos: os Jogos ou as falhas.

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

04.07.16

O artigo desta semana é sobre o professor Fumaça, e a nova fase que testemunha daquela que foi a sua casa por quase 50 anos, a pista do Tiro de Guerra. Neste texto peço licença para misturar a jornalista e corredora amadora, dividindo um fragmento do filme que passou na minha cabeça ao fazer parte daquele espaço e ter acompanhado tão de perto a transformação pela qual passou. No mais, fica a minha admiração ao professor e o agradecimento por mais uma lição: o amor incondicional ao que se tem como missão de vida, ainda que isso exija o desapego.

 

COLUNA RELEITURA - 04/07/2016

 

Ao mestre, com carinho

 

Daíza Lacerda

 

Foi ao ver a foto postada na rede social que me mei dei conta da relação de causa e efeito entre o exercício da profissão e o gosto pessoal pela corrida que me tomou há alguns anos. No álbum da inauguração do piscinão na fan page da ALA, o atleta Hiei Germano registrou minha entrevista com um Fumaça emocionado ao voltar ao local no qual se dedicou por quase meio século ao atletismo.
Lembrei que era uma sedentária quando entrevistei o Fumaça pela primeira vez. À época, a pauta era uma das edições da corrida Ainda. A matéria teve também depoimentos de deficientes que arrasavam (e ainda arrasam) nas pistas, o que me deixava mais envergonhada de não ter coragem de me mexer. Isso mudaria tempo depois, quando pisei pela primeira vez na pista do Tiro de Guerra, com um par de tênis velho e um par de canelas muito finas e fracas.
Ainda não fazia ideia da vasta formação que a pista havia proporcionado. Histórias de gente que passou a juventude ou infância trotando ou acelerando ali pipocaram quando a pista seria fechada para obras do piscinão. As máquinas escavadeiras chegaram antes do esperado, e foi de cortar o coração ver o professor deixar aquele que era o seu lar. Na verdade, era como um lar a todos que habitavam, inclusive eu que, à epoca, mal havia aderido à equipe. Tudo tinha significado, desde o pomar nos quais as galinhas descansavam à escadaria, gramado, e falhas na pista que todos conheciam de cor. Era impossível não se sentir em casa com tanta hospitalidade.
Fiquei surpresa ao constatar o quanto Fumaça havia acostumado ao "novo lar", na área ao lado da Câmara Municipal - que também foi um parto para ser viabilizada. Era um desapego que não esperava dele, mas que se mostrou tão importante quanto se apropriar dos locais públicos de forma sadia.
A pista disponível hoje não é mais a mesma, e precisará de adequações. Assim como a área do Piratininga, que foi totalmente transformada pela ALA à época, quando se encontrava fechada e abandonada. Se o piscinão promete iniciar um novo capítulo na drenagem, talvez a transformação que está por vir na então tradicional pista também seja uma oportunidade para renovar e alavancar o atletismo em Limeira.
O professor estava indeciso. Disse que ficaria na pista a qual fosse designado, sem sinais de querer se aposentar. Quem já presenciou seus treinos morro acima na tutela de jovens pangarés como eu e muitos outros, sabe que não largará o osso até que lhe faltem forças. Problemas de saúde o tiraram das competições por um tempo. Paciente, esperou e voltou nos Jogos Regionais do Idoso (Jori) deste ano, garantindo medalha.
A saga do piscinão, nos dois anos entre a primeira escavada e a inauguração, pode até ter parecido um dia como uma eternidade, mas imagino como deve ter sido presenciar, de fato, o pulo de gerações à maneira que Fumaça testemunhou. O tempo entre a construção e reconstrução teria passado na velocidade de um tiro dos 300 metros que a pista tinha? O peso, velocidade e valor dos anos está além do que a nossa geração pode mensurar. Mas, como um patrimônio vivo, Fumaça sobrevive ao tempo de olhar para o novo, com a sabedoria do veterano.

 

publicado por Daíza Lacerda às 08:30

27.06.16

E como é que faz para entrevistar um ídolo segurando a tietagem? Meu nervosismo foi embora nas primeiras trocas de ideias na entrevista com a Ariane Monticeli, fera do triathlon de longa distância (pra quem perdeu, matéria na íntegra em http://bit.ly/28Y5Go2). Desliguei o telefone e lembrei daquele longínquo e inusitado encontro com o Neymar, e da distância estratosférica de tratamento de ambos os campeões. A vida de nenhum atleta é fácil, mas não é raro enchermos demais a bola (principalmente a bola!) de quem tá mais preocupado com holofote do que com resultado. Mais em ostentar grifes do que fazer bonito pela própria Nação. Vamos olhar mais pra quem está ralando de verdade. Se as Olimpíadas não forem uma oportunidade pra isso, só Deus sabe quando seremos capazes de reconhecer os esforços genuínos de tantos anônimos que treinam além de seus limites.

COLUNA RELEITURA - 27/06/2016

Gente como a gente

Daíza Lacerda

Em meados de 2014, era início da noite de domingo quando eu e famíliares saímos da Bolsa do Café, em Santos, antes de seguir de volta para o interior. Nas calçadas já escuras da região histórica da cidade litorânea, uma movimentação nos chamou atenção. Era ninguém menos que o jogador Neymar, desembarcando de um carro importado que não faço ideia de qual seja, com seu filho no colo e um outro acompanhante, e um grupo considerável de fãs atrás. Parou para meia dúzia de fotos, antes de sair correndo na noite que já se instalara. Isso foi depois daquela lesão que teve em campo, em plena Copa do Mundo, no Brasil. Na noite e num local cujas opções próximas eram barzinhos, a celebridade na qual uma Nação inteira depositara as esperanças da taça parecia muito bem, obrigada.
Me lembrei dessa passagem no final da última semana, ao entrevistar a Ariane Monticeli, que viria a Limeira para palestra e treino, trazida pelo nadador limeirense Diego Prado. Craque no que faz, ela seria uma versão feminina do Neymar no triathlon que, como tantos outros esportes, está longe dos holofotes monopolizados pelo futebol, exceto pelas coberturas especializadas naquela modalidade ou campeonatos muito, muito específicos.
No contato com ambos, Neymar parecia um rei. Ariane, parecia minha vizinha. Conversou comigo como me conhecesse há tempos e não poupou detalhes de sua árdua trajetória na busca da vaga do mundial de Ironman. Mas, como a fama a precede, não esperava algo diferente daquela que divide a rotina com seguidores, na alegria e na dureza de trazer de volta ao Brasil aqueles feitos até hoje conquistados pela lenda Fernanda Keller, como os títulos nacionais e boas posições internacionais.
Mais uma vez, nos limites da lauda não couberam a paixão dessa mulher pelo que faz, e o quanto está disposta à luta. Conversamos num momento em que ela parecia especialmente esgotada, e se preparando para quatro semanas de treino a serem cumpridas em três. Limite da força e disciplina na alimentação fazem parte da rotina da gaúcha radicada na capital paulista que adora doces e lida com o trânsito para conseguir treinar. Ela diz que é uma pessoa normal, cumpre expediente na firma (o Esporte Clube Pinheiros), programa férias. Só que não consegue dizer não para as selfies e questionários intermináveis dos admiradores, em sabatina que prolonga as suas palestras, nas quais não poupa detalhes de sua vida de mulher de ferro.
As posturas desses atletas expõem mais do que parece, pois falta muito valor onde realmente precisa. Tem muita gente investindo suor e força imensuráveis em trabalhos que são pouco ou nada reconhecidos. Exemplo são os atletas paralímpicos, cujo desdém veio do próprio Comitê Olímpico na divulgação e venda dos ingressos das disputas olímpicas dos deficientes. Esses atletas, justamente por chegarem ali, se mostram muito mais eficientes que muita gente com corpo e mente íntegros.
Outro furo é a recente estreia do filme Paratodos, cujo elenco são atletas paralimpicos e as suas jornadas rumo ao pódio. Alguém viu em cartaz em algum cinema aqui do interior? Nem eu.
Mais do que lamentações, que fiquem os exemplos. Embora extraordinários, atletas são gente como a gente. A postura de cada um - e a nossa diante deles - pode ensinar muito.

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publicado por Daíza Lacerda às 08:30

20.06.16

Meu artigo de hoje traz o lado B da ‪‎reportagem‬, aquilo que nem sempre cabe na tal da objetividade ‪‎jornalística‬. A satisfação sincera, aquela alegria genuína incontida, são manifestações que podem passar ao largo dos limites da lauda, mas é impossível sair imune a demonstrações como essas. Betinho dá a cara a um trabalho que é de equipe, mas para ele é muito mais. É uma ‪‎missão‬ de vida. Dedicada a outras vidas vulneráveis. O ‎inverno‬ quer se fazer de difícil. Vamos ver se ele é páreo para o riso do Betinho.

 

COLUNA RELEITURA - 20/06/2016

O riso do Betinho

Daíza Lacerda

Não era exagero: ele parecia querer soltar fogos de artifício para comemorar. Não se continha de alegria diante das dezenas de camas arrumadinhas, coloridas, à espera de alguém para aquecer. Era a materialização de um ideal pelo qual trabalhava muito antes de entrar no serviço público. Reluzia a alegria de Albert Neves, o Betinho. Coordenador de abordagem social por profissão. Acolhedor de moradores de rua por vocação.
A sensibilidade aflorada nesta época de tanto frio é constante na vida de Betinho, que é facilmente visto percorrendo a cidade numa Kombi branca da prefeitura, levando e trazendo pessoas com as mais variadas carências: de comida, de estrutura familiar, de um lar. Faltas que a assistência social tenta suprir em serviços como o do Centro Pop, mas que dependem também do comprometimento e colaboração da própria pessoa.
Foi em meados de 2011 que conheci a missão Anjos da Noite, da Comunidade São Judas Tadeu, da Paróquia Santa Isabel. Uma equipe passava a noite percorrendo as ruas para dar o que comer e onde dormir a quem aceitasse. Lá, conheci Betinho, outros fundadores e voluntários, e um mundo de histórias que não poderia ser contado numa única matéria, mas rendeu uma série delas. Qual não foi minha surpresa em vê-lo em ação no Ceprosom, prestando no serviço público municipal aquilo que já adotara como missão de vida.
É fato que a burocaria sufoca os serviços. Mas há áreas que simplesmente perdem a razão de ser, caso não sejam movidas por quem se identifica com elas. Na assistência social, o acerto é reconhecido de longe quando o trabalho é feito por quem tem o dom. Não é qualquer um que sabe abordar, ouvir, orientar. Essa é uma carência gritante, por exemplo, em alguns setores da saúde pública (e até particular), nos quais as pessoas já chegam fragilizadas, e muitas vezes recebem atendimento com desdém, para dizer o mínimo. Isso quando um mero sorriso pode fazer toda a diferença.
Numa semana em que dezenas foram mortos num vergonhoso ataque homofóbico e que uma deputada é assassinada a tiros e facadas, tudo no "primeiro mundo", é de se perguntar aonde o mundo vai parar se nem os países mais desenvolvidos estão imunes à barbárie. Porém, são singelos os sinais de que, apesar de tudo, ainda não é hora de perder a fé na humanidade. Felizmente, temos escondidinhos por aí raios de sol que só se mostram na hora certa, e a quem precisa. Sem alarde, mas com eficácia.
A partir da noite de hoje, os apetrechos precários, cinzentos, de quem tem a rua como casa, serão substituídos por cobertores, edredons de todas as cores. Na baixada do Centro, tão mal referenciada como o ponto da miséria e das inúmeras vulnerabilidades possíveis, mãos, mentes, corações e ideais de equipes tornaram real o verdadeiro hotel 5 estrelas de quem só tem as marquises como teto. Na baixada do Centro, no leva-e-traz cidade afora, o riso do Betinho é o calor dos corações anônimos acolhidos no meio na noite fria.

 

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publicado por Daíza Lacerda às 08:30

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