Daíza Lacerda*
Balançando ao som e ao ritmo do vento, estava envolto em vagos pensamentos na varanda, na centenária cadeira de balançar.
Fitando a linha do horizonte, que aparentemente nada me dizia, mas muito me mostrava, uma lembrança me tomou, de súbito. Levantei-me e dirigi-me casa adentro, descendo as velhas escadarias do fim corredor que rangiam e soltavam bafos de pó com a minha passagem. Mais alguns degraus e uma porta adiante, e lá estava.
Cuidadosamente preservado pela família por anos, o velho baú de bronze parecia irredutível às mazelas do tempo; mas nada do que guarda foi poupado. Dele retirei um álbum com algumas fotografias e voltei para a varanda na esperança de relembrar algo útil, já que não tinha outras opções no marasmo do tempo. E agora, a linha do horizonte é que me encarava.
Aquela primeira foto foi orgulhosamente exibida por mamãe. E muito exibida.
– Já era um menino-diabo desde estes tempos, não?
– Que mal há, oras?! Apenas uma criança na escola, que tem demais? – Retruquei ao garoto da foto, que petulantemente me chamava atenção.
– Tem demais que mamãe se gabava de pelo menos estar na escola para compensar todas as confusões das travessuras.
– Qual garoto não apronta? – perguntei, e sem esperar resposta avancei a página.
Difícil era moleque nascido na roça ir parar na escola. Quando a professorinha veio morar nas bandas da fazenda, quis porque quis alfabetizar a gurizada. Mamãe mais que depressa acatou a idéia e meteu-me a todo custo na cabana improvisada e quente como o inferno na seca braba, o que chamavam sala de aula. Fiz a vontade da mãe, o que não mudou o meu temperamento danado: nas horas-aula confinado, queria é caçar pomba ou roubar as laranjas do pé do vizinho, que pareciam mais saborosas do que as nossas.
Na próxima foto eu estava mais moço, mas com a mesma cara marota.
– Aqui já havia aprendido um bocado, não? – Perguntei-me, ilustrando a foto.
– Os calos que esconde aí já respondem, moleque!
– Que moleque! Moleque há de ter calos? Sou é moço, não vê?
– Tem calos sim, mas nada sabe ainda.
Gostava daquela foto, onde eu era eu mesmo, pé descalço no chão de terra e os pomares adiante, contrastando o clarão do céu de dia ensolarado, com meus calos. Calos leves, que se acentuaram após a morte de papai. Virei a página.
As próximas fotos, com sorriso “maquiado”, me eram mais duras que a enxada e o solo que esta se espatifava contra. Era a dureza do asfalto.
Quando a lavoura já não trazia renda suficiente, mamãe me mandou para a cidade. Era um rapagão, mas bicho do mato que não queria deixar nem a terra e nem a mãe aos cuidados de outros. Mas fui.
Perambulei que nem boi tonto entre os automóveis, ônibus, arranha-céus e apressados transeuntes. Tudo o que consegui foi ser peão numa obra aqui, outra acolá, mas garantindo um dinheirinho para sobrevivência minha e de mamãe, que adoecia.
Antes que eu me fizesse qualquer comentário infeliz, como nas fotos anteriores, passei para a próxima, possivelmente a mais significativa: eu e mamãe.
Já tinha meus fios brancos na cabeça, e mamãe encobria os dela com o usual e surrado lenço. Estava à beira da morte, mas nem em seu fim me convenceu a voltar para a cidade, e muito menos à escola para me garantir sem ela.
Pode-se replantar ou enxertar. Raízes não se perdem. Estou fincado aqui para a eternidade.
Nada do que o velho baú de bronze guarda foi poupado, a não ser as recordações de um vai-e-vem sem nunca sair do lugar, de fato.
Com o álbum fechado, volto-me ao horizonte, que não me olha mais. Baixo meu olhar ao nosso jazigo, bem aqui em nossa terra, onde mamãe cuida das flores e me chama para voltar à sua companhia.
*Conto classificado para a fase regional do Mapa Cultural Paulista 2007
Resenha do livro “Por Quem os Sinos Dobram”, de Ernest Hemingway, com tradução de Monteiro Lobato. 12° Edição, Companhia Editora Nacional, 1972, São Paulo-SP
Daíza Lacerda
A tênue linha que separa o amor e o ódio, a lealdade e a traição, o heroísmo e a covardia, a fé e a descrença... a vida e a morte. Escrito por Ernest Hemingway e publicado em 1940 em homenagem aos seus amigos republicanos vencidos pelos nacionalistas na Guerra Civil da Espanha (1936-1939), “Por Quem os Sinos Dobram” expõe os limites humanos nus e crus.
Robert Jordan, um idealista americano, engaja-se na Brigada Internacional apoiando os republicanos na Guerra Civil Espanhola. Em missão para o Serviço de Inteligência Militar (S.I.M.), Jordan é designado para explodir uma ponte em uma ofensiva.
Anselmo, seu guia, leva-o até o grupo de guerrilheiros - ou partizans - que o deverá ajudar na empreitada, onde conhece Pablo (líder até então) e Pilar, sua “bárbara”, enérgica e sábia mulher. Encontra ainda Fernando, homem burocrático de tão sério, os irmãos Eládio e Andrés, o cigano Rafael (não tão responsável como os outros) e Maria, a rapariga por quem viria a se apaixonar e conhecer o amor, sentimento que o leva a fazer questionamentos àquele ataque e a ver a guerra e aventura humana com outros olhos.
Pilar, no relato de suas recordações, mostra a intensidade do amor dos tempos da tourada, ao lado do toureiro Finito. Com suas palavras também nos leva, fatalmente, ao âmago da revolta que gerou ódio e violência no início da guerra: terror e crueldade na execução de civis e o hediondo episódio da “malhação” de manguais sofridos pelos fascistas. Esta matança coletiva presidida por Pablo e executada por camponeses ébrios de vinho não poupou nem mesmo um padre, o que acabou perturbando Pablo fazendo-o, mais tarde, abrandar suas atitudes na guerra (ou se acovardar, no julgamento de Pilar).
A crueldade ilimitada trouxe consigo a descrença, como mostra o questionamento de Jordan: “– Então, você não tem mais Deus?”, onde o leal Anselmo responde: “– Não, homem. Certo que não. Se houvesse Deus, Ele nunca permitiria o que tenho visto com meus olhos.” (p. 37).
Em seus monólogos, Jordan travava uma guerra consigo mesmo, pois mesmo com os objetivos claros, inquietou-se devido às circunstâncias: "Que caso! Você caminha a vida inteira com uma idéia, certo de que significa alguma coisa e acaba convencendo-se de que não significa absolutamente nada. Esta porcaria de agora!” (p. 151-2). Ocorrências estas como o amor de Maria, a petulância e traição de Pablo e a ameaça do ataque da cavalaria fascista que dizima o bando do aliado El Sordo.
Erradicados os anseios e dúvidas, a ponte finalmente é explodida. Arremessados os estilhaços e baixada a poeira, conta-se os mortos: para a dor de Jordan, Anselmo, seguido de Eládio e um Fernando agonizante. Mas, durante a fuga, uma montanha espera Robert Jordan com o fim da linha dos extremos. E os sinos dobram por ele, assim como dobram por ti.
O trabalho sobre duas rodas começa a abrir espaço para o público feminino
Texto e infográficos: Daíza Lacerda
A saga diária dos motoboys é conhecida pela corrida contra o tempo e pelos constantes perigos no trânsito. Mas o trabalho sobre duas rodas, antes dominado pelos homens, começa a abrir espaço para o público feminino.
O número de mulheres pilotando motocicletas é crescente: em concessionárias de Limeira, o índice de vendas varia de 15% a 30%, dependendo da loja. Eduardo Panciero, gerente da Intermotos Sundown, diz que geralmente as motonetas são o carro-chefe das vendas, que chegam a 65% para elas. No caso das 125 cilindradas, aproximadamente 40% são compradas por mulheres. "Acredito que destas, 40% sejam destinadas ao trabalho", completa Panciero.
Com vendas para mulheres estimadas em 20%, Ademar José Custódio Junior, gerente da Official Suzuki, ressalta que o crescimento das vendas para o público feminino é constante: "Para elas, as vendas sobem média de 5% ao mês".
De acordo com o Ciretran, havia mais de 25 mil motos em Limeira até o final do ano passado, mas o departamento não tem dados atualizados sobre a frota, e nem estatística de habilitados. "Estimamos que do total de mulheres que tiram carta, 40% se habilitam em carro e moto, enquanto com os homens este índice é de 70%", informa o instrutor Fernando Moreira.
Em 1993, quando se habilitou para dirigir carros, Rosângela Gomes Delfino, 38, tinha pavor de moto. Hoje, a realidade é outra. Trabalhando como motogirl há três anos, Rosângela teve de se adaptar ao veículo: "Por necessidade, aprendi a gostar de moto. Hoje já não vivo sem ela!"
Fazendo entrega de alimentos durante o dia e à noite, a motogirl roda diariamente cerca de
"Gosto muito de dirigir, amo o que faço. Apenas juntei o útil ao agradável!", declara Eliane Cristine da Silva, 27, que começou a trabalhar com moto há seis anos fazendo "bicos" de cobrança de telemensagens e entrega de revistas. Há três anos, ela trabalha em uma concessionária fazendo entrega de peças em Limeira e região. A motogirl fala também das desvantagens do trabalho: "Por causa dos mais abusados, os outros generalizam e acabamos sofrendo as conseqüências".
Motogirl há um ano e meio, influenciada pelo irmão que trabalhava com moto, Jaqueline Cristiane Herrero, 21, roda
Roseli Alves, 31, começou a trabalhar de moto há um ano. Fazendo entrega para fábrica de jóias, farmácias, gráficas e serviços de moto-táxi, roda
Instrutora de motos há 15 anos, Cristiane Aparecida Amador dos Santos, 34, diz que é cada vez maior o número de mulheres que se habilitam em moto, e que muitos candidatos preferem uma mulher ensinando: "Os candidatos me respeitam muito, mas a maior procura é pelas meninas, que se sentem mais seguras quando o instrutor é mulher". Em Limeira há dez instrutoras, sete delas de moto.
Assaltos e acidentes no caminho
"Só depois de ver o revólver na minha cara é que entreguei o malote", conta a motogirl Eliane Cristine da Silva. Ela tentou fugir de dois motoqueiros que a seguiram quando fazia um saque para a empresa, e aconselha: "Não façam isso de maneira alguma!". O assalto aconteceu há dois anos, em Limeira, e desde então não faz mais esse tipo de serviço e ainda é traumatizada com moto que acelera muito perto.
Como transportam desde refeições até documentos e dinheiro, as motogirls enfrentam risco de roubo freqüente. Além disso, presenciam "às vezes, como vítimas" muitos acidentes. Jaqueline fala do choque que foi ver um motoqueiro com fratura exposta: "Ele estava na minha frente, e cruzaram a sua preferencial. Ajudei a socorrer e fui testemunha a seu favor". "Um infeliz cortou a minha frente, e bati de lado no carro. Ainda me equilibrei e não deixei a moto cair, mas trinquei o dedão e o dedinho do pé!", diz Eliane.
Excesso de velocidade, desatenção e até animais complicam ainda mais o trânsito. Roseli conta o caso de um amigo moto-taxista que foi desviar de um cachorro num cruzamento. Nem ele e nem o carro que vinha parou e o resultado foi vários ossos da perna quebrados.
Luxação no pé e sete dias "de molho" foi o saldo de uma colisão sofrida por Rosângela: "Sem tempo de frear, bati na porta de uma caminhonete que saiu com tudo de uma garagem". Detalhe agravante: tinha chovido e o chão estava liso, afinal, a chuva também é inimiga do motociclista. "É muito incômodo e perigoso dirigir na chuva, tem que redobrar a atenção", diz Cristiane.
Muita calma nessa hora!
Muitos candidatos a motociclistas adquirem moto e começam a dirigir antes de ter a habilitação
E esta não é uma obrigação só de quem dirige moto. As motogirls são unânimes nas reclamações contra veículos grandes que "só faltam passar por cima", muitas vezes sem sinalizar.
Mas, muita calma nessa hora - tanto para os motoqueiros quanto para os motoristas em geral: Eliane conta que já foi perseguida por um carro por ter buzinado e xingado quando este "embicou" em sua preferencial. "Depois daquele dia eu penso muito antes de fazer alguma coisa, pois eu poderia ter tido um grande problema", declara.
Nos cruzamentos, o perigo não é só os veículos. A atenção e cooperação dos pedestres também é fundamental para evitar acidentes. "Pessoas de qualquer idade, senhores, mães com crianças não param no sinal e entram na frente. Nós é que temos que parar, porque além de tudo levamos multa por qualquer coisa e eles não", lembra Roseli.
Outro problema é o fato de as motos de baixa cilindrada - como as 125cc ou 150cc, geralmente as mais usadas para trabalho - serem as mais visadas para roubo. Das motogirls entrevistadas, apenas uma tem moto no seguro graças a uma parceria da concessionária com uma empresa do setor que propôs um valor considerado acessível. Do contrário, o valor do seguro pode se igualar ao da moto, e ainda assim a maioria das seguradoras só trabalha com veículos acima de 250cc.
Afinal, por que moto?
O que se percebe nas ruas de Limeira é que um número cada vez maior de mulheres opta pela moto como meio de transporte. Apesar disso, Cristiane diz que "na maioria das vezes, os pais não apóiam as mulheres a tirarem carteira de motocicleta e isso influencia muito no aprendizado delas". No trabalho, algumas alegam que o preconceito existe, mas a admiração é maior. "Ás vezes acabamos cometendo infrações, e sempre tem um na rua que manda ir pilotar fogão, mas onde trabalho sou respeitada e admirada. Conquistei o meu espaço", diz Rosângela. Eliane concorda: "Financeiramente gostaria de ter um maior reconhecimento, mas se sinto admirada, pois não é qualquer um que faz o que eu faço".
Segundo Roseli, seus passageiros acabam se surpreendendo: "Eles ficam receosos de andar com uma mulher pilotando, mas depois admitem que somos muito mais cuidadosas que os homens, que têm muita pressa". Jaqueline conta que sofreu preconceito de um antigo patrão: "Cheguei até a discutir e querer largar o serviço, foi muito desagradável". Hoje ela trabalha com outros entregadores, e se sente reconhecida no trabalho.
A agilidade e baixo custo de manutenção são pontos fortes da moto. E, apesar de todos os riscos, a independência é o que motiva as motogirls. "Não tenho patrão, e faço o meu horário e meu salário", diz Roseli.
Cristiane diz que uma dificuldade do seu trabalho é quando o candidato recusa o fato de não estar preparado para o exame prático. "Mas tudo tem sua vantagem. Para mim é muito gratificante quando o candidato passa no exame e diz muito obrigado. Isso vale todo o seu esforço e dedicação".
Alguém se habilita?
As motogirls dão dicas para quem quer se aventurar a trabalhar no trânsito. Para Cristiane, "não basta apenas trabalhar por necessidade financeira; tem de gostar da moto e do serviço que vai prestar". Além do gosto por motos, prudência e paciência são fundamentais. "A moto é uma excelente ferramenta nas mãos de um grande trabalhador", diz Eliane.
Estresse? Nem pensar! Para Roseli, nervosismo na rua é inútil. Ela observa que o serviço é arriscado, mas "distrai, passa rápido. Com o tempo adquirimos experiência e aprendemos os macetes".
Saber pilotar para si e para os outros também é importante. Como nem sempre as motos são vistas pelos outros veículos, é recomendável buzinar constantemente e estar atento ao retrovisor. Jaqueline aconselha ao motoqueiro estar sempre munido de um bom mapa: "Muitas vezes é o seu melhor amigo".
Os números do perigo
Em Limeira, foram registradas 1335 ocorrências de acidente envolvendo motos em 2006. Os dados são do Departamento de Trânsito da Prefeitura, e apontam ainda que nesse total de acidentes 10 pessoas morreram e 1270 ficaram feridas. Das ocorrências, 759 envolveram automóvel (56,85%); 74, motocicleta (5,54%); e 35, caminhões (2,62%). Os ônibus representam 5,62%, com 75 registros.
De acordo com a Assessoria de Imprensa da Santa Casa de Limeira, nos meses de março, abril e maio deste ano foram registrados, respectivamente, 50, 35 e 34 atendimentos relacionados a acidente de moto.
Além dos riscos de acidente, a moto é um veículo bastante visado por bandidos. Gildo Ciola, investigador da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Limeira, informou que no mês de maio houve 5 ocorrências de furto e 9 de roubo, enquanto a média mensal é de