20.04.12

Não acabam neste mundo as coisas inexplicáveis. A morte é uma delas, embora seja esta a única certeza da vida. Não adianta eu tentar me esconder da morte sobre duas rodas. Embora esteja indo bem como uma sobrevivente.

Nesta semana a prefeitura divulgou uma enxurrada de números sobre o trânsito da cidade. É claro que não dá para esperar nada otimista com a situação das motos. Muito pelo o contrário. Esse véiculo, movido com paixão por alguns, ainda é arma para outros.
Nesta semana também morreu em outra rotatória de Limeira uma jovem, Letice, de apenas 23 anos. Estava de moto. Deixou um filho de 10 anos e uma vida inteira na condicional - o que "seria". O motorista do caminhão que passou por cima dela disse que não a viu ao fazer a manobra, já que ela estaria posicionada em seu ponto cego. Quem pode explicar de quem é o erro?
No ano passado, Johnny estava com uma Hornet na Lauro Corrêa, onde morreu a caminho de sua casa, que nunca chegou. Estudamos junto no colegial. Naquela época ele já andava de moto, embora não tivesse idade para habilitação. Foi o último de seus vários tombos. Ouvi dizer que, alguns dias antes de sua morte, ele teria dito que era um gato, com sete vidas. Teria gasto todas as fichas?
Numa outra ocasião, eu chegava em casa do trabalho, num sábado à tarde, quando vi, na saída de outra rotatória na Lauro Corrêa, a moto num lado e os dois ocupantes, cada um em outro. Chovia. Devidamente vestida com a capa, desci para ver se era alguém conhecido e, como já tinham chamado socorro (a aglomeração já era grande), fui pra casa. Não sem a imagem de um deles gemendo de dor, com o pé totalmente torto virado para o lado oposto, fora a condição terrível do acompanhante. Ambos vestidos de camiseta, calça e tênis. Dias depois, a notinha no jornal sobre a morte de um deles.

* * *

No trabalho, gosto de escrever ouvindo música, com um fone que veda o ruído externo. Isso ajuda a me concentrar. Entre um texto e outro, hoje ouvi novamente, na rádio online, uma música que há tempos tentava identificar. Era a "Remember It's me", do Gotthard. Tudo o que conhecia da banda era os hits que sempre tocam na Kiss, inclusive Lift U Up, que foi amor à primeira ouvida e que sempre me dá um gás quando estou pra baixo, como o próprio nome e melodia sugerem. 
Fui atrás da balada "Remember", encontrada para download no site da banda. Mas quando se gosta de uma, duas, três, ir atrás do resto é inevitável. Foi assim no passado com Heart, e recentemente com Grand Funk Railroad. Porém, bad news. Me lembrei da notícia, mas não conseguia associar porque não havia pesquisado a banda a fundo ainda. 
Steve Lee. O rock tem muitos filhos chamados Steve, Steven. Se um dia eu tiver um filho, é quase certo que ele tenha este nome também (para honrar Steven Tyler, Steven Morrissey, Steve Vai...). Tão certo quanto ele deverá gostar de rock e de moto, como eu. Como gostava o Steve Lee. Tanto que se exilou de temporadas de shows para viajar pelos EUA com amigos, a bordo de Harleys. E fiquei chocada com a estupidez da morte dele, em 5 de dezembro de 2010, parado com sua moto no acostamento de uma estrada de Las Vegas, quando vestiria a capa de chuva para seguir viagem. Com a estrada escorregadia, um caminhão derrapou na pista e bateu nas motos. Uma delas voou sobre o vocalista do Gotthard. Só bateu nele, e ele morreu, em frente a um dos companheiros de banda e de sua namorada, que saíram ilesos.
O Gotthard continua. Agora com outra voz. But remember...  

* * *

Não é ridículo? Não é inexplicável? A gente tenta achar motivos para todas as mazelas do mundo, e, no fim, temos de nos conformar com um "era pra ser", ou "tinha que ser assim". Pensa na forma mais improvável de uma pessoa morrer de moto. Pois é. 
Muita gente gosta de coisas perigosas e vive e morre com elas a todo o tempo. Cigarro, bebidas, drogas, más companhias. Motos. Como se explica uma morte ocorrida com moto? Quantas vezes consegue se determinar se era culpa do motociclista, ou do motorista de outro veículo, ou das condições? Ou da vontade de Deus? 
Era para ser? Penso em Letice, que eu não conhecia, e penso em Steve Lee, que conheci hoje. Ele tinha 47 anos e dava voz a uma música mais linda do que a outra. Era para ser? Não sabemos, mas a moto taí pra servir de culpada. Ela é? Também não sei. 
Muitas vezes já senti muito medo de que algo pudesse acontecer comigo, de carro ou de ônibus. Seria uma puta sacanagem do destino eu andar de moto toda a minha vida habilitada e sofrer alguma coisa com qualquer outro veículo. Não que eu espere más surpresas com a moto, é claro. Mas tento me preparar contra elas. Que rondam a todo instante enquanto rodo.
Mas vou fazer o quê? Há pessoas que morrem na sala com um caminhão atravessando a parede enquanto assistiam TV. Outras atravessando a rua, atravessando o mar. Não sei o que posso encontrar a cada acelerada ou freada. Não sei se meu fim "é pra ser", um dia, de moto. Ou de bicicleta, ou dormindo. Nem ouso tentar saber.
Nada pode alentar uma família que perdeu alguém. Nada pode fazer alguém não ter o estômago revirado ao ver uma moto, depois de perder alguém querido com este veículo. Mas a gente nunca sabe o fim da linha. Por isso acho que devemos valorizar a travessia. De toda viagem que faço, agradeço poder voltar. Mas se eu não curtir o "durante", não valeu todo esforço pra comprar uma moto. Para ver pessoas, lugares. Para viver. A vida é travessia. Tudo o que podemos fazer é aproveitar a infinita highway, enquanto se pode. Acho que Steve fez isso. E Letice?
Não tenho o poder de consolar ninguém, e nem quero tentar, porque sou péssima nisso. Só sei refletir comigo mesma, ainda que sem chegar a conclusão alguma. Mas com essa mistura de desgraças com moto que tenho ouvido e lido nos últimos dias (na verdade, desde sempre que VIVO de moto), hoje concluí que, se a morte pode estar nas coisas mais estúpidas, a vida pode estar nas mais simples. Não basta?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

sinto-me:
publicado por Daíza Lacerda às 04:46

13.04.12

"E se você pudesse abrir o cadeado da sua vida?". A pergunta veio de supetão. Mas, por força das circunstâncias, e indiretamente, eu já me preparava para ela. Cogitei olhar do lado de lá do portão, mas ultrapassar limites, que não passam de uma cortina de fumaça, é outra história.
Que cadeado? Como assim? Somos tão condicionados à nossa prisão, que sequer nos damos conta de que estamos em uma. Da nossa casa. Do nosso trabalho. Da nossa rotina. Da sociedade como ela nos quer. Como devemos nos adequar socialmente, economicamente, fisicamente. Tudo não passa de jaulas.
Não, não estou amargurada. Mas o choque de realidade, como caldo de galinha, não faz mal a ninguém. E imergi nisso por meio de histórias de gente que nunca vi, senão pelo detalhamento de suas "esquisitices", "loucuras", ou tragédias. Quem me contou foi a Eliane Brum.
Eliane Brum é gente que fala de gente como a gente. Mas que, nem por isso, gente como eu e você consideraria gente. Ela transpõe, com palavras, vida e alma de desconhecidos, daqueles das periferias, dos becos, dos buracos, do rés do chão. Aqueles que não notamos a presença quando passamos numa rua ou na praça, porque estamos preocupados demais em manter as nossas jaulas imaginárias para notar os outros. Ainda mais com o outro desconhecido, e que nada significa para mim.
Mas todo mundo significa algo para alguém. E parece que, em nossas jaulas, não há espaço num vão sequer para esse senso de humanidade. São essas vidas miseráveis que viram poesia, engraçada ou triste, no texto de Eliane. Com ela, eu mergulhei na vida dos outros, para nadar na minha própria.
Domingo, com a segunda-feira já batendo as portas, estava fazendo o que sempre faço: conversando com alguém pela internet enquanto via o que havia de novo no Facebook, do qual já andava reclamando. Cansei, e me dei o desafio de passar os "dias úteis" sem sucumbir àquele ladrão de tempo. As primeiras horas da sexta-feira já chegaram, e mantive firme o propósito. O Twitter também ficou de castigo.
O que eu poderia fazer de melhor em vez de ver correntes, reclamações, campanhas? Bom, além de colocar em dia os episódios de um seriado (calma, um vício de cada vez!), comecei a ler "A vida que ninguém vê", da Eliane, prêmio Jabuti de livro-reportagem em 2007.
Confesso que estou quase obcecada por ela. Eu queria ser como o Ricardo Kotscho quando crescer, mas agora estou em dúvida. O que eu queria mesmo, para o resto da minha vida, era praticar o modus operandi de Eliane. Trazer à tona história de gente desconhecida. Conhecer sobre o que ninguém se interessaria, ou ousaria perguntar. Simplificar. Ouvir. Contar.
Sinceramente, não me interesso pelo sobe-e-desce da bolsa. Tenho pavor do teatro dos vampiros da política (se é que os vampiros merecem uma comparação dessas..). As celebridades já têm gente demais pra cuidar da vida delas. E, no fim das contas, com o que, ou melhor, com quem um leitor, um telespectador se identifica?
As dores, as aflições, as alegrias da vida. Tudo isso tem um significado único para cada um. O que pode ter todas as proporções do mundo. O que é o valor da vida para alguém que está fadado a passar o resto dos dias imóvel num quarto? O que vale tentar lutar não contra uma deficiência física, mas contra o preconceito que impõe a incapacidade para a mais esforçada das pessoas? O que significa ter um trabalho simples, e viver sonhos com ele, mesmo se prostando aos outros como superiores? Pedir esmola, ou não pedir esmola. Precisar de atenção, carecer de uma chance.
A vida é muito mais do que passar o dia atualizando status no Facebook ou executando um trabalho do mesmo jeito, todo dia. A gente não foi programado pra só "dizer sim, sim"... E aceitar o que nos impõe jaula adentro. Mas, como é que se foge disso? Eu quero descobrir.
Por mais que pareça besteira, essa reclusão das redes sociais não chega a ser um passo, mas um leve arrasto numa convicção que falta ser colocada em prática. Nós somos donos do nosso tempo. Inconscientemente, porém, voluntariamente, deixamos que terceiros (quartos, quintos) se apropriem e façam dele não necessariamente o que nós gostaríamos. Enquanto a vontade fica só no "se"...
Eu reconheço que tenho muito tempo livre, e não uso devidamente. E não é de hoje. Já perdi anos à toa. Mas, nesta semana, não. Embora não tenha executado a promessa antiga das caminhadas, me apropriei do meu tempo, optando por ler Eliane. Me infiltrei voluntariamente na vida alheia, para aprender sobre a minha. E, que coisa, isso não acontece quando comentamos sobre a situação do vizinho ou o novo affair da celebridade da vez. Porque Eliane traz das vidas alheias o que realmente importa - e ensina.
Moral da história é que sobrevivi sem face e twitter. O próximo passo é esquecer que e-mail existe aos finais de semana, já no dia a dia o trabalho exige. Também não quer dizer que quero me isolar do mundo, mas pensar mais em mim. Me dedicar ao que posso melhorar e aprender. Mas, pra não cuspir no prato que comi, ou melhor, na página que compartilhei, começo a colocar em prática uma das correntes exaustivamente rodadas do face. "Livros não mudam o mundo. Livros mudam pessoas. Pessoas mudam o mundo".
Mudar o mundo é pretensioso demais. Mas já estou satisfeita. Começo a remanejar as peças do meu próprio mundo, incluindo o cadeado que me prende a muitas coisas, que hei de destrancar. Começo a ver a minha própria vida além das grades. Começo a ver a minha própria vida. É uma grande coisa.

publicado por Daíza Lacerda às 01:38

21.03.12

Outro dia escrevi para um amigo que seria ingenuidade esperar humanidade num ambiente corporativo. Agora vejo que sou tão ingênua quanto, ao sonhar com cidades mais humanas. E menos mecânicas. Menos velozes.

Apesar da maravilha de não parar num só lugar, essa vida que levo entre interior e capital é de amargar ao constatar o quão retrógrados podem ser esses dois mundos separados por 150 km e diversas cidades. Principalmente quando querem se modernizar.

No sábado, estava de frente com uma estátua de Cervantes, que ganhou um coração. Ele, pelo menos, tinha um. E os milhões de desconhecidos que passam por ele naquele início da Consolação?

A iniciativa, que abrange várias estátuas da metrópole paulista, é um mero lembrete pra mim, pra você, que temos algo pulsante "aqui dentro". Tão pulsante quanto o vai-e-vem de veículos e pessoas, que transformam vidas em dias. Alguém se lembra de transformar dias em vida?

O ponto em que quero chegar é o quanto as coisas são priorizadas em detrimento das pessoas. Isso não é novidade, mas são necessários exemplos gritantes para essa realidade estapear a nossa cara. E acabei de levar essa bofetada ao tentar adotar um caminho alternativo na volta para casa, do trabalho. Ao seguir pelas ruas dos bairros em vez das avenidas principais e anel viário esperando um pouco mais de tranquilidade, me senti num daqueles jogos de pinball, sendo jogada de um lado por outro pelos Schumackers da vida. Ultrapassagens suicidas, conversões como se ninguém mais estivesse nos arredores ou precisasse da rua e velocidade infinitamente além do ideal em área residencial foram uma supresa (nada nova) para a minha ingenuidade adormecida. O fato é que as pessoas se arriscam por pouco, num espaço que prioriza estritamente as máquinas. Entrei no Interlagos do interior. Conhecido também como via pública.

 

PASSAR POR CIMA - LITERALMENTE

Por menos que eu queira admitir, a busca por uma nova rota foi pelo medo de terminar como duas pessoas na última terça-feira, em Limeira. Literalmente, terminar. Constatei que por mais que refaça o caminho do centro de Limeira ao meu bairro, será impossível chegar em casa sem passar por pelo menos uma rotatória. Uma motociclista de 23 anos morreu numa das inúmeras rotatórias ontem. Um carro bateu na traseira de sua moto, e outro a atropelou. Situação parecida havia ocorrido 12 horas antes com outro limeirense, mas na rodovia. O carro não viu, bateu na moto, e outro passou por cima.

E se fosse eu? Se fosse a minha mãe recebendo uma ligação para ser informada que eu nunca mais voltaria para casa e provindeciasse quem buscasse o que sobrou daquele veículo que eu havia feito de tudo para comprar, e que me ajudava com o ganha-pão?

Nos dois casos citados, quem passou por cima das vítimas seguiu viagem. Só Deus sabe se um dia serão identificadas. Portanto, cuidado, há mais assassinos em potencial ao nosso redor do que possamos imaginar. Há poucas semanas, alguém bateu e outro passou por cima de uma ciclista em SP. Ela não chegou ao trabalho, sequer voltou para a família.

A morte pode ter duas, quatro, dezenas de rodas, e até nenhum motor. Mas ninguém está preocupado com isso quando a construção de magnânimas obras viárias rendem votos - e jamais irão sanar o caos do trânsito. Não há para onde ir, não tem para onde aumentar as ruas. O que precisa é tirar mais carros de circulação.


UTOPIA

Assumindo a minha ingenuidade com a última afirmação, hoje lembrei da ocasião em que David Byrne veio a SP falar de sua experiência como ciclista urbano em diversas cidades do mundo. Ele foi taxativo do quanto os estacionamentos são espaços desperdiçados. Onde poderia ter uma praça, ou local para convívio coletivo (reunir pessoas), é assegurado o direito do veículo para ter um espaço seja lá onde for (prioridade às coisas). Lembrei disso ao ler a notícia sobre um estudo que conclui que 1/4 de SP é de estacionamento. Na capital com menos árvores por km quadrado, logo logo haverá mais lugar para carro do que pra gente.

A indústria e o governo jamais deixarão de ser amantes para alavancar a produção, em nome do "progresso". Que, para mim (e muitos outros que só querem andar nas vias públicas sem sentir que a vida é ameaçada por uma máquina guiada por loucos a todo instante), não passa de retrocesso.

Também sou muito ligada ao passado. Sinto uma necessidade inexplicável de saber de onde viemos e como eram os lugares e as pessoas antes de eu chegar aqui. Por isso vou longe com pessoas saudosistas e livros de história. E, felizmente, mesmo as publicações contemporâneas têm resgatado e mostrado a queda livre social e de qualidade de vida que estamos vivendo. Um exemplo está na Época São Paulo deste mês que mostra como o Tietê na capital, que sediava campeonatos de natação, se transformou no que é hoje.

É por essas e outras que, quanto mais vejo a forma deturpada em que gestores pensam em seguir avante, mais quero me embrenhar no passado que hoje é utópico. Queria ter vivido na Limeira de ruas com paralelepípedos para não ter que noticiar que a prefeitura quebrou calçadas (lugar de pessoas) para deixar a rua com mais espaço para a fluidez dos carros (coisas). Felizmente, isso foi impedido em Limeira. Em uma situação. Mas enquanto não tirarem carros das ruas, mais das áreas das pessoas serão limadas para as máquinas e seus pilotos que só pensam em chegar logo em casa - e não simplesmente chegar, íntegro. E tampouco se preocupam se o próximo chegará ou se tem uma família o esperando.

Infelizmente, de São Paulo a Limeira, se fazem verdadeiros os versos de uma música do meu adorado Whitesnake: ain't no love in the heart of the city / Ain't no love in the heart of the town.

sinto-me:
publicado por Daíza Lacerda às 21:18

01.03.12
Das inúmeras bizarrices e inutilidades que circulam no Facebook, nesta semana apareceu em minha linha do tempo uma imagem que descrevia perfeitamente o momento político de Limeira. Numa tábua na beira do precipício, o povo fazia o peso sobre sua metade em terra firme, dando suporte, na outra ponta, ao governante na tribuna, que tinha apenas o vão infinito abaixo da base. Sem o apoio do povo, sua queda é certa. 

Só que neste mesmo canal que consome nosso tempo tantas vezes de forma improdutiva, nasceu e cresceu uma mobilização que contribuiu muito para a versão limeirense da primavera árabe. Guardadas, obviamente, as proporções e o fato de vivermos em condições políticas absolutamente diferentes. A comparação se deve a uma questão crucial em ambos os casos: o povo dar-se conta do seu poder e fazer uso eficiente dele. 

A prisão da família do então prefeito Silvio Félix e os indícios, ainda que não comprovados da possibilidade de o dinheiro público (o meu, o seu e de sua família) poder financiar dezenas de imóveis por meio de transações suspeitas de empresas do clã, tocou tanto a ira quanto o civismo (e, por que não, o orgulho) da população. Episódios de desvios éticos na política brasileira, provados ou não, são, infelizmente, corriqueiros. Mas o limeirense optou por não ter o seu governo como "apenas mais um". 

O fato de não ser uma investigação qualquer, tampouco feita por qualquer um, mas pelos profissionais do Ministério Público, com aval do Judiciário, levou as notícias a serem replicadas e os gritos de indignação compartilhados em caracteres (vozes?) que não têm hora ou limite para ecoar. Um ato aqui, outra panfletagem ali, mais algumas máscaras e adesivos de protesto. Camisetas, para vestir um ideal. O que parecia isolado, tornou-se único.

Nos três meses em que Félix tentou sustentar o insustentável perante a opinião pública, ele não pôde com persistência maior que a dele: a do povo que o elegeu. A diferença é que, com Félix, estavam alguns (ou muitos) aliados, que não foram peso suficiente para salvá-lo do precipício político. Pelo contrário. Ao correr para a mesma ponta da tábua, não só o ajudaram a afundar ao tentar defender, como parte caiu junto. 

Mesmo as pessoas mais simples, que nunca deram tanto valor aos rumos políticos, e até mesmo ao próprio voto, quiseram participar, cobrar, se inteirar da situação. Nem que fosse "pra xingar muito no Twitter" ou desabafar no Facebook ou para um vizinho. Pessoas que certamente serão mais criteriosas na próxima eleição.

Se não houvesse mobilização, seria mais do mesmo entre os casos noticiados nacionalmente. Os vereadores não sentiriam-se pressionados para instaurar uma Comissão Processante. Quantas vezes e em que situações a Câmara Municipal ficou tão lotada como nesses dias decisivos de votação? 

Em sua redoma de autoconfiança, Félix podia até ignorar a vontade popular. Os vereadores, não. Principalmente cara a cara com o eleitorado. Como em raras vezes, o povo se uniu para mostrar quem é que manda. Até porque conceito bem esquecido é o de que Legislativo serve para representar os interesses e necessidades da população e fiscalizar o Executivo para que essas sejam atendidas, e não ser conivente, ainda mais cegamente. 

Pela minha idade não tive a oportunidade de presenciar tantos acontecimentos históricos próximos (algumas Copas, talvez), portanto desconheço comemoração tão digna como a da conquista genuína do povo na Câmara. Quem já viu tamanha festa e emoção quando alguém é eleito? A cena do alcance e gosto da vitória e da participação num resultado buscado com vontade é indescritível. Quem diria, a política fez, enfim, cidadãos chorarem. De alegria! Foi o consenso em abandonar seu lado da tábua. 

Várias vezes meus colegas de redes sociais compartilharam correntes questionando por que o brasileiro não gasta com a cobrança de uma política limpa a mesma energia e tempo dedicados ao carnaval, futebol, e audiência de reality shows. Quanto da parcela da população buscou a cassação de Félix, desconheço quem possa mensurar de forma exata. Mas, quem se uniu nesse objetivo, mudou os rumos de uma cidade. E se essa ordem agisse, de fato, em problemas de outras esferas na cobrança de efetivas providências?

O povo não quis se manter calado. E isso ficou tão claro no primeiro dia de julgamento, que os populares quase ignoraram a possibilidade de a sessão ser invalidada devido às manifestações. No dia seguinte, da decisão, muitos se abstiveram de presenciar o discurso da defesa de Félix, as quase duas horas de pronunciamento do advogado José Roberto Batochio. O renomado defensor exigiu ordem e respeito, mas não perdeu a oportunidade de literalmente mandar um cidadão "limpar as orelhas" e classificar outros como retardatários do carnaval. No entanto, com essas provocações extras para se rebelar, o público se conteve. Isso devido a ação das lideranças dos diversos grupos representados, para não dar ao ilustre advogado motivos para pedir anulação da sessão. O limeirense mostrou que não basta ser unido, se não for organizado. 

Do alto de sua notória erudição profissional, os argumentos ilustrados por Batochio com diversas histórias e várias línguas não foram suficientes para derrubar a lógica de um famigerado ditado: uma andorinha só não faz verão. Tal sabedoria popular, que dificilmente entraria no culto discurso de pessoa tão gabaritada, não só se fez verdadeira como se provou em ares limeirenses. As andorinhas unidas - pela internet, pelo boca a boca ou pela legítima ânsia de justiça - não só fizeram verão, mas um verão histórico para Limeira.
sinto-me:
publicado por Daíza Lacerda às 03:52

04.01.12

Michel Teló é como o Corinthians. Quem não ama, odeia. Assumo que estou no grupo que abomina a música do paranaense e similares (e também o time paulista, como boa palmeirense).
Certa vez fiquei injuriada por, mesmo sem querer, ter o status do Neymar enfiado goela abaixo nas páginas dos jornais, tweets e flashes da TV. É incrível como, mesmo sem querer saber da pessoa, a coisa chega até você. A não ser que se isole do mundo - e da mídia.
Com o tal do Teló é o mesmo, a bola da vez. Não sei explicar a minha indignação ao ver pipocar no TweetDeck o anúncio de "If I catch you" e tudo mais, dos novos voos do astro. E eu estava com a revista Época em mãos, comprada no final de semana, quando vários começaram a compartilhar uma crítica de um blog à capa da semana, com o dito cujo. Acompanho a edição online e compro a física uma vez por mês, com a Época São Paulo. Afinal, não seria o astro sertanejo o responsável pela aquisição.
Li antes a matéria para depois consultar o blog com as críticas, e assino embaixo cada observação. Como jornalista, senti uma "vergonha alheia" pelo texto apaixonado, que se acaba em adjetivos. É um toque que acho válido até, jornalísticamente. Mas há um limite e certamente o contexto dessa matéria não merecia tal recurso. Parece depoimento de tiete. Eu não faria melhor para os Paralamas ou Titãs, que têm história de verdade na cultura musical brasileira!
Gosto muito de ler a Época, justamente pelas abordagens que costuma fazer. É inegável que o tal do Teló é um fenômeno, assim como foi o É o Tchan e o Bonde do Tigrão ao seu tempo (que, felizmente, já passou). É pauta e vende. Só que é, no mínimo, indigesto, encarar uma reportagem tal como foi feita. Ainda mais depois de ler páginas excepcionais de uma entrevista com Umberto Eco (claro que não há comparação). Caberia milimetricamente numa revista adolescente.
Jornalísticamente acho válido ir atrás de profissionais e pensadores que possam repercutir o boom do sertanejo universitário que, efetivamente, tornou-se objeto de estudo (assim como outras tendências na música e inúmeras outras áreas). Eu gostando ou não, não deixa de ser uma tendência cultural. Agora, literalmente "lamber" o cara como está descarado na matéria, isso realmente é desrespeito com o leitor. Embora não exista objetividade jornalística, opinião expressa está em outra seção. E babação... não sei onde isso entra no jornalismo!
LUZ NO FIM DAS PÁGINAS
Endossando a crítica do colega do blog, dizer que aquilo traduz a cultura popular brasileira (e, pior, a leva para inglês ver), é, no mínimo, leviano. Uma verdadeira blasfêmia, em minha humilde opinião. Não desmereço esforço algum do cidadão para chegar ao estrelato. Afinal, criar músicas como as suas que estão bombando é para poucos. Messsmo.
Mas, se estamos falando em cultura, quem conseguir sobreviver bravamente às 12 páginas ricamente ilustradas dedicadas ao cantor, terá a luz no fim do túnel. Ou da revista, se assim preferirem.
Na seção Mente Aberta, o item cinema me fez querer mais, muito mais do que as cinco páginas que falam do projeto existente há décadas em que, em diversas tribos, os próprios índios documentam, em vídeo, sua cultura. E resgatam costumes esquecidos. Com muito menos palavras e fotos, me fez coçar a mão pra dar R$ 200 no livro e DVD "Vídeo nas aldeias- 25 anos". Sendo que não pagaria um décimo para consumir "ai se eu te pego" e similares. Mas, não sei. Talvez eu esteja equivocada no que me chama atenção em representações da cultura brasileira.

Confira aqui os posts do blog que bombou ao criticar a matéria:
http://literatortura.wordpress.com/2012/01/02/a-epoca-do-bom-senso-ja-passou/
http://literatortura.wordpress.com/2012/01/03/a-epoca-do-bom-senso-ja-passou-resposta/

sinto-me:
publicado por Daíza Lacerda às 23:23

25.07.11

Artigo publicado na Gazeta de Limeira dia 18 de abril de 2011. 

 

 

 


 

publicado por Daíza Lacerda às 23:38

27.12.08

      Daíza Lacerda*

 

     Balançando ao som e ao ritmo do vento, estava envolto em vagos pensamentos na varanda, na centenária cadeira de balançar.

Fitando a linha do horizonte, que aparentemente nada me dizia, mas muito me mostrava, uma lembrança me tomou, de súbito. Levantei-me e dirigi-me casa adentro, descendo as velhas escadarias do fim corredor que rangiam e soltavam bafos de pó com a minha passagem. Mais alguns degraus e uma porta adiante, e lá estava.

      Cuidadosamente preservado pela família por anos, o velho baú de bronze parecia irredutível às mazelas do tempo; mas nada do que guarda foi poupado. Dele retirei um álbum com algumas fotografias e voltei para a varanda na esperança de relembrar algo útil, já que não tinha outras opções no marasmo do tempo. E agora, a linha do horizonte é que me encarava.

 

        Aquela primeira foto foi orgulhosamente exibida por mamãe. E muito exibida.

– Já era um menino-diabo desde estes tempos, não?

– Que mal há, oras?! Apenas uma criança na escola, que tem demais? – Retruquei ao garoto da foto, que petulantemente me chamava atenção.

– Tem demais que mamãe se gabava de pelo menos estar na escola para compensar todas as confusões das travessuras.

– Qual garoto não apronta? – perguntei, e sem esperar resposta avancei a página.

Difícil era moleque nascido na roça ir parar na escola. Quando a professorinha veio morar nas bandas da fazenda, quis porque quis alfabetizar a gurizada. Mamãe mais que depressa acatou a idéia e meteu-me a todo custo na cabana improvisada e quente como o inferno na seca braba, o que chamavam sala de aula. Fiz a vontade da mãe, o que não mudou o meu temperamento danado: nas horas-aula confinado, queria é caçar pomba ou roubar as laranjas do pé do vizinho, que pareciam mais saborosas do que as nossas.

Na próxima foto eu estava mais moço, mas com a mesma cara marota.

– Aqui já havia aprendido um bocado, não? – Perguntei-me, ilustrando a foto.

– Os calos que esconde aí já respondem, moleque!

– Que moleque! Moleque há de ter calos? Sou é moço, não vê?

– Tem calos sim, mas nada sabe ainda.

Gostava daquela foto, onde eu era eu mesmo, pé descalço no chão de terra e os pomares adiante, contrastando o clarão do céu de dia ensolarado, com meus calos. Calos leves, que se acentuaram após a morte de papai. Virei a página.

As próximas fotos, com sorriso “maquiado”, me eram mais duras que a enxada e o solo que esta se espatifava contra. Era a dureza do asfalto.

Quando a lavoura já não trazia renda suficiente, mamãe me mandou para a cidade. Era um rapagão, mas bicho do mato que não queria deixar nem a terra e nem a mãe aos cuidados de outros. Mas fui.

Perambulei que nem boi tonto entre os automóveis, ônibus, arranha-céus e apressados transeuntes. Tudo o que consegui foi ser peão numa obra aqui, outra acolá, mas garantindo um dinheirinho para sobrevivência minha e de mamãe, que adoecia.

Antes que eu me fizesse qualquer comentário infeliz, como nas fotos anteriores, passei para a próxima, possivelmente a mais significativa: eu e mamãe.

Já tinha meus fios brancos na cabeça, e mamãe encobria os dela com o usual e surrado lenço. Estava à beira da morte, mas nem em seu fim me convenceu a voltar para a cidade, e muito menos à escola para me garantir sem ela.

Pode-se replantar ou enxertar. Raízes não se perdem. Estou fincado aqui para a eternidade.

Nada do que o velho baú de bronze guarda foi poupado, a não ser as recordações de um vai-e-vem sem nunca sair do lugar, de fato.

Com o álbum fechado, volto-me ao horizonte, que não me olha mais. Baixo meu olhar ao nosso jazigo, bem aqui em nossa terra, onde mamãe cuida das flores e me chama para voltar à sua companhia.

 

 

*Conto classificado para a fase regional do Mapa Cultural Paulista 2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Daíza Lacerda às 14:29

23.12.08

Resenha do livro “Por Quem os Sinos Dobram”, de Ernest Hemingway, com tradução de Monteiro Lobato. 12° Edição, Companhia Editora Nacional, 1972, São Paulo-SP

 

Daíza Lacerda

 

A tênue linha que separa o amor e o ódio, a lealdade e a traição, o heroísmo e a covardia, a fé e a descrença... a vida e a morte. Escrito por Ernest Hemingway e publicado em 1940 em homenagem aos seus amigos republicanos vencidos pelos nacionalistas na Guerra Civil da Espanha (1936-1939), “Por Quem os Sinos Dobram” expõe os limites humanos nus e crus.

Robert Jordan, um idealista americano, engaja-se na Brigada Internacional apoiando os republicanos na Guerra Civil Espanhola. Em missão para o Serviço de Inteligência Militar (S.I.M.), Jordan é designado para explodir uma ponte em uma ofensiva.

Anselmo, seu guia, leva-o até o grupo de guerrilheiros - ou partizans - que o deverá ajudar na empreitada, onde conhece Pablo (líder até então) e Pilar, sua “bárbara”, enérgica e sábia mulher. Encontra ainda Fernando, homem burocrático de tão sério, os irmãos Eládio e Andrés, o cigano Rafael (não tão responsável como os outros) e Maria, a rapariga por quem viria a se apaixonar e conhecer o amor, sentimento que o leva a fazer questionamentos àquele ataque e a ver a guerra e aventura humana com outros olhos.

Pilar, no relato de suas recordações, mostra a intensidade do amor dos tempos da tourada, ao lado do toureiro Finito. Com suas palavras também nos leva, fatalmente, ao âmago da revolta que gerou ódio e violência no início da guerra: terror e crueldade na execução de civis e o hediondo episódio da “malhação” de manguais sofridos pelos fascistas. Esta matança coletiva presidida por Pablo e executada por camponeses ébrios de vinho não poupou nem mesmo um padre, o que acabou perturbando Pablo fazendo-o, mais tarde, abrandar suas atitudes na guerra (ou se acovardar, no julgamento de Pilar).

A crueldade ilimitada trouxe consigo a descrença, como mostra o questionamento de Jordan: “– Então, você não tem mais Deus?”, onde o leal Anselmo responde: “– Não, homem. Certo que não. Se houvesse Deus, Ele nunca permitiria o que tenho visto com meus olhos.” (p. 37).

Em seus monólogos, Jordan travava uma guerra consigo mesmo, pois mesmo com os objetivos claros, inquietou-se devido às circunstâncias: "Que caso! Você caminha a vida inteira com uma idéia, certo de que significa alguma coisa e acaba convencendo-se de que não significa absolutamente nada. Esta porcaria de agora!” (p. 151-2). Ocorrências estas como o amor de Maria, a petulância e traição de Pablo e a ameaça do ataque da cavalaria fascista que dizima o bando do aliado El Sordo.

Erradicados os anseios e dúvidas, a ponte finalmente é explodida. Arremessados os estilhaços e baixada a poeira, conta-se os mortos: para a dor de Jordan, Anselmo, seguido de Eládio e um Fernando agonizante. Mas, durante a fuga, uma montanha espera Robert Jordan com o fim da linha dos extremos. E os sinos dobram por ele, assim como dobram por ti.

publicado por Daíza Lacerda às 14:53

01.12.08

O trabalho sobre duas rodas começa a abrir espaço para o público feminino


Texto e infográficos: Daíza Lacerda

 

A saga diária dos motoboys é conhecida pela corrida contra o tempo e pelos constantes perigos no trânsito. Mas o trabalho sobre duas rodas, antes dominado pelos homens, começa a abrir espaço para o público feminino.

O número de mulheres pilotando motocicletas é crescente: em concessionárias de Limeira, o índice de vendas varia de 15% a 30%, dependendo da loja. Eduardo Panciero, gerente da Intermotos Sundown, diz que geralmente as motonetas são o carro-chefe das vendas, que chegam a 65% para elas. No caso das 125 cilindradas, aproximadamente 40% são compradas por mulheres. "Acredito que destas, 40% sejam destinadas ao trabalho", completa Panciero.

Com vendas para mulheres estimadas em 20%, Ademar José Custódio Junior, gerente da Official Suzuki, ressalta que o crescimento das vendas para o público feminino é constante: "Para elas, as vendas sobem média de 5% ao mês".

De acordo com o Ciretran, havia mais de 25 mil motos em Limeira até o final do ano passado, mas o departamento não tem dados atualizados sobre a frota, e nem estatística de habilitados. "Estimamos que do total de mulheres que tiram carta, 40% se habilitam em carro e moto, enquanto com os homens este índice é de 70%", informa o instrutor Fernando Moreira.

Em 1993, quando se habilitou para dirigir carros, Rosângela Gomes Delfino, 38, tinha pavor de moto. Hoje, a realidade é outra. Trabalhando como motogirl há três anos, Rosângela teve de se adaptar ao veículo: "Por necessidade, aprendi a gostar de moto. Hoje já não vivo sem ela!"

Fazendo entrega de alimentos durante o dia e à noite, a motogirl roda diariamente cerca de 150 quilômetros. Para quem começou como mototaxista, considera o serviço de entregas "sossegado". "As empresas já têm os clientes, então eu já sei pra onde eu vou. Como moto-táxi a gente carrega todo tipo de gente, já levei até bêbado", conta, falando da dificuldade em ter que controlar a moto e o desajeitado passageiro.

"Gosto muito de dirigir, amo o que faço. Apenas juntei o útil ao agradável!", declara Eliane Cristine da Silva, 27, que começou a trabalhar com moto há seis anos fazendo "bicos" de cobrança de telemensagens e entrega de revistas. Há três anos, ela trabalha em uma concessionária fazendo entrega de peças em Limeira e região. A motogirl fala também das desvantagens do trabalho: "Por causa dos mais abusados, os outros generalizam e acabamos sofrendo as conseqüências".

Motogirl há um ano e meio, influenciada pelo irmão que trabalhava com moto, Jaqueline Cristiane Herrero, 21, roda 1000 quilômetros por semana trabalhando para duas empresas com entregas de lanches e pizzas. Para ela, o que começou por necessidade, hoje considera lazer. E apesar de já ter sofrido três acidentes "sendo o último o mais grave em que ficou com 14 pontos na perna e dez dias sem trabalhar", a motogirl acha que a consideração pelo trabalho é o seu maior retorno: "No meu trabalho, sempre tenho ajuda para o que precisar".

Roseli Alves, 31, começou a trabalhar de moto há um ano. Fazendo entrega para fábrica de jóias, farmácias, gráficas e serviços de moto-táxi, roda 1500 quilômetros por semana. Quanto aos passageiros, diz que ao contrário do que se pensam, os homens a respeitam muito, por ter certo receio com as mulheres na direção da moto. "Eles nem relam em mim, às vezes na lombada encostam sem querer e pedem desculpas, chega a ser engraçado", diz.

Instrutora de motos há 15 anos, Cristiane Aparecida Amador dos Santos, 34, diz que é cada vez maior o número de mulheres que se habilitam em moto, e que muitos candidatos preferem uma mulher ensinando: "Os candidatos me respeitam muito, mas a maior procura é pelas meninas, que se sentem mais seguras quando o instrutor é mulher". Em Limeira há dez instrutoras, sete delas de moto.

 

 

Assaltos e acidentes no caminho

"Só depois de ver o revólver na minha cara é que entreguei o malote", conta a motogirl Eliane Cristine da Silva. Ela tentou fugir de dois motoqueiros que a seguiram quando fazia um saque para a empresa, e aconselha: "Não façam isso de maneira alguma!". O assalto aconteceu há dois anos, em Limeira, e desde então não faz mais esse tipo de serviço e ainda é traumatizada com moto que acelera muito perto.

Como transportam desde refeições até documentos e dinheiro, as motogirls enfrentam risco de roubo freqüente. Além disso, presenciam "às vezes, como vítimas" muitos acidentes. Jaqueline fala do choque que foi ver um motoqueiro com fratura exposta: "Ele estava na minha frente, e cruzaram a sua preferencial. Ajudei a socorrer e fui testemunha a seu favor". "Um infeliz cortou a minha frente, e bati de lado no carro. Ainda me equilibrei e não deixei a moto cair, mas trinquei o dedão e o dedinho do pé!", diz Eliane.

Excesso de velocidade, desatenção e até animais complicam ainda mais o trânsito. Roseli conta o caso de um amigo moto-taxista que foi desviar de um cachorro num cruzamento. Nem ele e nem o carro que vinha parou e o resultado foi vários ossos da perna quebrados.

Luxação no pé e sete dias "de molho" foi o saldo de uma colisão sofrida por Rosângela: "Sem tempo de frear, bati na porta de uma caminhonete que saiu com tudo de uma garagem". Detalhe agravante: tinha chovido e o chão estava liso, afinal, a chuva também é inimiga do motociclista. "É muito incômodo e perigoso dirigir na chuva, tem que redobrar a atenção", diz Cristiane.

 

Muita calma nessa hora!

Muitos candidatos a motociclistas adquirem moto e começam a dirigir antes de ter a habilitação em mãos. Para estes, Cristiane destaca o valor da atenção e responsabilidade nas ruas: "É um veículo perigoso. Nas aulas, os candidatos são preparados para prestar exame prático, mas no dia-a-dia é outra coisa. É preciso ter noção de trânsito".

E esta não é uma obrigação só de quem dirige moto. As motogirls são unânimes nas reclamações contra veículos grandes que "só faltam passar por cima", muitas vezes sem sinalizar.

Mas, muita calma nessa hora - tanto para os motoqueiros quanto para os motoristas em geral: Eliane conta que já foi perseguida por um carro por ter buzinado e xingado quando este "embicou" em sua preferencial. "Depois daquele dia eu penso muito antes de fazer alguma coisa, pois eu poderia ter tido um grande problema", declara.

Nos cruzamentos, o perigo não é só os veículos. A atenção e cooperação dos pedestres também é fundamental para evitar acidentes. "Pessoas de qualquer idade, senhores, mães com crianças não param no sinal e entram na frente. Nós é que temos que parar, porque além de tudo levamos multa por qualquer coisa e eles não", lembra Roseli.

Outro problema é o fato de as motos de baixa cilindrada - como as 125cc ou 150cc, geralmente as mais usadas para trabalho - serem as mais visadas para roubo. Das motogirls entrevistadas, apenas uma tem moto no seguro graças a uma parceria da concessionária com uma empresa do setor que propôs um valor considerado acessível. Do contrário, o valor do seguro pode se igualar ao da moto, e ainda assim a maioria das seguradoras só trabalha com veículos acima de 250cc.

 

Afinal, por que moto?

 

O que se percebe nas ruas de Limeira é que um número cada vez maior de mulheres opta pela moto como meio de transporte. Apesar disso, Cristiane diz que "na maioria das vezes, os pais não apóiam as mulheres a tirarem carteira de motocicleta e isso influencia muito no aprendizado delas". No trabalho, algumas alegam que o preconceito existe, mas a admiração é maior. "Ás vezes acabamos cometendo infrações, e sempre tem um na rua que manda ir pilotar fogão, mas onde trabalho sou respeitada e admirada. Conquistei o meu espaço", diz Rosângela. Eliane concorda: "Financeiramente gostaria de ter um maior reconhecimento, mas se sinto admirada, pois não é qualquer um que faz o que eu faço".

Segundo Roseli, seus passageiros acabam se surpreendendo: "Eles ficam receosos de andar com uma mulher pilotando, mas depois admitem que somos muito mais cuidadosas que os homens, que têm muita pressa". Jaqueline conta que sofreu preconceito de um antigo patrão: "Cheguei até a discutir e querer largar o serviço, foi muito desagradável". Hoje ela trabalha com outros entregadores, e se sente reconhecida no trabalho.

A agilidade e baixo custo de manutenção são pontos fortes da moto. E, apesar de todos os riscos, a independência é o que motiva as motogirls. "Não tenho patrão, e faço o meu horário e meu salário", diz Roseli.

Cristiane diz que uma dificuldade do seu trabalho é quando o candidato recusa o fato de não estar preparado para o exame prático. "Mas tudo tem sua vantagem. Para mim é muito gratificante quando o candidato passa no exame e diz muito obrigado. Isso vale todo o seu esforço e dedicação".

 

 

 

 

 

 

Alguém se habilita?

As motogirls dão dicas para quem quer se aventurar a trabalhar no trânsito. Para Cristiane, "não basta apenas trabalhar por necessidade financeira; tem de gostar da moto e do serviço que vai prestar". Além do gosto por motos, prudência e paciência são fundamentais. "A moto é uma excelente ferramenta nas mãos de um grande trabalhador", diz Eliane.

Estresse? Nem pensar! Para Roseli, nervosismo na rua é inútil. Ela observa que o serviço é arriscado, mas "distrai, passa rápido. Com o tempo adquirimos experiência e aprendemos os macetes".

Saber pilotar para si e para os outros também é importante. Como nem sempre as motos são vistas pelos outros veículos, é recomendável buzinar constantemente e estar atento ao retrovisor. Jaqueline aconselha ao motoqueiro estar sempre munido de um bom mapa: "Muitas vezes é o seu melhor amigo".

 

Os números do perigo

Em Limeira, foram registradas 1335 ocorrências de acidente envolvendo motos em 2006. Os dados são do Departamento de Trânsito da Prefeitura, e apontam ainda que nesse total de acidentes 10 pessoas morreram e 1270 ficaram feridas. Das ocorrências, 759 envolveram automóvel (56,85%); 74, motocicleta (5,54%); e 35, caminhões (2,62%). Os ônibus representam 5,62%, com 75 registros.

De acordo com a Assessoria de Imprensa da Santa Casa de Limeira, nos meses de março, abril e maio deste ano foram registrados, respectivamente, 50, 35 e 34 atendimentos relacionados a acidente de moto.

 Além dos riscos de acidente, a moto é um veículo bastante visado por bandidos. Gildo Ciola, investigador da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Limeira, informou que no mês de maio houve 5 ocorrências de furto e 9 de roubo, enquanto a média mensal é de 8 a 14, nos dois casos. O roubo é caracterizado por ameaça ou violência ao condutor, e furto é a subtração do veículo sem a presença da vítima. 

 


Publicado originalmente no jornal laboratório Em Foco (Edição 48/julho/2007)

 

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publicado por Daíza Lacerda às 17:00

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